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23/09/2020 07:51 -03 | Atualizado 23/09/2020 07:51 -03

O que faz deste o pior período de queimadas das últimas décadas no Pantanal

Devastação da vegetação nativa, plantações de soja e criação de gado deixam a região mais vulnerável em épocas de estiagem e queimadas, diz climatologista.

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De acordo com o Ibama, os incêndios já destruíram cerca de 2,9 milhões de hectares do Pantanal.

Setembro de 2020 ainda não acabou, mas o mês já é um marco na história do Pantanal. É o segundo mês consecutivo em que o bioma vem sofrendo recordes de focos de incêndio. Até o último dia 16, tinham sido registrados 5.603 focos de incêndio. Em todo mês de agosto, foram 5.935 — um recorde que só perde para agosto de 2005, quando foram notificados 5.993 focos. Mesmo com a chuva do fim de semana, os alertas continuam.

De acordo com o Ibama, os incêndios já destruíram cerca de 2,9 milhões de hectares do Pantanal. A estimativa é que tenha sido mais severo no Mato Grosso, onde atingiu aproximadamente 1.740 milhão de hectares. No Mato Grosso do Sul, foram destruídos ao menos 1.165 milhão de hectares. Devido às queimadas, o estado decretou situação de emergência ambiental.

A expectativa é de que 2020 seja o ano de maior estrago já registrado no bioma. A alta vem desde o primeiro semestre. O desmatamento atinge fauna e flora, sabe-se que a ameaça é grave, especialmente para araras-azuis e onças pintadas, que residem no bioma e estão sob ameaça de extinção. Sítios arqueológicos no Parque Estadual Nascentes do Rio Taquari também estão em risco.

Há ainda a estiagem, que é a mais severa das últimas duas décadas, o que faz com que cursos d’água em rios estejam secando. Maior da região e 8º maior em curso de água da América do Sul, o rio Paraguai tem apresentado baixos níveis em toda sua extensão. Em alguns pontos, ele chega a ficar invisível a depender da distância. Outros rios também têm sofrido com a seca, como o Miranda, o Aquidauana e o Pardo, segundo dados do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul).

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Queimadas atingem a fauna e a flora do bioma. 

A seca nos rios também preocupa os moradores da região por causa da navegabilidade dos rios e da fumaça. A Prefeitura de Cárceres (MT), por exemplo, tem alertado a população sobre medidas de prevenção. Há ainda problemas com a fumaça e baixa umidade.

Ao HuffPost, o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explicou que o principal fator que agravou o cenário das queimadas foi a redução na quantidade de chuvas, que vem desde 2019, mas se acentuou este ano.

Essa á uma das piores secas da história do Pantanal, a média de chuvas entre março e outubro é 40% menor do que a média de anos anteriores, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Além das chuvas em queda, ele acrescenta que a média da temperatura também foi mais alta este ano.

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De acordo com Marengo, na década de 1970 também houve um período de estiagem severa como agora, “só que agora os impactos são maiores”. “A região está mais vulnerável. São fazendas que não existiam antes, a vegetação nativa deu lugar a plantações de soja e criação de gado, tudo isso contribui”, diz. Já o manejo do fogo feito pelos índios, citado pelo presidente Jair Bolsonaro, como uma das justificativas para queimadas é refutado pelo especialista. 

A região está mais vulnerável. São fazendas que não existiam antes, a vegetação nativa deu lugar a plantações de soja e criação de gado, tudo isso contribui.José Marengo, climatologista do Cemaden

“Os índios fazem isso, mas eles sabem onde queimar e controlam. Não é isso o que está acontecendo, o que se observa agora é uma seca. Já existiram secas catastróficas, só que os impactos hoje são maiores”, enfatiza Marengo, que integra a lista Highly Cited Researchers, elaborada pela consultoria britânica Clarivate Analytics, que classifica os pesquisadores mais influentes do mundo.

Segundo ele, a única forma de combater esses incêndios é através de fiscalização, “ou seja, evitar que as pessoas queimem o terreno”. “É preciso supervisão e também uma equipe especial de bombeiros capacitados para esse trabalho”, diz.

O governo, no entanto, mesmo com alertas de alta de desmatamento e queimadas desde o ano passado, diminuiu investimento em fiscalização. De acordo com dados do Portal da Transparência, divulgados pelo site DW, houve uma redução de 58% no gasto esperado com contratação de pessoal para combater o fogo. Foi de R$ 23,78 milhões em 2019 para R$ 9,99 milhões neste ano.

Também houve queda pelo segundo ano seguido no orçamento total para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais. Segundo os dados obtidos pelo site, o montante inicialmente planejado para a área em 2018 era de R$ 53,8 milhões, foi reduzido em 2019 para R$ 45,5 milhões, e para R$ 38,6 milhões em 2020. Houve uma queda de 15% do ano passado para este.

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Entre este ano e o ano passado, houve uma redução de 58% no gasto esperado com contratação de pessoal para combater o fogo.

Ao DW, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que houve contratação de mais brigadistas e não explicou os cortes no orçamento. No fim de agosto, quando foi anunciado corte no orçamento da pasta, o ministro Ricardo Salles anunciou a suspensão do combate ao desmatamento. Horas depois, após repercussão negativa e pressão do vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, o ministro voltou atrás.

Marengo observa que teria sido mais fácil apagar o fogo no início e não na situação que está agora se espalhando. “Isso é perigoso porque atinge outros estados e afeta a população, a saúde, ainda mais em meio a uma pandemia.”

Fogo na Califórnia

Na terça-feira (22), ao abrir os debates gerais da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) o presidente Jair Bolsonaro chegou a comparar os incêndios no Pantanal com os que estão desgastando a Califórnia, nos Estados Unidos. Há, porém, algumas diferenças. As queimadas são sim, consequências da alta temperatura local, mas não é um efeito “inevitável” como citou o presidente.

Na Califórnia, também há indício de que parte do fogo tenha sido causado por ação humana, mas não há relação com atividade agropecuária da região — como ocorre no Centro-Oeste do Brasil. Choques em redes de transmissão de energia são apontados como um dos catalisadores de incêndios, mas também houve um de grande proporção causado por artifício pirotécnico usado em um chá de revelação do sexo de um bebê.

O estado norte-americano registrou recorde de queimadas, com destruição de pelo menos 930.800 hectares. O que as queimadas no Brasil, nos Estados Unidos e na Austrália têm em comum são os indícios de que o planeta está passando por uma mudança climática. À National Geographic, a ecologista da Universidade de Boulder Jennifer Balch resumiu: altas temperaturas, maior potencial para focos de incêndio.

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