ENTRETENIMENTO
07/03/2019 10:53 -03 | Atualizado 07/03/2019 12:48 -03

‘Querido Menino’ é um retrato honesto sobre o caos provocado pelo vício

Na saída do cinema, senti o mesmo que depois da minha primeira reunião nos Narcóticos Anônimos: compreendida e muito menos sozinha.

Francois Duhamel, Courtesy of Amazon Studios
Em ‘Querido Menino’, o drama de uma família com o vício em metanfetaminas é levado às telas.

Em 2014, descobri que minha irmã mais nova estava viciada em metanfetaminas. Aterrorizada e em pânico, li tudo o possível sobre a droga, na tentativa de entender o que estava acontecendo com ela e, por extensão, o que estava acontecendo conosco – a família. Quando descobri Querido Menino (Beautiful Boy) livro de memórias do jornalista David Sheff sobre a batalha de seu filho Nic com a droga, foi como se eu tivesse encontrado um guia para lidar com a nossa emergência familiar. Li e, na sequência, li o livro de Nic, que conta a história da perspectiva dele.

Liguei para minha mãe e disse que ela deveria comprar os dois livros. Aí entrei em contato com David pelo Facebook. “Tenho uma pergunta para você, e me desculpe por ser uma estranha pedindo conselhos”, escrevi, deixando a vergonha em segundo plano. Estava preocupada com os efeitos da metanfetamina no cérebro da minha irmã e queria saber se ele poderia recomendar algum exame médico específico. “Não tenho ninguém mais para quem perguntar.”

Lembrei dessa mensagem assistindo Querido Menino, em cartaz nos cinemas brasileiros, o filme adaptado dos livros de David e Nic, que casa as narrativas em uma história integrada. Tudo começa com David, interpretado por Steve Carell, sentando na frente de um médico, desesperadamente procurando respostas para perguntas que ele mal consegue articular.

“Acho que estou aqui porque quero saber tudo o possível, tudo”, diz ele, com cara de sofrimento. O subtexto é claro: se ele conseguir entender o vício, talvez possa salvar Nic, interpretado por Timothée Chalamet.

Chorei do começo ao fim do filme. Não uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto, mas um choro compulsivo, que normalmente guardamos para lugares privados e que é completamente inadequado para cinemas no meio da tarde. A história era dolorosamente familiar para mim: um adolescente às vésperas de começar a faculdade se vicia. Ele vai para um centro de reabilitação, melhora e tem uma recaída. O ciclo se repete ad nauseam, mais vezes que você consegue suportar.

Cada cena de ‘Querido Menino’ parecia saída das minhas lembranças; o filme era um fac-símile sinistro de uma história vivida pela minha família. Assim é o vício: ele pode ser formulaico, repetitivo, entediante.

Quando Nic está chapado, faz coisas para ferir a família e a si mesmo. Mente, rouba e some por longos períodos – ninguém sabe se ele está vivo ou morto. A família não entende essa transformação repentina de um garoto saudável e feliz em um dependente de drogas. Eles não têm respostas, só dúvidas. Viver com o espectro da morte muda os tons da vida cotidiana. O telefone toca como uma sirene, anunciando notícias ruins.

Cada cena de Querido Menino parecia saída das minhas lembranças; o filme era um fac-símile sinistro de uma história vivida pela minha família. Assim é o vício: ele pode ser formulaico, repetitivo, entediante. Esse turbilhão de emoções deixa muitas pessoas – sejam elas próprias lidando com o vício ou seus parentes – confusas: culpa, vergonha, raiva, medo. Reconhecer isso oferece algum conforto: depois de participar da minha primeira reunião dos Narcóticos Anônimos, lembro como fiquei aliviada ao ouvir as histórias dos outros presentes. As dificuldades que eles enfrentavam eram idênticas às da minha irmã (e às de Nic). Não havia nada particularmente errado com ela, ou conosco. O que parece impossível de administrar no nível individual de repente é muito mais fácil de entender quando você percebe que outras pessoas estão enfrentando exatamente o mesmo problema.

“É uma doença acompanhada por vergonha, e as pessoas que têm essa doença na família muitas vezes a mantêm em segredo, porque sentem vergonha e culpa”, me disse David numa recente entrevista por telefone. Conversamos três anos depois de eu entrar em contato com ele, e Nic também participou da entrevista. “Muita gente que está passando por isso agora nos procurou. Eles dizem que assistiram ao filme, e ele reafirmou suas experiências.”

Inicialmente, Nic e David estavam receosos em relação à adaptação da história traumática e pessoal para o cinema. “Foi doloroso escrever o livro. Às vezes escrevia durante a madrugada só para atravessar a noite, para lidar com as coisas que estavam na minha cabeça”, diz David. “A ideia de alguém chegar e fazer alguma coisa com isso me deu muito medo.” Mas, nos dez anos que se passaram desde o lançamento do livro, dizem os dois, vários leitores os procuraram – como eu ―, em busca de algum tipo de conexão com alguém, qualquer um. O filme seria uma maneira de fazer isso.

 

“Ao dividir nossa história, demos permissão para os outros dividirem as suas”, diz Nic. “Acabamos tendo essas conversas incríveis com pessoas do país inteiro. Achamos que fazer um filme a partir dos dois livros seria uma maneira de inspirar essas conversas numa escala muito maior, e isso foi uma ideia muito empolgante.”

Na adaptação dos dois livros de memórias, Felix Van Groeningen, diretor e co-roteirista de Querido Menino, pinta um retrato matizado do vício. Não há nada dos clichês típicos de Hollywood nem mitos sobre quem usa drogas ou por quê. O filme é inabalável na atenção dedicada ao vício de Nic. Não há outras histórias competindo pela atenção dos espectadores, não há pausas para que eles respirem.

É cansativo e completamente realista; o vício se sobrepõe a todo o resto. Às vezes vemos David no trabalho, mas as cenas são difusas e vagas. O coração dele está em outro lugar, preocupado em manter Nic vivo. Seus filhos mais novos não estão recebendo a atenção que merecem. O casamento está sofrendo com o estresse. Nic está isolado por causa do vício, e David, isolado porque está lidando com ele.

“Achei que a gente fosse próximo”, diz ele, confuso, para Nic em uma cena. “Achei que a gente fosse mais próximo que a maioria dos pais e filhos.”

É agonizante assistir David passar da esperança à desesperança. Quando visita Nic na clínica de reabilitação, ele está animado e otimista. Depois, vemos a inevitável decepção com a recaída do filho. Após inúmeras repetições do ritual, David sucumbe ao desespero. Às vezes, ela se manifesta em ira. O vício de Nic parece um soco no estômago, uma traição do elo entre pai e filho. Por que Nic está escolhendo as drogas em vez da família, as drogas em vez de uma carreira, as drogas em vez de todo o resto?

É claro que David descobre que não se trata de uma escolha. As drogas estão mexendo no cérebro de Nic. Ele é movido por algo muito mais poderoso que a força de vontade; estamos falando de uma doença. Nic também está confuso. Não sabe o que está acontecendo com ele e sente vergonha por não conseguir parar. Quando está drogado, ele faz as piores escolhas possíveis, e se sente ainda mais culpado. Aí ele precisa de mais drogas para lidar com a bagunça que virou sua vida. É um ciclo que se perpetua. Nic está plenamente consciente da dor que está causando, o que só aumenta sua vontade de se desconectar do mundo. Quando a vida fica possível de administrar, as drogas parecem uma alternativa razoável.

“Lembro que, quando estava usando drogas, a sensação era de que meu corpo tinha sido sequestrado”, diz Nic. “Apesar de fazer aquelas coisas horríveis, como roubar dinheiro da minha família, também sentia muita vergonha e culpa. Sabia que estava fazendo algo errado, mas não conseguia parar.”

Em uma cena comovente, Nic está sóbrio e vai visitar o pai, a madrasta e dois irmãos mais novos. A irmã e o irmão ficam muito felizes de vê-lo, mas também estão magoados com a ausência dele. Nic brinca com eles, tenta compensar o tempo que passou longe, mas fica claro o impacto negativo que ele tem na família. Quando ele chega tarde depois de uma reunião dos Narcóticos Anônimos, David, preocupado, o confronta. Nic diz que não avisou porque seu celular ficou sem bateria, mas o pai já não acredita mais. Ele quer que Nic faça um teste de drogas ali mesmo. Nic passa no teste, mas a cena mostra o abismo que se formou entre pai e filho. David não confia em Nic, e Nic sabe que não pode esperar isso de David.

Aí, vem outra recaída.

Uma das mensagens mais fortes do filme é negar a ideia de quem usa drogas só quer se divertir, sem se preocupar com os outros, diz David. “No filme todo, você vê que ele não está se divertindo. Ele está sofrendo, tentando entender essa dor.”

O filme também não tenta explicar por que Nic se viciou. Não há um evento que tenha precipitado essa espiral negativa. “Experimentei, foi a sensação incrível, então continuei usando”, explica ele numa cena do filme. Não é suficiente, mas ao mesmo tempo é tudo. E o filme também não pretende fazer proselitismo sobre a maneira certa de superar o vício.

“Não existem respostas quando se trata de recuperação”, diz Nic. “O vício é frustrante nesse sentido. Não existe um único caminho para a sobriedade. Cada um vai seguir o seu próprio.”

Uma das mensagens mais fortes do filme é negar a ideia de quem usa drogas só quer se divertir, sem se preocupar com os outros, diz David.

 

Um elemento crucial para a recuperação de Nic? Amor incondicional. Foi importante ouvir isso quando estava tentando ajudar minha irmã. Lembro de cair no choro conversando com um amigo pelo telefone. Na época, estava tentando convencer minha irmã a se internar numa clínica e não sabia o que fazer. Não conseguia controlar as coisas que estavam acontecendo. Era duro assistir àquilo; meu coração se despedaçava quando a via.

Meu amigo disse que eu não precisava controlar nada, porque isso era impossível. A única coisa a fazer era amá-la, estar com ela. Minha presença era suficiente. Sobrevivemos àquele dia, e ao seguinte. Nunca a abandonei.

 “Famílias podem se curar”, diz David. “Exige tempo e comprometimento, mas elas podem ser mais fortes e melhores que antes.”

 “Mesmo depois de tudo, o amor ainda está lá”, acrescenta Nic. “Isso é o mais importante.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.