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15/02/2020 06:44 -03

Pupilo de Olavo de Carvalho fica na corda bamba com Planalto militarizado

Da ala ideológica, Filipe Martins tem função esvaziada com chegada de almirante à Secretaria de Assuntos Estratégicos, que vai cuidar de assuntos internacionais.

Reprodução Twitter @filgmartin
Assessor Especial para Assuntos Internacionais, Filipe Martins esteve nos EUA com Bolsonaro em março de 2019 e participou da audiência com Trump.

O movimento de militarizar o Palácio do Planalto tende a distanciar o presidente Jair Bolsonaro do núcleo ideológico radical que vinha dominando a agenda. E o próximo nome a sentir o impacto é Filipe Martins, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência e um dos nomes mais representativos dessa ala.  

Na sexta-feira (13), Bolsonaro nomeou o almirante Flávio Augusto Viana Rocha para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, à qual caberá as funções da Assessoria Especial da Presidência, entre elas o assessoramento para assuntos internacionais. A expectativa é que Martins seja, no mínimo, enfraquecido. 

Segundo pessoas que estiveram em reuniões no Planalto nos últimos dias, desde que as entradas de Rocha e do general Walter Braga Netto - que tomará posse na Casa Civil na próxima terça (18) - começaram a ser debatidas nos bastidores, já vem se esperando uma grande mudança nas equipes no Planalto. 

Um interlocutor palaciano destacou que Braga Netto deve levar consigo “uma turma, inclusive de inteligência” e se espera o mesmo do almirante Rocha, que hoje comanda o 1º Distrito Naval (abriga Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais).

Ao transferir para a SAE as funções que hoje cabem à Assessoria Especial, o presidente coloca o almirante como chefe de Filipe Martins. 

Nos bastidores do Planalto, o que se avalia é que a tensão se estabeleceu há algumas semanas, desde as primeiras matérias da Folha de S.Paulo mostrando que o chefe da Secretaria de Comunicação, Fábio Wajngarten, tem, como sócio majoritário da FW Comunicação e Marketing, clientes que recebem verbas do governo 

A crise que poderia atingir o presidente colocou o Planalto em alerta. As mudanças no Planalto começaram a ser traçadas, então, para “blindar” Bolsonaro. O entendimento passou a ser de que a retórica “recheada de ideologia” adotada também por assessores o estava prejudicando e que ele próprio, “para seu eleitorado”, poderia fazer isso, mas não seu entorno.

O pupilo olavista

Martins chegou ao Planalto por sua amizade com Eduardo Bolsonaro, a partir do contato de ambos comOlavo de Carvalho. A partir daí, usou suas relações nas redes sociais, contatos com blogueiros, youtubers e direitistas para ajudar na campanha. Ganhou o apreço do clã, inclusive de Carlos, com quem compartilha estratégias que vinham sendo usadas pela comunicação. 

É atribuída a ele a coordenação do que se convencionou chamar “milícia virtual”, investigada na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) das Fake News, instaurada no Congresso. 

Com a eleição de Bolsonaro, ele estava em ascensão. Foi Martins, por exemplo, que levou Eduardo para conhecer Steve Bannon, nos Estados Unidos, em novembro de 2018, logo após a eleição. Em um dia, jantaram na casa do agora assessor de Bannon. No dia seguinte, o ex-estrategista de Trump os levou a Nova York para um almoço com empresários. 

Tamanha a capilaridade e influência de Martins que o diplomata Ernesto Araújo não assumiu o Ministério das Relações Exteriores sem o seu aval. Martins escreveu discursos internacionais de Bolsonaro, como o primeiro dele fora do País, em Davos em janeiro do ano passado, de somente seis minutos, ou na ONU (Organização das Nações Unidas) em setembro, quando imprimiu sua marca na retórica nacionalista.

Não há certezas sobre o futuro do olavista. Há quem diga que, apesar de ter se aproximado muito do clã Bolsonaro, não haverá disposição de defendê-lo em seu cargo, caso haja de fato disposição do almirante Flávio Rocha em demiti-lo.

Martins se desentendeu recentemente com Eduardo Bolsonaro sobre como deveria ser tratada publicamente a abertura de um escritório da Apex em Jerusalém. O 02 anunciou que este é um primeiro passo do governo na direção de transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para a cidade. Os militares são contra a mudança. Para Martins, a informação deveria ter sido segurada mais um pouco, para evitar desgaste. Eduardo fez o anúncio nas redes sociais quando esteve na inauguração do escritório.