ENTRETENIMENTO
13/09/2020 04:00 -03 | Atualizado 13/09/2020 04:00 -03

20 anos depois, ‘Quase Famosos’ é o perfeito filme alto astral

A ode de Cameron Crowe ao rock dos anos 70, estrelado por Patrick Fugit e Kate Hudson, continua inteligente e sentimental.

Kate Hudson tem uma fala em Quase Famosos que é cafona, exagerada e perfeita. Penso nela sempre. Sua personagem, apropriadamente chamada de Penny Lane, diz ao jovem jornalista de rock dos anos 1970 William Miller (Patrick Fugit) enquanto eles andam de carro em San Diego: “Sempre falo para as meninas: “Nunca leve as coisas tão a sério. Se você nunca leva as coisas a sério, você nunca se magoa. Se você nunca fica magoada, sempre se diverte. E, se você se sentir sozinha, vá até a loja de discos e visite seus amigos.”

Essa frase me pega. Não importa a fraqueza ― e elas são muitas ―, você sempre vai encontrar conforto na música que ama, especialmente quando é um jovem adulto, ainda descobrindo o mundo.

É disso que se trata Quase Famosos, pelo menos na superfície: música. Quem faz, quem adora, quem não entende o que ela faz pela nossa alma. Cameron Crowe era um dos diretores mais requisitados dos Estados Unidos quando o filme estreou, em 13 de setembro de 2000. Ele tinha dirigido Digam o que Quiserem, Vida de Solteiro e Jerry Maguire – A Grande Virada, mas esta seria sua obra-prima. Uma joia sobre a chegada à maioridade, que canaliza os dias de Crowe como um jovem e obsessivo jornalista da Rolling Stone, o filme agrada todo mundo, mas sem perder a inteligência – algo que nem sempre se vê em filmes tão obviamente sentimentais.

Existem inúmeras listas de filmes alto astral, e inclusive várias delas foram publicadas este ano, num aparente esforço de compensar a depressão causada pela pandemia. Essas coleções geralmente contêm os mesmos clássicos: Legalmente Loira, Grease – Nos Tempos da Brilhantina, Mudança de Hábito e Feitiço do Tempo. São filmes que valem a pena, claro, mas a definição aceita de “alto astral” claramente tem limites.

Ninguém fica de pernas bambas quando assiste Alien, o Oitavo Passageiro. Mesmo que Sigourney Weaver ainda sobreviva no final. Idem para Shelley Duvall em O Iluminado. E quanto a Uma Família de Pernas para o Ar, de Spike Lee, uma comédia que parece dolorosamente humana em sua abordagem da morte? E, sim, talvez você chore no final de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Os Guarda-Chuvas do Amor ou Encontros e Desencontros, o que há de melhor para se sentir bem do que lágrimas de qualidade?

Dreamworks Pictures/Globe Photos/ZUMAPRESS/Alamy
Patrick Fugit e Kate Hudson em "Quase Famosos".

Estou sendo um pouco jocoso, mas queria mais espaço nessa categoria de “alto astral” para incluir arte que não seja tão borbulhante. Penso em Quase Famosos, um filme que oferece ideias grandiosas e agridoces sobre a vida, sem ser enjoativo ou confundir austeridade com importância. O final é satisfatório, e o peso do filme não se rende à pieguice. Na época, essa era a especialidade de Crowe. Sua sensibilidade esteve meio claudicante nos anos que se seguiram (Tudo Acontece em Elizabethtown e Sob o Mesmo Céu), e os grandes estúdios de Hollywood não dão mais prioridade a projetos originais de orçamento moderado pelos quais Crowe é conhecido. Mas é isso que faz de Quase Famosos um filme tão especial. Vinte anos depois, ele é mais “alto astral” que nunca.

Crowe baseou seus protagonistas em pessoas reais. Penny Lane foi inspirada por uma promotora musical autoproclamada que transcendeu os clichês de uma groupie dos anos 70; o sério William Miller era basicamente o próprio Crowe; sua mãe severa (Frances McDormand) refletiu a própria criação de Crowe; os músicos da banda fictícia com quem William se envolve foram inspirados por Gregg Allman, Robert Plant e Jimmy Page. (Peter Frampton e a então esposa de Crowe, Nancy Wilson, também ajudaram a treinar os atores).

Isso explica a verossimilhança do filme, mas seu encantamento vem do caráter de conto de fadas de Quase Famosos, ao mesmo tempo místico e com os pés no chão. Ninguém realmente consegue afogar as mágoas, ainda menos pessoas se viram jornalistas de música aos 15 anos ― mas é bom fingir.

O conto de fadas está contido nas ambições de William. Sua irmã mais velha (Zooey Deschanel, no papel que inicialmente seria de Hudson) fugiu da casa restritiva de sua mãe, deixando para trás uma coleção de vinis que apresenta William a Beach Boys, Jimi Hendrix, Joni Mitchell, Bob Dylan e The Who. “Olhe embaixo da sua cama, será libertador”, diz ela em outra daquelas frases perfeitas e cafonas. Ela tem razão: William encontra nesses registros uma libertação de que ele não sabia que precisava e uma carreira lucrativa de freelancer.

O relacionamento William com Penny Lane e outros integrantes da indústria da música – em particular Sapphire (Fairuza Balk), o deus da guitarra Russel Hammond (Billy Crudup) e o mentor Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman) ― são a sustentação do filme. William era um pária na escola, inteligente demais para se encaixar nas turmas e incapaz de se relacionar com seus colegas. Com Penny e o resto da turma, William descobre as texturas de um mundo além da sua casa, onde a rebelião glamorosa do rock é manchada por potenciais overdoses, complicados rolos românticos e viagens de avião quase fatais.

É um negócio sombrio, mas filtrado pelos olhos arregalados de William, tudo ganha um quê filosófico: nada na vida é o que parece, e a verdade está em algum lugar no meio, se você estiver disposto a procurá-la.

Evan Agostini via Getty Images
Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Kate Hudson, Patrick Fugit, Cameron Crowe, Jimmy Fallon, Billy Crudup e Jason Lee em uma festa comemorando “Quase Famosos”, em 2000.

No fim das contas, são os profissionais que aprendem com o adolescente, que eles chamam de “o inimigo” porque ele quer escrever um perfil sem deixar nenhum detalhe de fora. Os ídolos do rock estão traindo uns aos outros, arrumando brigas, maltratando as mulheres que os reverenciam e achando que seu privilégio é garantido.

William poderia seguir o mesmo caminho, entregando-se ao hedonismo. Mas não é o que ele quer. Ele escreve a matéria nua e crua e não precisa de uma barganha faustiana para fazê-lo. No final, quando Russell o visita em casa, William ainda é um menino doce e incorrupto, apesar da ingenuidade perdida.

Ele ficou mais ou menos amigo das estrelas, mas sua capacidade de William de tirar os óculos de lentes cor de rosa sinaliza a descoberta da vida adulta. Isso o torna um protagonista tão complexo quanto qualquer personagem com o dobro de sua idade.

Quase Famosos não foi um grande sucesso imediato; no fim de semana de estreia, Lenda Urbana 2 e um relançamento de O Exorcista (de 1973) tiveram mais bilheteria. O faturamento mundial totalizou 47,4 milhões de dólares, menos do que o custo de produção. Mas o fato de o filme ter alcançado um status tão querido nos últimos 20 anos mostra como a história é puro “alto astral”. Ela alimenta e diverte.

O New York Times escreveu recentemente uma história oral da cena em que Russell tomou ácido. O podcast Origins recrutou Crowe, Fugit, Hudson e outros para uma fantástica história oral falando do projeto inteiro. Em um episódio de Gilmore Girls, de 2003, Jess (Milo Ventimiglia) diz ser “viciado” no filme. Desde então, Quase Famosos foi mencionado em séries como Weeds, Os Simpsons, Orange Is the New Black, Entourage e Psych.

De forma inesperada, a promessa de Penny a William se cumpriu, embora eu não esteja convencido de que ela acreditasse tanto assim no que dizia. O filme deixa claro que Penny leva muito a sério o mundo em que vive, por mais que se divirta. O coração dela é partido. Mas ela sabe que a tristeza dá tréguas e que você pode ouvir algumas músicas – ou talvez assistir a Quase Famosos – para  um pouco de catarse.

Quase Famosos está disponível em streaming no Brasil apenas para aluguel no Google Play, Apple TV e Microsoft Store.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.