Como deve ser a reabertura dos parques Disney diante do coronavírus

Na era da pandemia de covid-19, visitar a Disney World e a Disneylândia será uma experiência bem diferente quando essas atrações reabrirem.

Nas últimas semanas, a Disney anunciou planos para reabrir seus parques temáticos nos EUA de maneira escalonada a partir do início do verão americano. A data anunciada para a reabertura do Disney World, na Flórida, é 11 de julho. A Disneylândia, na Califórnia, pretende abrir as portas a visitantes a partir de 17 de julho.

Os planos de reabertura atraíram críticas; milhares de pessoas chegaram a assinar uma petição recomendando que ela fosse adiada para proteger os funcionários e visitantes das atrações. Mas a empresa diz que está tomando medidas para proteger a saúde e segurança das pessoas. As medidas incluem a redução de capacidade, verificações de temperatura corporal e a obrigatoriedade do uso de máscara.

Ainda não se sabe qual será a eficácia desses procedimentos para prevenir a propagação do coronavírus. Mas sabemos que a experiência de visitar um parque temático será diferente na era da covid-19.

O HuffPost pediu a especialistas em hospitalidade e fãs dos parques Disney para compartilhar como preveem que será uma ida ao Disney World ou à Disneylândia neste verão, baseados nas medidas de segurança anunciadas e em suas próprias especulações informadas.

“Imagino que talvez não seja fácil as pessoas se acostumarem com algumas dessas medidas novas. Mas imagino que a maioria dos visitantes vai entender e terá paciência, agora que o setor se prepara para operar sob condições novas”, disse Carissa Baker, professora adjunta na Faculdade Rosen de Administração Hospitalar da Universidade da Flórida Central. “Para algumas pessoas, porém, respeitar a distância exigida e não contar com os sorrisos que são sinônimos da Disney será uma experiência estranha, embora essencialmente social.”

C0mo serão essas novas medidas? Continue lendo para saber o que preveem os especialistas.

Haverá menos pessoas nos parques temáticos.

“Uma coisa que os visitantes vão notar imediatamente será o número menor de pessoas nos parques”, disse Scott Smith, professor da Faculdade de Administração de Hospitalidade, Varejo e Esportes da Universidade da Carolina do Sul. “A Disney vai limitar a capacidade de seus parques temáticos, para evitar multidões.”

A Disney já indicou que para possibilitar o distanciamento social, serão admitidos menos visitantes em seus parques nos EUA, mas não divulgou detalhes específicos. Quando a Disneylândia de Xangai reabriu suas portas, no início de maio, o governo chinês impôs um limite de 24 mil visitantes por dia, menos de um terço da capacidade do parque antes da pandemia. O Disney Springs – um complexo de varejo, restaurantes e entretenimento na DisneyWorld – também iniciou uma reabertura escalonada em 20 de maio, com capacidade limitada.

Foto aérea do Walt Disney World, fechado devido à pandemia de covid-19, feita em 23 de março de 2020.
Foto aérea do Walt Disney World, fechado devido à pandemia de covid-19, feita em 23 de março de 2020.

As atrações individuais também terão sua capacidade reduzida. Foram suspensas as queimas de fogos de artifício, os desfiles e shows, que tendem a atrair multidões grandes.

“Para falar a verdade, estou gostando da ideia de haver menos multidões”, comentou Kathleen Wolfe, especialista em viagens à Disney e fundadora da Get Down to Disness. “Venho a estes parques temáticos há muitos anos, e cada ano os períodos de menos movimento vêm diminuindo. Falando só por mim, admito que será ótimo ter mais espaço para caminhar pela Main Street USA.”

A tecnologia exercerá um papel maior.

A pandemia está levando muitas empresas a explorar novas tecnologias que reduzam as oportunidades de propagação de doenças. O Disney World, que já contava com um aplicativo robusto e um serviço de planejamento online, o My Disney Experience, anunciou um novo sistema de reservas para ingressos no parque. Não será mais possível comprar os ingressos na entrada.

“Acho que a Disney terá mais filas virtuais e mais integração com smartphones”, previu AJ Wolfe, fundador do Disney Food Blog. “Filas virtuais já foram usadas no caso da atração Galaxy’s Edge tanto no Disney World quanto na Disneylândia. Elas podem ser modificadas levemente para ganhar mais eficiência (no momento os ingressos para a atração Rise of the Resistance costumam esgotar logo cedo pela manhã), mas o modelo já existe. Fora isso, acho que as notificações dos parques Disney e o planejamento de viagens podem ser ainda mais integrados aos apps oficiais do Disney World e da Disneylândia.”

Outras maneiras de reduzir os contatos entre pessoas e das pessoas com superfícies tocadas com frequência incluem menus de restaurantes no celular e pagamento com cartões “contactless”.

“Esperamos ver todos os restaurantes de atendimento rápido funcionando com os pedidos feitos por celular e os pagamentos feitos por vários processos. Além disso, as bolsas serão revistadas por raio-X, em lugar de uma revista manual”, disse a equipe responsável pelo blog Tips from the Disney Divas & Devos. “A nova possibilidade de bater papo através do My Disney Experience deve economizar muito tempo, já que as pessoas não vão mais precisar dirigir-se à recepção.”

“Já ouvi comentários de que esses serviços virtuais tornam a visita menos espontânea, mas eu argumentaria que muitos visitantes vêm planejando suas férias há décadas e que essas ferramentas os ajudam.”

- - CARISSA BAKER, PROFESSORA ADJUNTA DA FACULDADE ROSEN DE ADMINISTRAÇÃO DE HOSPITALIDADE DA UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA CENTRAL

Por outro lado, o sistema FastPass+ vai ser desativado, de modo que as pessoas não vão poder fazer reservas para brinquedos individuais. Kathleen Wolfe destacou que o Disney World pode aproveitar a oportunidade para realizar uma revisão do sistema, que, para ela, tem várias falhas. Ela espera que o parque adote o sistema MaxPass pago da Disneylândia (e que a Disneylândia implemente a tecnologia MagicBand usada no Disney World, que prescinde de ingressos).

“Já ouvi comentários de que esses serviços virtuais tornam a visita menos espontânea, mas eu argumentaria que há muitos visitantes que vêm hiperplanejando suas férias há décadas e que essas ferramentas os ajudam”, opinou Baker. “É verdade que as pessoas que antes não utilizavam essas ferramentas agora terão que usá-las, mas essa já era a tendência de qualquer maneira. Por exemplo, o único jeito de curtir a nova atração Rise of the Resistance já era obter um grupo de embarque através do app, quando a pessoa já estivesse dentro do parque.”

Serão implementados novos procedimentos de saúde e segurança

“Algumas das mudanças mais perceptíveis nos parques Disney nos Estados Unidos têm a ver com procedimentos de segurança”, falou Baker, destacando que os visitantes terão que ter sua temperatura medida antes de entrar nos parques. Ela também prevê uma faxina mais frequente, estações com álcool gel e telas de proteção de acrílico nos pontos de venda.

“Depois de ver e ouvir o que os estabelecimentos comerciais estão tendo que fazer apenas para poderem reabrir as portas, em matéria de condições sanitárias e higienização de mercadorias e outros produtos depois de terem sido tocados por consumidores, não sei como a Disney vai lidar com o fato de os visitantes tocarem cada veículos dos brinquedos. Nem sei como ela vai lidar com as filas”, comentou Jeff Reitz, veterano da Força Aérea que foi à Disneylândia todos os dias desde 2011 até quando o parque fechou as portas, em março. “Não vejo a hora de poder voltar, mesmo que seja apenas para ver como tudo vai ficar. Acabo de ler no Hollywood Reporter que os cinemas poderão começar a reabrir nesta sexta-feira. Estavam falando na possibilidade de usar capas descartáveis nos assentos.”

Vários especialistas que conversaram com o HuffPost pensam que os parques da Disney vão manter as medições de temperatura corporal e os procedimentos de higienização intensificados até que haja uma vacina contra o coronavírus. Uma redatora do blog Tips from the Disney Divas & Devos que se assina Allergy Mom Diva (seus filhos têm alergias alimentares) disse que está adorando a ideia da atenção adicional dada à limpeza e higienização.

“Vivo preocupada com as partículas alimentares que outros visitantes deixam sobre as mesas, os corrimões e os brinquedos”, ela contou. “Não vou me incomodar nem um pouco em esperar um pouco mais para comer ou ir nos brinquedos, se isso significar que as coisas estão sendo limpas com mais frequência, o que significa mais segurança para meus filhos.”

O uso de máscara será obrigatório.

A Disney anunciou que as máscaras faciais serão obrigatórias para funcionários e visitantes a partir dos 2 anos de idade.

“A Disney geralmente erra por excesso de cautela. Prevejo que as máscaras vão continuar a ser obrigatórias até o momento em que o governo relaxar as diretrizes sugeridas”, disse Smith. Ele disse que ouviu falar que o uso de máscaras será implementado rigidamente nos parques Disney.

Pessoas de máscara visitam a Disneylândia de Xangai após sua reabertura em 11 de maio de 2020.
Pessoas de máscara visitam a Disneylândia de Xangai após sua reabertura em 11 de maio de 2020.

“Acho que a Disney vai aproveitar a necessidade da máscara para vender mais produtos temáticos, como ela já faz com quase tudo (por exemplo, bonés, camisetas, sorvetes)”, ele acrescentou. “Os visitantes sempre gostam de ter produtos que representam seu personagem ou atração favorito. Pense nas centenas de Magic Bands de diferentes temas ou personagens que são vendidas diariamente.”

Baker comentou que a Disney já está vendendo máscaras de tecido com estampas das princesas Disney, Mickey, Minnie, personagens da Pixar e outros.

“Imagino que, se as máscaras continuarem a ser obrigatórias, a Disney vai poder fazer máscaras com temas de cada parque ou ampliar o elenco de personagens retratados nas máscaras”, ela disse.

Os funcionários terão que guardar distância.

Os funcionários dos parques, conhecidos no jargão da Disney como “membros do elenco”, também terão que aderir a mudanças.

“A Disney está exigindo que os membros do elenco usem máscaras (fornecidas pela empresa), que sigam o distanciamento social nas áreas de ‘bastidores’, que essas áreas sejam higienizadas com frequência e que eles meçam sua temperatura tanto em casa quanto no local de trabalho”, disse Baker. “Desconfio que a Disney também terá que treiná-los para convencer os visitantes a cumprir as novas regras. Mas isso não difere muito das funções atuais de segurança desempenhadas por esses funcionários.”

Smith comentou que os membros do elenco mais velhos talvez hesitem em voltar aos parques, já que pessoas mais velhas parecem ser mais vulneráveis à covid-19 que pessoas mais jovens.

Experiências que envolvem contato físico estreito, como makeovers e encontros de visitantes com personagens, serão excluídos por enquanto. As refeições com personagens da Disney foram canceladas, com a exceção de uma opção modificada no Riviera Resort do Disney World. Kathleen Wolfe acha que a falta de interações com os personagens da Disney será a mudança mais perceptível nos parques depois de reabrirem.

“Ninguém vai querer passar suas férias nos parques se a diversão for muito prejudicada pelas restrições e os horários reduzidos.”

- SCOTT SMITH, PROFESSOR ADJUNTO DA FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO DE HOSPITALIDADE, VAREJO E ESPORTES DA UNIVERSIDADE DA CAROLINA DO SUL

“Sem os Amigos, as Princesas e os Vilões da Disney andando por aí, batendo papo com visitantes, acenando de carros alegóricos nos desfiles, dando autógrafos e posando para fotos, ficará faltando muita coisa que caracteriza a chamada ‘experiência Disney’”, ela disse. “O modo como pessoas de todas as idades se identificam com e assimilam certos personagens da Disney é um fenômeno que só pode ser atribuído à magia.”

Ela especulou que os personagens talvez possam voltar de maneira modificada, talvez se posicionando a certa distância atrás dos visitantes em fotos ou até em forma digital em telonas. Abraços provavelmente ficarão proibidos por algum tempo.

Haverá mais visitantes locais do que internacionais

Os fãs da Disney são conhecidos por seu entusiasmo, mas especialistas preveem alguns limites a essa devoção, em termos de quais deles vão optar por voltar primeiro aos parques Disney.

“Acho que a população local, que está vivendo sem sua dose habitual de Disney há alguns meses, vai correr para voltar quando os parques reabrirem”, disse Smith. Para ele, a maior parte dos primeiros visitantes após a reabertura será formada por moradores locais e pessoas que possuem passes anuais. Por sinal, a empresa anunciou que vai suspender temporariamente a venda de novos ingressos, para dar espaço para pessoas que já têm ingressos, que tenham passes anuais ou sejam sócias do Disney Vacation Club.

“Acho que pessoas de fora desses grupos vão hesitar em viajar devido às dificuldades, por exemplo a dificuldade de viajar de avião, de encontrar um hotel que esteja funcionando”, ele prosseguiu. “Também há uma mentalidade de ‘esperar para ver’ – muitos viajantes vão esperar para ver se vale a pena investir tempo e dinheiro para curtir a experiência Disney. Ninguém vai querer passar suas férias nos parques se a diversão for muito prejudicada pelas restrições e os horários reduzidos. Pode ser que leve vários meses para as pessoas sentirem que é hora de reservar férias na Disney.”

Reitz ecoou essa opinião. Morador da região, ele diz que está empolgado com a possibilidade de voltar, porque seu passe anual já está pago e, se a experiência não satisfizer suas expectativas, pelo menos ele não terá gasto dinheiro com hospedagem.

Não é o caso da maioria das pessoas. Milhões de americanos enfrentam incerteza financeira e no trabalho, fato que diminui a probabilidade de reservarem férias caras. E muitos estão cautelosos, não querendo arriscar a própria saúde ou a de seus entes queridos no meio da pandemia. A ideia de ter que usar máscara o dia inteiro sob o calor do verão também pode tornar a experiência menos atraente. A Flórida exige que visitantes vindos dos Estados de Connecticut, Nova York e New Jersey façam quarentena de 14 dias ao chegar. E os visitantes internacionais ainda levarão algum tempo para retornar.

“Prevejo que nos primeiros meses de reabertura dos parques, veremos muitos fãs adultos da Disney voltando, e menos famílias”, disse Kathleen Wolfe, cuja agência de viagens sofreu vários cancelamentos. Não apenas os pais querem proteger a saúde de seus filhos pequenos como eles talvez achem que uma experiência Disney sem a possibilidade de encontrar e cumprimentar os personagens da Disney tem menos valor.

Pessoas lotaram o Disney Springs (complexo de varejo, restaurantes e entretenimento no Disney World) no dia que teve início sua reabertura escalonada, em maio.  Máscaras e medição de temperatura são obrigatórias.
Pessoas lotaram o Disney Springs (complexo de varejo, restaurantes e entretenimento no Disney World) no dia que teve início sua reabertura escalonada, em maio.  Máscaras e medição de temperatura são obrigatórias.

“Francamente, como mãe que leva sua filha à Disney todos os anos há 16 anos, eu pago caro justamente pela interação com os personagens”, ela explicou. “É algo muito especial.”

Kathleen recomenda que as pessoas que estão indo à Disney pela primeira vez, que não vão há muito tempo, pessoas com filhos pequenos e pessoas com problemas de saúde esperem para fazer planos caros envolvendo a Disney “até a situação com a covid-19 estar mais sob controle e que a experiência Disney possa ser restaurada, recuperando sua glória anterior, ou pelo menos melhorada temporariamente de modo a satisfazer todas as expectativas mágicas.”

O marketing vai destacar a segurança e a confiança

Muitos dos especialistas acreditam que a Disney vai adaptar sua estratégia de marketing para lidar com a vida sob a pandemia e vai se concentrar em tranquilizar os fãs ansiosos.

“A Disney provavelmente vai enfatizar as medidas de segurança que adotou e lembrar a seus clientes potenciais que eles sempre confiaram na marca Disney para dar bom atendimento à sua família e que devem continuar a fazê-lo”, disse AJ Wolfe.

Além de divulgar as medidas de distanciamento e higienização que serão adotadas, Baker prevê que a empresa vai inicialmente investir em anúncios voltados a residentes locais, seguidos por campanhas de âmbito mais nacional com mensagens como “estamos preparados para recebê-lo de volta” e “a magia ainda está presente aqui”.

“Bob Chapek, o CEO da Disney, já mencionou que a ‘quintessência da experiência Disney’ e ‘as memórias que duram uma vida inteira’ vão continuar presentes, mesmo sob as condições atuais”, ela disse. “É claro que não será exatamente a mesma coisa. O cancelamento temporário das queimas de fogos, por exemplo, é algo que foge muito à regra do Reino Mágico. Mas desconfio que o marketing será atraente. Depois deste período de tragédia e interrupção da vida diária, as pessoas querem muito ter experiências positivas.”

Baker disse ainda que a Disney goza de alta percepção positiva e lealdade à sua marca, de modo que a simples mensagem “estamos abertos outra vez!” já vai gerar interesse, pelo menos entre seus fãs mais devotos. O segredo está em convencer as pessoas que, mesmo que as coisas fiquem diferentes por algum tempo, a Disney ainda é “o lugar mais mágico do mundo”.

“No meu caso”, disse Kathleen Wolfe, “ninguém precisa me convencer de nada. Está muito claro para mim que no mundo de hoje, mais do que nunca preciso de um lugar para onde eu possa escapar e passar alguns instantes numa terra de faz-de-conta. Para mim não é problema que a experiência seja diferente em termos das operações. Não tenho a menor dúvida de que quando eu chegar, no dia 16 de julho, e for recebida por todas as visões, os sons e os cheiros familiares, a sensação que terei é de ser envolvida no abraço caloroso do qual sinto saudades desde que a Disney fechou as portas em março.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.