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26/06/2020 15:49 -03 | Atualizado 26/06/2020 15:52 -03

Após prisão de Queiroz, Bolsonaro busca espaços neutros e convenientes para falar

HuffPost apurou que presidente tem sido "bom ouvinte" e seguido "conselhos" de manter silêncio e moderação.

Andressa Anholete via Getty Images
Presidente não dá entrevista na porta do Palácio da Alvorada desde semana passada, quando apoiadores seus foram alvo da PF. 

É nítido que Jair Bolsonaro tem falado menos na última semana. As corriqueiras frases bombásticas, recados e ataques a adversários, em especial ao STF (Supremo Tribunal Federal), foram substituídas pelo silêncio. Até mesmo em cerimônias oficiais, o presidente tem sido mais contido. Não afeito, conforme pessoas próximas, a seguir conselhos, desta vez o mandatário tem preferido a “cautela”.  

Esse comportamento coincide com a prisão do ex-policial militar Fabrício Queiroz na semana passada. Mas isso não é mero acaso. O HuffPost apurou que auxiliares palacianos e advogados têm orientado o presidente a evitar polêmicas. O primogênito do presidente Jair Bolsonaro, Flávio, está no centro do escândalo da suposta rachadinha quando deputado estadual no Rio de Janeiro e voltou ao centro das atenções com a prisão de seu ex-assessor na casa da família do advogado dos Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia (SP).

O medo de uma delação do ex-assessor de seu primogênito, Flávio Bolsonaro, porém, tem feito o presidente seguir esse padrão mais ponderado. Ninguém é capaz de dizer, contudo, se esse comportamento vai durar muito tempo. Conforme informações levantadas pelo HuffPost, ele “tem sido bom ouvinte” e “embora nervoso com a situação, tentado seguir os conselhos de se manter em silêncio”.

Há pelo menos 10 dias sem falar com jornalistas, nesta sexta-feira (26), Bolsonaro resolveu quebrar o silêncio dos últimos dias e falar com a imprensa. 

Porém, bem longe de Brasília. Ele viajou para o Ceará, onde inaugurou mais uma etapa da obra de transposição do rio São Francisco. Foi justamente sobre isso que respondeu. Nenhuma palavra sobre qualquer assunto delicado para seu governo ou seus filhos. 

Em rápida entrevista, Bolsonaro disse que fica “muito feliz” por levar água para quem precisa. Segundo a Reuters, o mandatário citou que a transposição vai ajudar a agricultura, irrigar terras e levar água para o cidadão nordestino. “É uma novela que está chegando ao fim”, resumiu.

Já em Brasília, Bolsonaro tem adotado uma tática para escapar da imprensa, mas não deixar “desalentados”, como classificou uma fonte, seus apoiadores que diariamente o aguardam em frente ao Palácio da Alvorada. O presidente coloca o grupo para dentro da propriedade, próximo à guarita, apenas para evitar que a conversa possa ser acompanhada pelos jornalistas que ainda ficam na portaria do local. 

Vários veículos de imprensa já deixaram de fazer a cobertura da porta do Alvorada devido a ataques que vinham sofrendo de apoiadores do mandatário, sem que nada fosse feito pela segurança presidencial. 

A última vez que havia se dirigido à imprensa na capital federal foi na terça passada  (16), quando aliados próximos seus, como o blogueiro Alan dos Santos e o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), foram alvo de busca e apreensão pelo inquérito das fake news. Mais tarde, parlamentares que o apoiam tiveram sigilos derrubados, mas em outra investigação — dos atos antidemocráticos. Na ocasião, ele disse que estava chegando a “hora de colocar tudo em seu devido lugar”.

A moderação e tentativas de aparentar normalidade institucional fizeram parte de seu discurso também na cerimônia no Planalto na quinta (25) em que foi celebrado acordo de cooperação entre o Executivo e o Judiciário para formar base de dados com informações sobre Constituição, leis ordinárias e jurisprudência. 

“Esse entendimento, essa cooperação bem revela o momento que vivemos aqui no Brasil. Eu costumo sempre dizer quando estou com o presidente [Dias] Toffoli [do STF], também com o [Davi] Alcolumbre, ao [Rodrigo] Maia, que são presidentes da Câmara e do Senado, que nós somos pessoas privilegiadas. O nosso entendimento, sim, em um primeiro momento, é o que pode sinalizar que teremos dias melhores para o nosso País”, afirmou Bolsonaro.

O HuffPost apurou com a cúpula do Congresso que não se espera essa moderação por muitos dias. “Desde a prisão do Queiroz, os dias têm sido relativamente tranquilos para ele. Teve a vitória de ontem, quando o Flávio conseguiu tirar o caso das mãos do [Flávio] Itabaiana lá no Rio. Se algo der muito errado, não é da personalidade dele [Bolsonaro] se conter. Precisamos aguardar os próximos capítulos. Tem muita coisa acontecendo e, pelo que temos visto, por acontecer”, ponderou um importante parlamentar próximo ao presidente. 

O fato de o escândalo do Caso Queiroz ter emergido e desta vez dentro do Palácio do Planalto mostra que o fantasma da corrupção está cada vez mais próximo de manchar a bandeira do governo de não tolerar ilícitos ― como acusa governos anteriores de ter feito. O entendimento entre especialistas e ex-aliados do presidente Jair Bolsonaro é de que haverá desgaste e perda de confiança. Pesquisa Datafolha publicada nesta sexta-feira (26) mostra que 64% dos brasileiros acreditam que o presidente sabia onde Queiroz estava escondido.