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08/06/2020 02:00 -03 | Atualizado 08/06/2020 02:00 -03

Não vamos deixar passar este momento de combater o racismo, diz Jurema Werneck

Ao HuffPost, diretora da Anistia Internacional no Brasil reflete sobre onda de protestos nos EUA, violência policial contra negros por aqui e caso Miguel como "racismo descortinado" na frente de todos.

Multidões têm tomado as ruas nos últimos dias em protestos motivados pela morte de um homem negro, George Floyd, causada pela brutalidade de um policial branco nos Estados Unidos. As manifestações se espalharam também pelas redes sociais, colocando o debate racial na ordem do dia. Para a diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck, é possível avaliar a onda de manifestações por dois ângulos.

“É uma resposta a uma situação trágica e ultrajante, que é a polícia matar uma pessoa negra como faz todo dia, tanto lá quanto cá [Brasil], por nada. Só porque pode. Só porque o racismo autoriza”, disse ao HuffPost Brasil, em entrevista por telefone. Por outro lado, ela vê o momento atual como oportunidade de mudança.

“Quem não é vítima direta do racismo também está saindo às ruas. Estamos vendo brancos, latinos e asiáticos nos protestos. O chamado é este: não vamos deixar passar”, completa Werneck, que também é ativista do movimento de mulheres negras no Brasil.

O “tanto lá quanto cá, por nada” que Werneck diz ao abordar a questão da violência policial remonta a um processo social em curso denominado por movimentos ativistas como genocídio da população negra. E não faltam elementos que justifiquem o termo. 

“Qualquer dado da segurança pública desagregada por raça/cor demonstra que tem uma produção de mortes constantes. Nesses tempos da covid-19, inclusive, tem aumentado”, explica Werneck. “São Paulo acaba de bater o recorde de mortes pela polícia. Fazia tempo que isso não acontecia. Na cidade do Rio de Janeiro, houve um aumento de 58% das mortes produzidas pela polícia em operações nas favelas”, enumera.

No Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. Nos últimos dois anos, pelo menos sete casos de crianças ou adolescentes deixaram de ser apenas números para ganhar o noticiário e chocar o País. Sete vidas negras que foram interrompidas pela violência policial, fruto do racismo estrutural: Agatha Felix (8 anos), Kauã Ribeiro (12 anos), Jenifer Gomes (11 anos), Kauan Peixoto (12 anos),  Pedro Gonzaga (19 anos) e João Pedro (14 anos).

Nascer daquele jeito [de Miguel], viver daquele jeito e morrer daquele jeito é o racismo descortinado na frente de todo mundo. Não é apenas a negligência, o descaso da patroa. Antes dela, já havia muitos outros descasos.

Na semana passada, o País lamentou a morte de mais uma criança negra: Miguel Otávio, filho de uma empregada doméstica, que caiu de um prédio de luxo no Recife enquanto estava sob os cuidados da patroa de sua mãe. O pequeno de 5 anos não foi vítima de brutalidade policial, mas também teve sua história interrompida pelo racismo estrutural, na avaliação de Werneck.

“Miguel nasceu filho de uma mulher negra, mãe solteira. Neto de uma mulher negra, também mãe solteira. A mãe de Miguel mora em uma favela, trabalha como doméstica, foi exposta à covid-19 pelo patrão e foi exposta à tragédia que foi Miguel perder a vida tão novinho. Está aí o racismo”, argumenta.

“Nascer daquele jeito, viver daquele jeito e morrer daquele jeito é o racismo descortinado na frente de todo mundo. Não é apenas a negligência, o descaso daquela mulher [patroa]. Antes do descaso da patroa já havia muitos outros descasos”, defende.

O debate que surgiu nas redes sociais sobre uma possível apatia da população negra diante de tantos crimes de cunho racista - numa comparação com o levante ocorrido nos Estados Unidos - é também considerado por Werneck como uma perspectiva racista sobre a questão.

“É a negação da presença do negro próximo. Nós estivemos e estamos nas ruas há muito tempo. A gente nem sempre está na Avenida Paulista. Às vezes os negros estão ao pé do Morro do Alemão, nos becos da Favela da Maré ou no Jardim Ângela”, diz Werneck, citando favelas do Rio de Janeiro e um distrito na periferia da zona sul de São Paulo.

“O discurso racista sempre disse que o negro brasileiro era acomodado. Já passou da hora de se rever isso. O chamado é para a gente ser antirracista e olhar para o mundo e agir por essa lente. É preciso questionar esses lugares-comuns que se repetem indefinidamente porque o racismo não acaba”, alerta.

Para a ativista, também não faz sentido refletir sobre o racismo a partir de diferenças demográficas. Nos EUA, negros são minoria; já no Brasil compõem 56% da população. “Se eu for uma pessoa negra nos bairros negros dos Estados Unidos ou no Brasil, a dor, a violência e a produção de morte será igual. Independentemente das condições de minoria ou maioria, a experiência real do racismo é igual”, afirma. 

Formas de combater o racismo 

Em um artigo publicado aqui no HuffPost Brasil em 2017, Jurema Werneck afirmou que, além de recursos e longo prazo, para enfrentar o racismo é preciso políticas de Estado e compromisso de todos.

Questionada sobre quais políticas públicas já existentes poderiam ser ampliadas em prol da equidade racial no País, Werneck, que também é médica, dirige suas críticas à área da saúde. “As políticas públicas já existentes podiam estar operando para quebrar o pacto do racismo na vida das pessoas, portanto ser uma ferramenta antirracista”, afirma, observando as limitações da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, cuja implementação começou em 2009.

Werneck também defende que a luta das mulheres negras deve ser “sempre central” no debate racial. “O movimento de mulheres negras tem diversas agendas porque nós estamos imersas no cotidiano e também projetando o futuro. O chamamento que se faz a todos e todas é garantir o protagonismo das mulheres negras para a vocalização do que é necessário neste momento”, afirma.

No trecho do artigo em que a diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil aponta a necessidade de um “compromisso de todos”, ela se refere também à adoção de uma postura antirracista.

“Ser antirracista é uma atitude permanente”, alerta Werneck. “É uma transformação em tempo real. Não há como você acordar e simplesmente dizer ‘eu não sou racista’. Não é assim. Faça a autocrítica, aprenda a enxergar e aprende a confrontar, tudo ao mesmo tempo.”