OPINIÃO
23/07/2020 03:00 -03 | Atualizado 23/07/2020 03:00 -03

'Quem matou Gabriel?', abaixo-assinado reforça clamor por justiça a jovem morto no RN

Negro, morador da periferia, e um homicídio não esclarecido; Informações dão conta de que Gabriel teria sido abordado e colocado em uma viatura da PM antes de desaparecer.

Arquivo pessoal
O garoto, de 18 anos, sonhava em ser policial militar do BOPE e cantor de rap.

Já faz um mês e uma semana que familiares e amigos de Giovanne Gabriel de Souza Gomes convivem com a dor do luto e da ausência de justiça. Depois de nove dias desaparecido, o jovem de 18 anos foi encontrado morto com um tiro na nuca e os braços amarrados, no dia 14 de junho, em um matagal nos arredores de São José de Mipibu, na Grande Natal (RN). Até agora, porém, a pergunta “Quem matou Gabriel?” segue sem resposta.

Numa tentativa de canalizar o clamor coletivo por justiça, que se formou na comunidade onde Gabriel vivia, em Guarapes, zona oeste de Natal, o professor João* criou um abaixo-assinado online para cobrar respostas do poder público. Segundo informações que passaram a circular pelo bairro e chegaram até os familiares do rapaz, testemunhas teriam visto o jovem ser abordado por policiais militares, agredido e colocado na “mala” da viatura. 

Depois da suposta abordagem, Gabriel desapareceu. “As controvérsias residem quanto às lacunas que cercam a cronologia, motivações e dinâmica dos fatos”, conta o professor João, de 26 anos, que por razões de segurança prefere usar um nome fictício. Aberta no mesmo dia em que o corpo do rapaz foi achado, a petição online já acumula quase 50 mil assinaturas. 

“As mesmas forças sociais e históricas que vulnerabilizaram o Gabriel também operam sobre mim. Compartilhamos a mesma origem periférica, a mesma etnia, a mesma gana de lograr êxito na vida apesar dos percalços… E o destino hediondo que ele teve me atinge frontalmente, em muitos níveis, e precisa ser questionado”, pontua o professor.  

O abaixo-assinado, que está ativo na plataforma Change.org, soma-se a outras tentativas de parentes e amigos de Gabriel para saber quais foram as circunstâncias de sua morte e o que aconteceu na manhã daquela sexta-feira, 5 de junho, durante o trajeto que ele fazia de bicicleta entre sua casa e a residência da namorada, no município de Parnamirim, também na Região Metropolitana de Natal. O rapaz nunca chegou ao seu destino.  

“Essa morte, como a de tantos outros antes e depois dele, não é fruto de uma coincidência, é um ato intencional e observado ainda com passividade pela sociedade brasileira, extremamente tímida e por vezes disfuncional quanto à apropriação desta discussão”, pontua João sobre o contexto histórico brasileiro e o debate do racismo estrutural. Na petição, ele ainda destaca “a ineficácia do Estado para proteger vidas negras e periféricas”.

“Sem justiça, sem paz”

Arquivo pessoal
Dois atos já foram feitos em Guararapes para cobrar respostas às autoridades.

A comoção popular provocada pela morte do garoto levou, em duas ocasiões, os moradores da comunidade de Guarapes às ruas para cobrar por justiça. O primeiro ato aconteceu depois da localização do corpo e o segundo na semana passada, um mês depois dele ter sido encontrado morto. Faixas e palavras de ordem questionam “Quem matou Gabriel?”, lembram que “Vidas Negras Importam” e gritam “Sem justiça, sem paz”.  

Além dos protestos e do abaixo-assinado, um mini-documentário foi feito para homenagear o jovem. No filme, de quase 7 minutos, amigos e parentes contam que Gabriel era “um grande homem” que trabalhava como auxiliar de pedreiro para ajudar a família, e pedem que o caso seja esclarecido para impedir a morte de outros jovens negros e periféricos. 

“Era para ele ser branco, porque talvez se ele fosse branco, isso não tinha acontecido”, desabafa Giovana, irmã de Gabriel, em depoimento no vídeo. De acordo com o Atlas da Violência, divulgado no ano passado, 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. O relatório, fruto de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela também que a taxa de mortes entre essa população foi de 43,1 por 100 mil habitantes em 2017, enquanto a de pessoas não negras foi de 16. 

Era para ele ser branco, porque talvez se ele fosse branco, isso não tinha acontecido.Giovana, irmã de Gabriel, em depoimento no vídeo

O Rio Grande do Norte, Estado onde Gabriel vivia, tem a pior taxa de homicídios do país para as pessoas negras: 87 por 100 mil habitantes, muito acima da média nacional (43,1) e com grande divergência em relação aos não negros do mesmo Estado: 15,1. 

A população negra também é o maior alvo das mortes decorrentes de intervenção policial no país. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019 - o mais recente - mostra que das 6.220 das pessoas mortas pela polícia no Brasil, em 2018, 4.690, ou 75,4%, eram negras. 

“Não podemos permitir que a sua morte se torne apenas mais um dado estatístico caracterizado pela impunidade. Por isso, esperamos e cobramos celeridade e competência das autoridades vigentes para elucidar as circunstâncias de sua morte, apontar os responsáveis e puni-los”, destaca trecho do abaixo-assinado criado pelo professor João, que tem 26 anos.

Sonhos interrompidos

 Gabriel tinha pelo menos dois sonhos na vida: ser policial militar do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e cantor e compositor famoso de rap, ou ainda professor de Educação Física. Dúvidas que cercam a maioria dos jovens de 18 anos, que estão prestes a escolher uma carreira a seguir no futuro. Os projetos já estavam encaminhados. 

Conciliando com as atividades de auxiliar de pedreiro, o rapaz fazia cursinho pré-militar e também gravava vídeos para o Instagram, como PulffyMC, cantando os raps que escrevia. Segundo narra seu produtor musical no vídeo, Gabriel tinha chances de “estourar” na música. No dia seguinte ao seu desaparecimento, estava prevista a gravação de um novo rap.

“Gabriel era de boa índole, tranquilo, era muito ligado à família. Era extremamente respeitador com dona Priscila - sua mãe - e um bom irmão”, enfatiza João. “Quando chegava o final da semana, que ele ganhava o dinheirinho dele, era: ‘Mainha, tá aqui o da despesa’. Por ele mesmo tomava essa iniciativa de tirar o [dinheiro] de casa. Um menino, assim, que toda a mãe pediu a Deus para ter”, fala Priscila no vídeo, acreditando que “a justiça vai ser feita”. 

Nesta sexta-feira (24), a partir das 20 horas, está organizado um twittaço para alavancar a hashtag #QuemMatouGabriel, cobrando respostas do Governo do Rio Grande do Norte e das forças policiais. Já no sábado (25), pela manhã, o jovem receberá uma homenagem dos colegas do Grupamento Pré-Militar, em uma igreja em Guararapes. 

As investigações

 A mobilização dos moradores da comunidade onde Gabriel vivia fez com que pessoas públicas se unissem, nas redes sociais, ao coro por respostas para sensibilizar as autoridades. No dia em que o corpo do rapaz foi localizado, a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, manifestou-se em sua conta pessoal no Twitter, dizendo ter prestado solidariedade à mãe do jovem e determinado “todo o empenho” e “todo o rigor” no processo de investigação.    

Nas três publicações, Fátima usou a hashtag #VidasNegrasImportam. “As providências estão sendo tomadas, querida Priscila, para que outros garotos, como Gabriel, não nos deixem de forma tão trágica, em tenra idade. Todo o empenho da PC [Polícia Civil] para que possamos ir a fundo e que o(s) culpado(s) sejam exemplarmente punidos”, postou a governadora. 

reprodução/twitter

Passado um mês, o empenho prometido ainda não levou à justiça esperada. A equipe da Change.org entrou em contato com a Polícia Civil do Rio Grande do Norte para saber sobre o andamento das investigações e as circunstâncias da morte do jovem. Por nota, a corporação informou que as apurações do homicídio continuam em andamento, tramitando pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O órgão esclareceu que o inquérito policial está sob sigilo e que a restrição de informações é necessária para que se tenha êxito na investigação.

“A instituição entende a preocupação dos familiares e da sociedade, porém reafirma que o trabalho está sendo feito e que todos os esforços estão sendo empreendidos para a conclusão do caso, com a responsabilização do(s) autor(es)”, diz trecho da nota. 

A Polícia Militar também foi procurada para que pudesse esclarecer se o garoto foi realmente abordado e levado por PMs antes de desaparecer e para se posicionar quanto às suspeitas apontadas por testemunhas, porém, não atendeu às tentativas de contato feitas através de e-mail, telefone e WhatsApp da assessoria de imprensa da corporação. Caso órgão se manifeste, a resposta será publicada na página do abaixo-assinado online.

 “Ele não sofria perseguição policial para além daquela a que negros e periféricos estão mais comumente sujeitos, pelo contrário, ironicamente, ele aspirava ser um [policial]”, afirma João. “Não sei se há demora ou falta de empenho por parte das autoridades, se este lapso temporal e mutismo institucionais são um procedimento padrão, mas já se passaram mais de 30 dias. E qualquer sinal de morosidade ou falta de empenho, além de potencializar as controvérsias, devem ser expressivamente expostos e questionados”, finaliza o professor.  

O abaixo-assinado, que pede justiça por Gabriel, segue aberto e reunindo apoiadores em torno da pressão por respostas. A petição foi inserida em um movimento, lançado pela plataforma Change.org, para dar mais visibilidade às campanhas antirracistas. 

*João é nome fictício do professor que criou o abaixo-assinado pedindo justiça a Gabriel. Por temer por sua segurança, o autor da petição preferiu manter sua identidade sob sigilo.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site. 

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost