OPINIÃO
08/07/2020 10:00 -03 | Atualizado 08/07/2020 10:00 -03

Jovem negro cria abaixo-assinado para que Uber adote treinamento antirracista

Depois de sofrer preconceito e ouvir de motorista que poderia ser “bandido”, Ioannis Casarin lançou petição para cobrar que empresa oriente seus condutores sobre racismo.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Ioannis Casarini: “Me vi sem saída e resolvi fazer a minha primeira petição”.

A Uber, uma das maiores empresas de transporte por aplicativo do mundo, está sendo pressionada a adotar um treinamento antirracista para orientar seus motoristas no Brasil. A exigência é feita em um abaixo-assinado lançado por um jovem negro que conta ter sido vítima de preconceito ao solicitar uma corrida no dia 26 de junho, na comunidade do Jardim Jaqueline, zona oeste de São Paulo. Criada um dia depois, a petição já acumula 33 mil assinaturas.  

Era sexta-feira, por volta das 20 horas, quando Ioannis Casarini, 18 anos, tentou fazer uma viagem de cerca de 11 quilômetros - aproximadamente 20 minutos - entre a região da Vila Sônia, zona oeste da capital paulista, e o bairro da Bela Vista, em Osasco, Grande São Paulo. Devido a problemas no aplicativo, pediu que uma amiga solicitasse o Uber, como de costume. Corrida aceita, foi para o portão de casa, acompanhado da mãe, esperar pela motorista.  

Pouco tempo depois, o Nissan March, de cor cinza, dirigido por uma condutora com 2.020 viagens registradas e pontuação 4,85 estrelas, encostou. Dinheiro na mão para pagar a viagem, estimada em menos de R$ 20, Ioannis se dirigiu ao carro, mas foi impedido pela motorista. Segundo conta, a mulher chegou “super irritada” e o encarou “de cima a baixo”. Em seguida, disse que o Uber tinha sido pedido por outra pessoa e se recusou a ouvir explicações.

“Ao lado da minha mãe, que aguardava comigo, eu expliquei para a motorista que a minha amiga tinha pedido o carro para mim, mostrei os prints da conversa com a minha amiga no WhatsApp e o dinheiro com o qual eu pagaria a corrida”, comenta o jovem.

Ela ignorou todos os fatos e explicações, alegando que eu podia ser um bandido, que ‘não estava tatuado na minha testa se eu era bandido ou não’.Ioannis Casarini

Ioannis lembra que “se sentiu um lixo” pela forma como a motorista o olhou, e que, sem reação, sua mãe, que também é negra, precisou intervir dizendo que a mulher poderia levá-lo, pois ele não era bandido. De acordo com o jovem, nessa hora a motorista pareceu ainda mais revoltada, fechou o vidro, acelerou o carro e saiu gritando para que ele chamasse outro. 

“Além das palavras agressivas, a situação foi extremamente tensa e opressora. Eu fiquei sem reação e a minha mãe começou a responder por mim”, desabafa o rapaz. 

Depois da denúncia, a dúvida e o julgamento 

Reprodução/Instagram
Denúncia feita por Ioannis em sua conta no Instagram.

“Desculpe, mas não acho que foi racismo”, “Ah, o lugar era de risco”, “Era uma mulher sozinha”, “Mas o aplicativo estava em nome de outra pessoa”, “Está se vitimizando”, “Fez a mulher perder o emprego no meio da pandemia”, “Está tentando ganhar ibope em cima da situação”. Comentários parecidos com esses começaram a ser deixados no perfil de Ioannis no Instagram logo depois que ele decidiu denunciar o ocorrido e cobrar uma resposta da Uber.

Para o rapaz, as reações revelam que o foco no racismo acabou perdido na discussão por estar naturalizado na sociedade. “Para muitos, o caso de injúria racial foi muito menos grave ou até imperceptível diante do fato de o aplicativo não estar no meu nome”, aponta Ioannis. “Eu sempre discuto sobre racismo e estou acostumado com a negação”, completa o rapaz sobre a insistência da sociedade em torná-lo o “vilão da história”.

O jovem explica que sua palavra começou a ser colocada em dúvida pelo própria Uber, que antes mesmo de demonstrar qualquer consideração, enviou uma primeira mensagem apenas pedindo mais detalhes do ocorrido, “como se eu estivesse mentindo e falando inverdades”, indigna-se. Ioannis acredita que o episódio não teria acontecido dessa forma se ele não fosse negro e, a partir disso, rebate os julgamentos que vem recebendo.

“Várias ‘justificativas’ vão para o ponto de normalizarem tudo o que aconteceu”, diz sobre a argumentação de a corrida não estar em seu nome, quando é uma prática comum usuários solicitarem viagens para terceiros. “Mesmo que fosse tão essencial pedir o carro pelo próprio celular, nada justifica que ela [motorista] seja racista com um passageiro negro da favela”, afirma.

Em relação ao fato de considerarem a comunidade como “local de risco”, Ioannis destaca que outros motoristas comentaram que a condutora poderia apenas ter cancelado ou não aceitado a corrida. “De fato, a maioria dos que já me pegaram são motoristas que moravam aqui e sabem que não é perigoso como as pessoas dizem sobre todas as favelas serem super marginalizadas, compostas de assassinos, bandidos e traficantes.”

Para o rapaz, a busca por argumentos contra ele para tentar justificar um ato de racismo mostra “exatamente como é ser negro”. “É triste como para uma pessoa negra tudo precisa ser ideal. Conheço várias pessoas brancas que fazem o mesmo até hoje e nunca passaram por isso, independente da hora ou lugar ‘de risco’, como alguns chamam a favela que eu moro”, comenta.

Nós, negros, precisamos ser os melhores em tudo para termos razão, para termos voz em algo. Neste caso, eu teria que ser o melhor passageiro, o ideal.

O posicionamento da Uber

Depois da denúncia nas redes sociais e do abaixo-assinado atingir milhares de apoiadores, o caso de Ioannis ganhou repercussão entre pessoas públicas, fazendo a Uber se manifestar. A empresa postou uma mensagem, como resposta no Instagram, dizendo que a experiência pela qual o rapaz passou no aplicativo não é a que eles gostariam:

“Consideramos inaceitável qualquer tipo de violência e discriminação em nossa plataforma. Assim que tomamos conhecimento da sua denúncia, desativamos a motorista da plataforma. Sabemos que o preconceito, infelizmente, ainda permeia a nossa sociedade e que cabe a todos nós combatê-lo. Estamos à disposição para colaborar com as autoridades responsáveis para investigação do caso.”

Ioannis considera que a resposta da empresa não basta para resolver o problema; por isso mantém o abaixo-assinado aberto, na plataforma Change.org, pedindo que a Uber ofereça um treinamento que oriente os motoristas para que outras pessoas negras não passem pela “situação horrível” que ele vivenciou. “Não achei suficiente até porque eles não resolveram dezenas de casos noticiados em redes sociais por usuários negros”, aponta o rapaz.  

O jovem comenta ainda que o contato com a Uber foi “muito desgastante” e que esperava ter recebido melhor apoio, já que a empresa lançou recentemente um novo código de conduta e uma campanha de combate ao preconceito A Uber não é para você, dando um recado a assediadores, racistas, LGBTfóbicos e praticantes de outros atos de discriminação. 

A equipe da Change.org entrou em contato com a empresa para saber seu posicionamento sobre o ocorrido e se ela irá adotar treinamento antirracista cobrado por 33 mil pessoas na petição. A Uber não disse nada sobre esse questionamento e enviou a mesma resposta dada a Ioannis, destacando que “considera inaceitável a discriminação relatada pelo usuário”. 

Por e-mail, a empresa também mandou uma informação complementar enfatizando que, “apesar de nada justificar qualquer atitude discriminatória, de acordo com os Termos e Condições de uso do aplicativo da Uber, as contas de usuários são pessoais e não podem ser emprestadas a outras pessoas ou utilizadas para chamar viagens para terceiros”. 

Vidas Negras Importam 

Ioannis concluiu o Ensino Médio em 2019, passou em Engenharia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas, entre outras razões, desistiu de começar o curso para, como filho único, apoiar sua mãe em São Paulo e seguir o sonho de fazer medicina. Na semana passada, mãe e filho abriram, na comunidade do Jardim Jaqueline, uma loja de comidas típicas do Norte. 

Descrente na Justiça para pobres e pretos, o jovem não chegou a registrar boletim de ocorrência sobre o crime de racismo sofrido. “Sei que a Justiça fica do lado deles e das empresas grandes que contam com os melhores advogados, enquanto eu iria para a Defensoria Pública e teria a palavra novamente invalidada”, lamenta. “A nossa palavra não conta. Nem os fatos”, completa. 

O jovem destaca que o racismo no Brasil é velado, estando na forma diferenciada de tratamento, tom de voz e no medo preconceituoso de o negro ser um bandido. Para ele, casos assim é que alimentam crimes mais graves, como o de João Pedro, “em que estavam heroicamente matando ‘bandidos’, pois nós ‘parecemos’ com eles. O que é uma falácia”, diz.  

Ioannis vê como hipocrisia o comportamento de quem postou foto preta nas redes sociais, no movimento #BlackLivesMatter, deflagrado pela morte de George Floyd nos Estados Unidos, mas se esquece de discutir o racismo que acontece todos os dias no Brasil, como seu próprio caso. Ainda destaca que parece necessário haver uma morte de um negro para convencer as pessoas da realidade do racismo. “Acredito que por isso muitos estão me julgando.” 

O abaixo-assinado, criado por Ioannis, segue aberto até que a Uber se posicione quanto ao pedido do treinamento. A petição online foi inserida em um movimento lançado pela plataforma Change.org para dar mais visibilidade às campanhas antirracistas. 

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