POLÍTICA
04/07/2019 07:31 -03 | Atualizado 04/07/2019 08:30 -03

Pulverização de grupos provoca divisões na direita e acirra tensões

"Isso acaba fazendo a gente perder um pouco de força, tanto os movimentos, quanto nós congressistas que viemos das ruas", diz Carla Zambelli (PSL-SP).

NurPhoto via Getty Images
"Isso acaba fazendo a gente perder um pouco de força, tanto os movimentos, quanto nós congressistas que viemos das ruas", diz Carla Zambelli (PSL-SP).

A pulverização de grupos de direita acirrou as tensões entre bolsonaristas e ex-aliados de Jair Bolsonaro que apoiam parte das bandeiras do presidente. Essa é a avaliação de integrantes dos movimentos da nova direita. No último domingo (30), membros do MBL (Movimento Brasil Livre) e do Direita SP protagonizaram uma briga em manifestação na Avenida Paulista. Em maio, também foram registradas divergências entre grupos.

Ao lado de movimentos como o Vem pra Rua, o MBL foi um grupos da nova direita que tomaram as ruas desde 2015 em defesa do impeachment de Dilma Rousseff e que abraçaram o antipetismo. Apesar de compartilhar de bandeiras do presidente e ter feito campanha para o ex-deputado na disputa presidencial, o movimento tem se distanciado do governo e de outros grupos conservadores.

Nos protestos de 26 de maio, que incluíam desde a defesa da Operação Lava Jato e da reforma da Previdência até o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional, o MBL anunciou que não iria participar. Uma das lideranças do grupo, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) afirmou que não iria aderir a “protestos adesistas, governistas” que dessem a impressão de que “o presidente possa fazer o que ele bem entender”.

As pautas extremistas — de ataque frontal ao Legislativo e ao Judiciário — afastaram parte da direita. O próprio PSL, partido de Bolsonaro, baixou o tom com o objetivo de não esvaziar as ruas. A legenda se dividiu sobre participar ou não dos atos. A princípio, o presidente compartilhou um vídeo incentivando as manifestações e depois disse que não estaria presente.

Impactos da divisão da direita

Porta-voz do Vem pra Rua, Adelaide Oliveira afirma que o aumento dos movimentos de rua conservadores pode ter levado a esse cenário. “Tem mais grupos agora. Nossa democracia está bastante forte e hoje as pessoas têm liberdade de expressão. A gente só repudia qualquer ato de violência porque manifestar sua opinião é um direito, mas obrigar que o outro tenha a mesma opinião é antidemocrático”, disse.

A ativista minimizou a briga mais recente, em São Paulo. “Nunca tinha acontecido isso nas manifestações. Três ou quatro não podem pautar uma avenida inteira. Acho que foi pontual e não vai voltar a se repetir.”

ASSOCIATED PRESS
“Acho que as divergências são naturais, o que não pode é ter vias de fato, as pessoas se agredirem”, disse Janaina Paschoal sobre divisão da direita.

Uma das figuras enaltecidas pela nova direita após propor o impeachment de Dilma, a deputada estadual Janaina Paschoal também colocou panos quentes. “Acho que as divergências são naturais; o que não pode é ter vias de fato, as pessoas se agredirem”, afirmou em entrevista ao HuffPost Brasil. A advogada disse ainda que ficou um “disse me disse” e não se sabe quem começou a briga na Avenida Paulista.

Ligada ao Nas Ruas, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), acredita que o Direita SP tenha visto como oportunista postura do MBL, de apoiar a reforma da Previdência, o pacote anticrime, a Lava Jato, mas não o governo. “Acho que Direita SP entendeu que isso era uma espécie de oportunismo. Não acho que é isso. Acho que é natural começar a separar as pautas. É natural que a direita tenha grupos, assim como a esquerda tem. Há uma linha mais libertária, outra mais progressista. Alguns liberais [na economia] não são conservadores [nos costumes]”, comparou.

Na avaliação da parlamentar, é preciso cuidado para que a fragmentação não enfraqueça esse campo. “Tenho receio de que essas brigas possam refletir nas pautas conjuntas”, disse. Ela teme que integrantes de um dos grupos se recuse a ir a um ato da reforma tributária, por exemplo, por ser organizado por um rival. “Isso acaba fazendo a gente perder um pouco de força, tanto os movimentos, quanto nós congressistas que viemos das ruas”, completou.

MBL x Direita SP

Coordenador do MBL, Renan Santos publicou vídeo sobre as supostas agressões em atos no Rio de Janeiro e em São Paulo no fim de semana. Ele afirma que os agressores são “funcionários de gabinetes de parlamentares de partido da direita” e mostra imagens de Douglas Garcia, deputado estadual eleito pelo PSL, apontado no site do Direita SP como vice-presidente do grupo.

O Direita SP, por outro lado, refutou essa versão. No site, o movimento diz ser apartidário e ter participado de atos contra a imigração e o Estatuto do Desarmamento e a favor de policiais militares, da Escola sem Partido e “em defesa da família”.

Nas redes sociais do grupo, há diversas publicações de sites destinados a produzir fake news. O MBL também já esteve envolvido com a disseminação de notícias falsas.

No vídeo, Renan diz que “a esquerda quis dividir Moro com o MBL com aquele negócio do tonto lá para tentar diminuir a manifestação”, em referência à mensagem do ministro Sérgio Moro (Justiça) em que ele critica o MBL — citada em reportagem da Folha de S. Paulo e do Intercept com base em diálogos atribuídos ao ex-juiz da Lava Jato e a procuradores.

O integrante do movimento também criticou a atuação do escritor Olavo de Carvalho, ícone da direita, por ter incentivado agressões a Kim Kataguiri, dias antes da manifestação de domingo.

Entusiasta do escritor, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, também usou as redes sociais para reclamar de Kataguiri. “Será que ainda tem ingênuo que vai dizer ‘Eduardo, vocês estão rachando a direita com posts como esse’...”, escreveu antes dos atos de 26 de maio, em referência a frase do democrata sobre a relação entre Executivo e Legislativo.

Ao responder a questionamento da revista Crusoé sobre a possibilidade de impeachment de Bolsonaro, o democrata disse que “ou a gente tem um parlamentarismo branco em que o presidente vira uma rainha da Inglaterra ou a gente passa por um processo de impeachment dependendo da votação do crédito suplementar”, em referência a projeto em que o governo pede acréscimo de R$ 240 bilhões no orçamento e precisava ser aprovado até 30 de junho.