OPINIÃO
18/09/2020 07:36 -03 | Atualizado 18/09/2020 10:36 -03

'Ratched' é uma temporada de 'American Horror Story' que não deu muito certo

Releitura da personagem de "Um Estranho no Ninho" se perde ao dar atenção demais à estética brega/chique/gore de Ryan Murphy.

Muita gente pode não ter achado nada demais quando Ryan Murphy – o mais prolífico showrunner da TV americana – anunciou que seu novo projeto era uma história de origem da enfermeira Mildred Ratched, a fria e autoritária antagonista de Um Estranho no Ninho. Tanto o livro de Ken Kesey quanto o filme de Milos Forman já não têm mais tanta ressonância na cultura pop millennial/geração Z.

Mas para quem ainda se lembra do embate entre a enfermeira Ratched e o “inconveniente” paciente R.P. McMurphy em um decadente hospital psiquiátrico sabe que este é um dos maiores exemplos do debate sobre autoritarismo X liberdade no século 20.

O livro se consolidou como um ícone da contracultura da década de 1960, enquanto o filme se tornou um clássico, vencedor de cinco estatuetas do Oscar: de Melhor Filme, Direção, Ator (para Jack Nicholson como McMurphy) e Atriz para a assombrosa atuação de Louise Fletcher dando vida à desalmada Ratched.  

Porém, por mais que Ratched – série que estreia na Netflix nesta sexta (18) – se baseie na obra de Kesey (que se tornou ainda mais popular após o filme de Forman), Murphy toma a personagem para si e a transporta para seu idiossincrático universo brega/chique/gore de uma forma tão transgressora (ao estilo de seu quase xará McMurphy), que não importa se você está familiarizado ou não com Um Estranho no Ninho. E isso traz alguns acertos e muitos erros.

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Sarah Paulson como a enfermeira Mildred Ratched em "Ratched".

Por isso, o fato de a cronologia não bater muito bem acaba não comprometendo muito. Mas não deixa de ser esquisito ver Sarah Paulson interpretando uma personagem em uma história que se passa na metade final da década de 1940 ser mais velha que Fletcher interpretando a mesma personagem em uma trama que acontece em 1963. Paulson tem atualmente 45 anos e Fletcher tinha 41 quando Um Estranho no Ninho (1975) foi filmado.

O curioso é que um dos maiores acertos da série pode ter sido seu maior erro. Por um lado, a escalação de Paulson – musa de Murphy – como Mildred Ratched se mostra perfeita. Ela é uma grande atriz e tem cacife suficiente para representar os traumas e contradições da enfermeira Ratched, mas sua onipresença em uma trama de horror passada em um hospital psiquiátrico não nos faz nunca esquecer de American Horror Story: Asylum (2012 - 2013), a segunda temporada da série que confirmou o status de Murphy como um dos grandes showrunners da atualidade. Ou seja, por mais que haja ótimos momentos em Ratched, sempre fica aquele gostinho de café requentado, de uma temporada de AHS que não deu muito certo.

Sutileza nunca foi o forte de Murphy e sua predileção pelo sensacionalismo gore não casa muito bem com a complexidade da protagonista e, principalmente, com sua tentativa de emular Hitchcock.

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Jon Jon Briones como o Dr. Hanover em "Ratched".

Enquanto o mestre do suspense usava as cores para expressar a sexualidade latente de seus protagonistas – como o verde cintilante que ficou famoso na cena em que Kim Novak se fantasia para satisfazer o desejo necrófilo de James Stewart em um quarto de hotel em Um Corpo que Cai (1958) ou o vermelho sangue da reprimida Tippi Hedren em Marnie, Confissões de uma Ladra (1964) –, o recurso soa como puramente estético na obra de Murphy, que prefere usar artifícios bem mais diretos e nada sutis para representar o desejo sexual, no caso, lésbico, como pêssegos e ostras.

Mas há sequências realmente muito boas, como, por exemplo, a que usa um teatro de marionetes para contar a história traumática da infância de Ratched – e a de outro personagem que é bom não entrar em detalhes para evitar spoilers –, e a de um baile entre funcionários e pacientes do hospital psiquiátrico de Lucia, uma pequena cidade costeira da Califórnia.

Ser ou não ser?

Promovida com o slogan “conheça a mulher antes do monstro”, Ratched falha em seu principal objetivo, pois a personagem começa como uma vilã maquiavélica que comete os atos mais vis (e extremamente violentos) para alcançar seus objetivos – e ao passar dos episódios, vai mostrando seu lado mais humano e benevolente. Não deveria ser o contrário? 

A questão sobre se Ratched é uma encarnação do mal ou apenas uma mulher competente cuja alma foi corroída pelo ambiente duro e patriarcal de uma instituição como um hospital psiquiátrico termina ficando no ar. 

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Sharon Stone como Lenore Osgood em "Ratched".

Surpreendentemente, a série não está muito interessada na relação de sua protagonista com as formas de poder, a “alma” de Mildred Ratched em Um Estranho no Ninho. Aqui, ela não é a austeridade da autoridade, mas o caos liberto da transgressão.

Se há um personagem que combina mais com a visão que tínhamos da enfermeira do mal é o Dr. Hanover (Jon Jon Briones), médico-chefe do hospital em que a Ratched de Paulson trabalha. Um homem que imagina fazer o bem, mas cujos tratamentos “inovadores”, como lobotomia e hidroterapia em banhos escaldantes são tão cruéis quanto qualquer coisa que um serial killer poderia sonhar.

Essas confusões de intenção somadas a personagens que estão lá apenas pelo efeito estético da bizarrice, como a excêntrica milionária vivida por Sharon Stone e a dona do motel alcoólatra interpretada por Amanda Plummer (lembra dela, de Pulp Fiction?) desaguam no conceito de que a série, filmada em um lindo Technicolor e com um design de produção estonteante, se importa muito mais com o apuro estético do que com a coesão de sua trama. 

É um passeio visual por um trem fantasma dos mais interessantes, mas que nunca sabe exatamente o tipo de horror que quer retratar. Há tantas questões a serem discutidas que, assim como representado na abertura da série, tem seu fio da meada cortado pela implacável tesoura da enfermeira Ratched.

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