POLÍTICA
18/05/2019 01:00 -03

Combate à 'velha política' está no centro do racha entre lideranças do PSL

Deputados novatos preferem perder votação da reforma ministerial por discurso de combate à corrupção.

Montagem/Câmara dos Deputados
Nas redes sociais, Vitor Hugo faz parte dos que criticam a "velha política". Por outro lado, Joice chama o rival de inflexível em relação às demandas do Centrão.

O racha cada vez mais evidente entre lideranças do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, no Congresso tem como pano de fundo um incômodo de parte da bancada com o que chamam de “velha política”.

Nos últimos dias, a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-PR), não poupou críticas ao líder do governo na Câmara, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), que, segundo ela, teria tratado de maneira “hostil e grosseira” parlamentares do Centrão necessários para a aprovação da reforma da Previdência. 

Joice colocou na conta do Major a derrota que levou à convocação, pelos deputados, do ministro da Educação, Abraham Weintraub, para sabatina no plenário da Câmara nesta semana.

Dentro do partido, novatos defendem a postura do militar, resistente a acordos com outras siglas. Do lado de fora do PSL, deputados do Centrão veem na divisão interna uma falha na articulação política. Parlamentares apontam como contraditório que líderes do governo sejam inimigos e “não se entendam entre eles mesmos”.

Para aliados de Vitor Hugo, Joice tem cedido a pressões do Centrão, em um alinhamento com o ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) - o que, em algumas situações, vai de encontro a pautas caras ao grupo, como o combate à corrupção. Essa ala é atenta às demandas dos eleitores, que vem também das redes sociais.

O episódio mais recente foi a divergência sobre a Medida Provisória 870, da reforma administrativa. Se o texto não for votado até 3 de junho, serão recriados os 29 ministérios do governo Michel Temer. A volta ao antigo desenho obrigaria o governo a uma reestruturação que atrapalharia o funcionamento da máquina pública, já em ritmo lento com a nova administração.

O grupo do Major defende o texto original da MP enviado pelo Planalto, com o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no Ministério da Justiça, sob tutela de Sergio Moro. Na versão aprovada na comissão especial, com apoio do Centrão, o órgão que subsidia investigações volta ao Ministério da Economia.

Para evitar a desorganização na administração pública com o vencimento da MP, Onyx fez um acordo com líderes do Centrão e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para votar o novo texto.

Em estratégia oposta, Vitor Hugo defendeu obstruir a votação porque via nas mudanças do texto uma derrota do governo. Essa mesma visão foi reforçada por Bolsonaro, em reunião com deputados. Esse também foi o entendimento da bancada do PSL, que fechou questão a favor do texto original em 9 de maio.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Bancada do PSL toda votou contra a convocação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, mas foi vencida.

Velha política

O apoio ao Major não se restringe aos militares. ”Tem muita gente que não tem nada a ver com militar e está com o Major Vitor por uma questão do que é correto. Não dá para defender acordo que a gente não sabe nem para o que serve”, afirmou ao HuffPost a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), conhecida por organizar protestos contra corrupção antes de ser eleita.

Ela acredita que o Centrão pode ser pressionado a mudar a postura e destravar os trabalhos no Legislativo a depender de manifestações marcadas para 26 de maio, contra a “velha política” e a favor da Operação Lava Jato.

A pauta inclui também a defesa do impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e Gilmar Mendes e a favor do pacote anticrime apresentado pelo ministro Sergio Moro. O texto está parado na Câmara.

Ainda que a MP da reforma administrativa vença, para Zambelli, não é correto negociar ajustes com o Centrão. “Existe muito essa política do acordo para aprovar propostas. Eu não sou política de carreira. Entendo que meu voto é particular e vou votar para o que eu achar melhor e não porque alguém me pediu”, afirma.

Para conseguir aprovar propostas, é comum que líderes do governo conversem com líderes de partidos da base para chegar a um consenso, o que pode incluir alterações no texto original. A prática, contudo, é rechaçada por uma ala do PSL.

Nas redes sociais, Vitor Hugo faz parte dos que criticam a “velha política”. Joice chama o rival de inflexível em relação às demandas do Centrão.

A pressão pela saída do militar é reforçada por partidos de centro e de direita, que consideram o parlamentar no primeiro mandato inexperiente e inábil politicamente. Líderes não veem melhora no desempenho do deputado na articulação política desde que foi escolhido, no início do ano.

Nos bastidores, Joice, que chegou à liderança do governo no Congresso sob apoio de Rodrigo Maia, tem sondado integrantes de outros partidos para substituir o militar. A decisão, contudo, cabe ao presidente Bolsonaro, que até o momento sustenta a continuidade do Major.