COMPORTAMENTO
15/03/2019 01:01 -03

Conselheiro defende presença de profissionais de saúde mental em escolas públicas

“A saída é termos relações humanas. Ter mais espaço de convivência e mais oportunidades de dar vazão a essas emoções", diz pedagogo.

Reuters
"Eles voltaram para a escola, voltaram para o referencial que eles tinham. E para eles terem feito esse retorno é porque não era um referencial pequeno, para o bem ou para o mal", diz Sérgio Pereira, pedagogo e conselheiro do sindicato dos professores de São Paulo.

Dois jovens encapuzados entraram na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, pouco antes das 10h da manhã da última quarta-feira (13).

Dispararam em, aparentemente, todos que apareceram em seus caminhos. Mataram cinco alunos e duas funcionárias, e, em seguida, um dos assassinos mirou no outro e depois se suicidou. O massacre durou menos de 15 minutos.

Desde então, não são poucas as pessoas que demandam respostas dos pais, da administração da escola, dos educadores, de autoridades ou até mesmo dos desenvolvedores de videogames.

Mas o que leva alguém a cometer um ato de pura crueldade como esse?

As reais motivações dos jovens Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, talvez nunca sejam esclarecidas.

O que se sabe é que ambos eram ex-alunos da escola e que, por algum motivo, eles escolheram a instituição como alvo do massacre. 

Para Sérgio Pereira, pedagogo e conselheiro do sindicato dos professores de São Paulo (APEOESP), o caso de Guilherme e Luiz Henrique não pode ser resumido apenas a um crime.

Para Pereira, de alguma forma, a escola e a sociedade falharam em acolher esses jovens e as suas frustrações.

“A Raul Brasil foi uma tragédia anunciada. Mas não dá para tratar esses meninos apenas como assassinos. Dentro da escola continuamos a ter muitos alunos como eles, abandonados”, diz o conselheiro.

Guilherme havia deixado a escola no ano passado “após ter problemas”. Segundo parentes, seu tio, Jorge Antônio Moraes, que foi morto pelo adolescente, tentava convencê-lo a voltar a estudar. 

Pereira defende a presença de profissionais que foquem na saúde mental dos alunos, como psicólogos e até assistentes sociais, também nas escolas públicas. 

Leia trechos da entrevista dada ao HuffPost Brasil.

 

Profissionais de saúde mental nas escolas públicas

“A escola é uma pequena célula da sociedade. Ela tem um muro, e, por isso, talvez passe a impressão de estar fora. Mas se ele não existisse e olhássemos para a escola como um pequeno retrato do que nós somos, veríamos que lá estão indivíduos que podem, sim, estar doentes, nervosos ou simplesmente cansados.

Todo mundo que trabalha em uma escola precisa estar preparado para acolher e mediar possível conflitos, não só o professor. E é essa a importância de se ter um psicólogo ou assistente social presente nesses espaços. O professor até pode ocupar parte desse espaço, mas é insuficiente.” 

 

Pressão de todos os lados

“As escolas são direcionadas pelo pensamento de que o aluno precisa das melhores notas, precisa da melhor universidade, precisa do melhor emprego. A escola pública está sob pressão. Mas não é problema só da escola. Porque você pressiona de um lado, e a pressão vai se estendendo.

E se o aluno não souber quanto é 8x8? E se ele não tem espaço na casa dele para estudar e fazer os trabalhos? E se ele não se encaixa nos padrões? Ele vira o elemento que vai ser excluído seja pelo sistema de notas, seja pela competitividade, seja pelo bullying. Isso vai frustrando e não existe o espaço para expor essas frustrações.

A gente vive na política de resultados, não é? Mas será que é possível uma escola pública mais valorizada e não só cobrada? Quem segurou a educação pública até hoje foram os professores. Mas a educação precisa de outros profissionais: médicos, psicólogos, assistentes sociais.”

A Raul Brasil foi uma tragédia anunciada. Mas não dá para tratar esses meninos apenas como assassinos. Dentro da escola continuamos a ter muitos alunos como eles, abandonados.

 

Ausência de relações humanas

“Os atiradores eram ex-alunos. Eles voltaram para a escola, voltaram para o referencial que eles tinham. E para eles terem feito esse retorno é porque não era um referencial pequeno, para o bem ou para o mal. Para chegar a esse grau de tragédia e ódio, só podemos pensar que a falta desse referencial teve um impacto grande.

A saída é termos relações humanas. Ter mais espaço de convivência e mais oportunidades de dar vazão a essas emoções, através do incentivo de atividades até mesmo lúdicas, que não se limitem somente à presença nas salas de aula.”