ENTRETENIMENTO
07/10/2019 07:56 -03

A todas as pop stars teens que já amei (e de quem senti raiva também)

1999 foi o ano das rainhas do teen pop. O que isso significa para nós que crescemos ao mesmo tempo adorando e rejeitando esse ideal feminino?

Ainda me lembro de estar no quarto da minha melhor amiga um dia no início de 1999, depois da escola, nós duas ouvindo ...Baby One More Time, de Britney Spears. My loneliness is killing me (and I)/ I must confess I still believe (still believe)/ When I’m not with you I lose my mind/ Give me a sign/ Hit me, baby, one more time. [A solidão está me matando (e eu) / tenho que confessar que ainda acredito (ainda acredito) / Quando eu não estou com você eu enlouqueço / Me dê um sinal / Baby, volta para mim mais uma vez.]

Dançamos no quarto com a porta fechada, nossas blusas amarradas na frente para formar tops curtinhos como os que Britney e suas dançarinas usam no vídeo, fazendo alguns passos sensuais, mas adoravelmente inocentes, e depois caindo sobre a cama, rindo histericamente.

Faltavam alguns meses para completarmos 12 anos, e Britney Spears, ícone recente do teen pop, parecia um reflexo do que garotas de minha idade supostamente se tornariam naturalmente: lindas, femininas, desejáveis mas não fáceis, bem-sucedidas mas não ameaçadoras, no controle de sua sexualidade, mas sem consciência de seu poder.

A sensação que eu tinha era que se tentasse imitar essas rainhas teen, o resultado inevitável seria que eu deixaria demais a desejar. Então só me restava uma opção: rejeitá-las; dançar loucamente ao som de ...Baby One More Time e ao mesmo tempo dizer a quem quisesse ouvir que Britney e suas contemporâneas deviam ser superficiais e pouco legais de outras maneiras. Eu era inteligente. Eu tinha substância. Eu não era nenhuma Britney Spears da vida.

Nunca parei para pensar se aquelas pop stars adolescentes se sentiam restritas pelos arquétipos que foram pressionadas a encarnar; se seu próprio desenvolvimento como donas de seu próprio destino, em lugar de objetos, tinha sido atrofiado contra a vontade delas; se sua feminilidade tradicional realmente as colocava na contramão de terem “substância”. Hoje, duas décadas mais tarde, olho para trás e enxergo algo mais complexo do que ícones teen para eu alternadamente adorar e repudiar.

1999 foi um ano cheio de rainhas do teen pop como Britney Spears: Christina Aguilera, Mandy Moore, Jessica Simpson. Elas cantavam sobre seu desejo de um garoto doce (Candy, Mandy Moore), sobre o homem certo as “acariciar do jeito certo” (Genie in a Bottle, Christina Aguilera), sobre um cara que as deixa loucas (Drive Me Crazy, Britney Spears) e passar “10 mil vidas” com um homem (I Wanna Love You Forever, Jessica Simpson). (Vale notar que Beyoncé, quando estava no Destiny’s Child, foi uma exceção notável. The Writing’s On The Wall é um álbum que ainda resiste a críticas).

Naquele ano as rainhas do teen pop dominaram as paradas da Billboard. ...Baby One More Time, de Britney, foi a quinta canção mais popular do ano, segundo a Billboard, enquanto a sétima colocada foi Genie In a Bottle, de Christina Aguilera. As cantoras enfeitavam capas de revistas – não apenas revistas para o público teen e tween, como a J-14, Teen Beat, CosmoGirl e Seventeen, mas também outras mais adultas, como a Rolling Stone. Elas foram hiperssexualizadas pela mídia musical dominada por homens, em benefício de seus leitores homens, adultos e heterossexuais.

Tome-se o caso da famosa capa de Britney na Rolling Stones: ela foi fotografada de lingerie sob a manchete “Dentro do Coração, da Cabeça e do Quarto de um Sonho Teen”, e um redator homem e mais velho que ela descreve suas “coxas de mel” e seu “peito amplo”. Alguns meses mais tarde, na mesma revista, outro redator, também homem, se referiu a Christina Aguilera como sendo “uma espécie de Lolita legal”, com “olhos de um azul-piscina” e “cintura com a circunferência de uma bola de futebol”.

Enquanto isso, a música delas era promovida explicitamente ao público pré-teen e teen (e popularizado por ele). Em 1999, pré-teens e teens de 10 a 14 anos foram responsáveis por quase 10% de todas as vendas de CDs, e eram suas mesadas que alimentavam o sucesso dessas pop stars teens. Como escreveu John Pareles no New York Times em julho de 1999, “o pop adolescente sempre esteve disponível para quem quisesse, mas agora, no final dos anos 1990, está virando a única coisa que interessa. ...Está claro que a indústria do entretenimento decidiu que hoje são os adolescentes que têm o poder de compra decisivo.”

Vinte anos atrás, eu era uma daquelas pré-teens que corriam para gastar seu dinheirinho restrito na Tower Records, e eu ao mesmo tempo adorava e sentia raiva de Britney Spears e suas contemporâneas lindas e famosas. Eu as invejava por suas barriguinhas chapadas, suas imagens públicas cuidadosamente calibradas, feitas para atrair o olhar masculino e ao mesmo tempo transmitir a mensagem de que elas ainda eram “garotas comportadas”.

Afinal, aquela foi a era em que tanto se discutiu o figurino colegial sexy de Britney em seu vídeo e a virgindade de Jessica Simpson. A mensagem parecia ser que, para chegar bem à condição de mulher adulta, era preciso percorrer uma corda bamba invisível, mostrando-se sexualmente desejável ao mundo, mas abstendo-se de fazer sexo na vida real.

Depois de um escândalo sexual entre o presidente e uma jovem ex-estagiária que se arrastou por um ano, parecia óbvio que ser uma virgem sedutora era mais bem visto do que ser uma jovem inteligente (mas não especialmente bela) que se dispõe a fazer sexo oral.

“A cultura pop é uma parte enorme de como as pessoas encaram o mundo, especialmente de como os jovens aprendem o que a sociedade valoriza e enfatiza”, comentou Andi Zeisler, co-fundadora da Bitch Media e autora de “We Were Feminists Once”.

“Em 1999, uma das coisas que a cultura pop comunicava às garotas era que a sexualidade era algo que elas faziam por outros, não para elas mesmas. Britney Spears e Christina Aguilera não inventaram isso – simplesmente elas ficaram famosas num momento em que a cultura pop tinha um megafone maior do que jamais tivera”, disse Zeisler.

A verdade é que somos todos frutos de nosso tempo. E em 1999 os EUA estavam fascinados com algo que a colunista feminista e crítica cultural Susan J. Douglas descreveu como “a nova atitude girly”, uma estética “pós-feminista” sedutora que transmitia a mensagem de que “as mulheres podiam ter igualdade de direitos legais, mas era recomendável que visualmente fossem muito femininas”.

Esse nova estética e atitude girly estava presente especialmente entre as mulheres jovens, dando a elas, nas palavras de Douglas, “o direito de escolher o que queriam, e o que elas sempre queriam realmente, ao que parecia, era ser femininas e ser amadas por um homem. Essa nova liberdade de ser femininas ... diferenciava as mulheres jovens dos anos 1990 daquelas feministas mais velhas que se preocupavam demais com a política antiga e chata (além de irrelevante).”

Huffington Post
Christina Aguilera e Britney Spears na capa da Rolling Stone em 1999.

As rainhas teens pareciam encarnar à perfeição essa nova atitude girly – pelo menos do ponto de vista de consumidoras musicais teens e tweens, como eu, que pouco sabíamos sobre os empresários adultos que construíam e promoviam a persona pública das artistas. É espantoso ler entrevistas antigas de 1999 e ver Britney passar de descrever todas as correspondências “lindas e simpáticas” que recebe de fãs a contar sobre um homem de 20 e tantos anos que a perseguiu e ficou vigiando diante de sua casa.

Não é esse tipo de história que eu me recordava de ler sobre Britney. Minhas memórias dela tendem a passar direto da colegial sexy a ela dançando com uma cobra no palco do VMA e então para imagens chocantes feitas por paparazzi de Britney com a cabeça raspada.

Há uma linha (não exatamente reta) que pode ser traçada entre o movimento punk feminista explicitamente político e decididamente não feminista mainstream Riot Grrrl do início dos anos 1990, passando pela explosão das Spice Girls em 1996 e chegando à popularização de pop stars como Britney Spears. Enquanto as Riot Grrrls de modo geral rejeitavam a feminilidade girly, na metade da década de 1990 ser girly já passara a ser visto como ser empoderada.

As Spice Girls tinham aprendido algo com as muito mais radicais Riot Grrrls quando converteram o Girl Power numa ideia que podia ser promovida para o mercado de massas e virar comercialmente viável. Mas pop stars como Britney e Christina Aguilera levaram isso mais além, separando o empoderamento feminino de qualquer poder real e, em vez disso, enfocando principalmente a felicidade e satisfação individual.

Em entrevista de outubro de 1999 à EW, Christina Aguillera descreveu explicitamente sua faixa Genie in a Bottle como sendo uma canção sobre empoderamento feminino. Mas um empoderamento feminino descolado.

“É quase como uma canção de empoderamento feminino, mas ainda em clima divertido, não uma coisa agressiva”, ela explicou. “Fala de ficar esperando, de se fazer de difícil, que para mim é uma ótima mensagem a passar para meninas.”

Eu fui membro do grupo que passou pelo primário adorando as Spice Girls e comprando espelhos para meu quarto estampados com o slogan “girl power”. Mas quando chegamos ao secundário, as Spice Girls já tinham perdido espaço (alguém por acaso ainda se lembra da carreira solo de Geri Halliwell, que durou tão pouco?), dominadas por cantoras pop de idades muito mais próximas da nossa.

“Você olha para as Spice Girls, só dois anos antes, e elas eram chamadas Spice Girls mas eram todas mulheres adultas”, disse ao HuffPost a musicóloga feminista Elizabeth Keenan, autora de “Rebel Girls”. “As mensagens que elas estavam transmitindo às garotas realmente eram de empoderamento. Quer você pense ou não que foi eficaz, se foi ou não foi ‘feminismo de verdade’, o ‘girl power’ estava dizendo que ‘uma garota pode realizar qualquer coisa!’. Para uma menina de 7 anos, ouvir ‘girl power’ e ‘você pode realizar qualquer coisa’ provavelmente já é o bastante.”

“Temos que pensar em como Britney e Christina estavam posicionadas, porque as duas eram teens. Eram adolescentes altamente sexualizadas”, disse Keenan. “As meninas de 7 anos olhavam para as Spice Girls e as achavam o máximo. Toda a parte sexual de sua mensagem passava batido para as meninas. Mas então Britney e Christina foram posicionadas como artistas que as pré-teens e teens curtiam. A questão muda de figura, porque as garotas que se esperava que fossem fãs delas não tinham 7 anos. Talvez tivessem 12. As coisas não passariam batidas por elas.”

A história dessas rainhas teens mostra como mulheres jovens estavam tentando direcionar suas próprias vidas, tornarem-se sujeitos de suas próprias vidas, com graus diversos de sucesso. Mandy Moore ressurgiu como atriz em 2016 em This Is Us, da NBC, e reconquistou sua própria narrativa plenamente depois de seu divórcio de Ryan Adams. Mas Britney Spears está com seus assuntos financeiros sob controle externo há mais de uma década, depois de sofrer um colapso muito público de saúde mental. A história dessas artistas é também uma história sobre mulheres jovens em destaque e o que significa crescer em uma cultura que está decidida a objetifica-las e convertê-las em commodities.

A história dessas rainhas teens mostra como mulheres jovens tentaram direcionar suas próprias vidas, com graus diversos de sucesso. É também uma história sobre mulheres jovens em destaque e o que significa crescer em uma cultura que está decidida a objetificá-las e convertê-las em commodities.

O mundo se transformou nas duas décadas passadas desde 1999. As redes sociais facilitam reações instantâneas a figuras culturais, além da cobertura feita delas em tempo real pela grande mídia. Os adolescentes vivem hiperconectados uns com os outros, e suas maiores celebridades às vezes operam fora dos limites das instituições culturais tradicionais. Temos todo um ecossistema de mídia feminista pronto para derrubar qualquer pessoa que descreva o corpo de uma adolescente em termos maliciosos e chame isso de jornalismo. Todos nós temos acesso a plataformas que nos permitem moldar nossas personas cuidadosamente, virar commodities e enxergar uns aos outros como candidatos a “influencers”.

Jessica Simpson fala abertamente desde 1999 sobre como a indústria musical trabalhou para definir e enquadrar suas cantoras jovens, para deixá-las prontas para o consumo público. Christina Aguilera já abandonou há muito tempo a imagem que ela própria descreveu como a da “queridinha ideal” e em 2010 chegou a formar uma parceria com a banda feminista de eletro-rock Le Tigre. Mandy Moore falou sobre como foi ainda jovem sair de um casamento que sufocou sua carreira musical.

Talvez não haja lições prontas para tirar do ano que explodiu com as rainhas teens, mas ainda é importante rever nossas próprias ideias sobre as figuras públicas que cresceram ao nosso lado – em nossos carros, nos pôsteres colados em nossos quartos.

Quando eu era tween, sentia que um espaço enorme me separava dessas meninas um pouco mais velhas e tremendamente bem sucedidas. Agora, com mais de 30 anos, essa imagem é mais complicada. Entendo que as mulheres jovens em 2019 ou 1999, famosas ou não, estão todas apenas tentando entender como funcionam as coisas e tentando transmitir uma imagem pública que não traia seu eu particular. Os limites das discussões mudaram de modo positivo, de algumas maneiras – ninguém parece estar preocupado com como Billie Eilish expressa sua feminilidade. Mas sob alguns aspectos os desafios enfrentados pelas jovens cantoras pop do final dos anos 1990 ainda estão muito presentes, ou até amplificados.

“É importante refletir sobre como a imagem e sexualidade das cantoras do teen pop era usada para defini-las e o impacto que isso tinha sobre a vida delas, especialmente no caso de Britney Spears”, disse Zeisler, “porque toda essa midiatização – a priorização da imagem, a sexualização constante das meninas, o modo como os consumidores se sentem no direito de decidir quem é uma figura pública ―, tudo isso apenas ficou mais pronunciado.”

A todas as pop stars teens que eu antes alternava entre adorar e repudiar: hoje eu enxergo vocês de um jeito que não poderia ter enxergado naquela época.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.