29/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 29/01/2019 00:00 -02

Rachel Schettino, a mulher que trabalha para ressignificar vidas de artesãs brasileiras

Ela criou ONG que tem o objetivo de fortalecer trabalhadoras e fazê-las donas da própria vida.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Rachel Schettino é a 328ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Os brincos são feitos de garrafa pet pela Léa, da Cidade de Deus; o colar é com resto de rede de pesca e vem de Maricá; o sapato é confeccionado pelo Dr. Borracha, da Amazônia. Tudo estava em uma bolsa que um dia foi um malote bancário. “Uso coisas que todo mundo acha lindo e não acreditam que a gente ressignificou a vida dos resíduos e das pessoas. Esse é meu lema, eu amo muito o que eu faço”. Rachel Schettino, 42 anos, é uma das fundadoras da Rede Asta, um negócio social que tem o objetivo de impulsionar artesãs e transformá-las em empreendedoras. Há mais de dez anos, esse é o grande projeto de Rachel, que ostenta orgulhosa parte do trabalho dessas pessoas, feito com reaproveitamento de resíduos.

Rachel e a sócia, Alice Freitas, saíram de carreiras em grandes multinacionais e passaram a olhar para as mulheres brasileiras e os produtos que poderiam ser transformados aqui. O resultado é bastante claro. “Esse projeto não é só de aumento de renda, mas sim de resgate da autoestima, elas entendem que são capazes e elas começam a querer fazer outras coisas, resgatar a cultura e valorizar suas origens e isso mexe com os filhos que veem uma mãe empoderada e começam a achar que vale a pena [investir em outros trabalhos], vira um modelo, isso resgata o feito a mão para não deixar morrer esse tipo de trabalho”. Enumera, satisfeita com o retorno do trabalho. E Rachel pode falar das mudanças que isso pode causar baseada no processo de transformação dela mesma.

Esse projeto não é só de aumento de renda, mas sim de resgate da autoestima.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O projeto começou com esse garimpo de artesãs e ida a feiras para ter contato com esse tipo de produção.

Após cerca de dez anos de uma carreira, por assim dizer, clássica e bem sucedida, ela fez uma grande mudança na vida. Nascida em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, foi criada para seguir o roteiro: faculdade, bom emprego com carteira assinada e promoções. Após fazer intercâmbio na Alemanha aos 17 anos, voltou para o Brasil e começou a estudar Comércio Exterior. Logo conseguiu um estágio em uma fábrica que importava papel. As coisas foram caminhando. Foi efetivada, depois transferida para São Paulo e aos 25 anos foi trabalhar na Suíça. “Fui ser responsável por Itália, Portugal e Espanha. Já tinha uma vida de executiva, toda orgulhosa de estar fazendo algo que meus pais sempre quiseram... eles sempre disseram que eu tinha que me virar e fui impulsionada para fazer valer tudo que eu tive oportunidade de estudar”.

No entanto, alguns questionamentos começaram a tomar conta de Rachel. “Depois de 2 anos na Suíça, a conta cheia de dinheiro, tinha viajado o mundo, mas tinha um vazio. Estava grata por estar ali, mas quando vinha para cá via a violência, a pobreza e eu lá naquele império e fiquei em um conflito interno, fiquei um ano sem menstruar, eu não fluía. E chegou uma hora que vi que não queria mais. O corpo estava falando. E pedi demissão”.

Resolveu interromper a trajetória que até então parecia muito bem roteirizadas para ela. De volta ao Rio de Janeiro, admite que ficou um pouco perdida, mas sabia que queria focar em dar oportunidade para outras pessoas, outras mulheres, até porque sempre teve consciência das oportunidades que teve. Assim, nesse período, sua sócia, que também havia acabado de voltar de uma experiência no exterior, entrou em contato e queria desenvolver um projeto para fortalecer mulheres produtoras. “Ela falou que queria trabalhar com mulheres na área social e queria vender coisas e eu era a pessoa para fazer isso junto. Eu queria vender algo que eu acreditasse, queria vender algo que eu soubesse que a renda ia ser bacana para todo mundo e não que iria enriquecer uma pessoa e todo mundo ficar escravo daquilo. E fomos atrás”.

Chegou uma hora que vi que não queria mais. E pedi demissão, foi um choque.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Após cerca de dez anos de uma carreira, por assim dizer, clássica e bem sucedida, ela fez uma grande mudança na vida.

O projeto começou com esse garimpo de artesãs e ida a feiras para ter contato com esse tipo de produção. Logo encontraram trabalhos inspiradores feitos com jornal, o que as levou a conhecer cooperativas de reciclagem onde havia produção de alguns produtos com parte do material recolhido e, aos poucos, foram visualizando as oportunidades. Na busca por iniciativas e projetos conheceram um artesão e o levaram para fazer uma capacitação com as mulheres que haviam encontrado na cooperativa. “Formamos um grupo de mulheres que já fazia um artesanato, mas ainda primitivo, e levamos essa qualidade”.

Na sequência, começaram a trabalhar na venda dos produtos feitos por essas pessoas e usaram a experiência de negócio que tinham para conseguir interessados e clientes. E foram conseguindo. “Como eu era da indústria de papel comecei a visitar as empresas para oferecer produtos corporativos, vimos que era um canal legal e fomos vendendo para outras empresas e fomos indo. Depois vimos que só jornal também não dava e fomos mapear outras iniciativas, transformação de outras coisas, malote bancário, indústria de confecção que sobrava retalho, garrafa pet, sobra de rede, sempre com olhar de aproveitamento, produtos feitos a mão com design e qualidade. Hoje temos 70 grupos produtivos, cerca de 1200 mulheres, em 13 anos.“

Eu queria vender algo que eu acreditasse.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Junto desse trabalho, a rede também atua com o mercado Asta para conectar empresas que querem comprar produtos artesanais.

Além disso, há quatro anos a rede resolveu investir em outra frente e criou uma escola de artesãs. “São mulheres que não tinham oportunidades, muitas foram discriminadas e começam a aprender [o trabalho] e vimos que só vender não era suficiente e criava uma dependência e queríamos que elas andassem sozinhas, então tinham que ser empreendedoras e não só artesãs”. Assim começaram com aulas presenciais – hoje todo o conteúdo é passado por vídeo aula, pela internet – com o objetivo de ensinar a fazer fluxo de caixa, pensar em novidades para a produção, novos mercados, regulamentação dos produtos, etc, sempre com o olhar de torná-las realmente autônomas.

Junto desse trabalho, a rede também atua com o mercado Asta para conectar empresas que querem comprar produtos artesanais. “O objetivo é conectar artesãs ao mercado e temos a escola que dá suporte para que ela possa vender mais e atender essa demanda. Estamos dando oportunidade para milhares de mulheres e isso é o que me faz levantar hoje. O que me deixa feliz é saber que todo mundo ganha e o que eu faço deixa um legado, tem um propósito, uma história”.

O que me deixa feliz é saber que todo mundo ganha e o que eu faço deixa um legado, tem um propósito, uma história.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Se depender dela e dessa rede de mulheres, é uma prática que não vai morrer tão cedo. Pelo contrário.

Não tem dúvida de que agora está vivendo de acordo com o roteiro que queria. Recebeu diversos convites para retornar ao mercado corporativo, mas encontrou sentido nesse projeto. “Hoje me considero uma super empreendedora, aprendo a cada dia, tenho dificuldades, a gente sai da zona de conforto, você aprende que as coisas não vão vir do céu se você não fizer. Sou grata por tudo e todos [que me ajudaram e deram apoio], mas hoje sou eu e o que me sustenta é um projeto que eu acredito, com mulheres empreendedoras como eu”. É o exemplo que quer dar para os dois filhos, como essas artesãs também dão para as suas crianças. 

Essa é a história. O legado é a transformação – de resíduos – e de vidas. Com aquele cuidado e carinho que só quem constrói coisas com as próprias mãos tem. Se depender dela e dessa rede de mulheres, é uma prática que não vai morrer tão cedo. Pelo contrário.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.