POLÍTICA
27/05/2019 17:57 -03

Manifestações incomodaram Centrão, mas não devem prejudicar reforma da Previdência

Parlamentares falam em "maturidade" para enfrentar pressão das ruas; Apoio de Bolsonaro aos manifestantes, contudo, desagradou deputados.

EVARISTO SA via Getty Images
Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e Congresso foram alvo de manifestações a favor do governo Bolsonaro.

Entre os principais alvos das manifestações do domingo (26), deputados do Centrão manifestaram incômodo com as críticas, endossadas pelo presidente Jair Bolsonaro, mas disseram que o movimento não deve prejudicar a aprovação da reforma da Previdência

O grupo, de cerca de 200 parlamentares, é peça-chave para o avanço da reforma, que é tida como fundamental para determinar o sucesso ou não do governo Bolsonaro. 

Para o líder do PSD na Câmara, deputado André de Paula (PSD-PE), devido ao tom majoritariamente pacífico, as manifestações não devem prejudicar os trabalhos no Congresso. “Não há provocação que impeça a Câmara de cumprir como seu papel”, disse ao HuffPost Brasil.

O representante do PSD também comentou as críticas dos manifestantes ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia(DEM-RJ). “Rodrigo é um líder maduro, experiente e de elevado espírito público. É inimaginável pensar em prejudicar o País por conta de uma minoria sem expressão”, disse à reportagem.

Correligionário de Maia, o deputado Efraim Filho (DEM-PB), também afirmou que o “Congresso é maduro o suficiente para saber conviver com pressão externa das ruas, da sociedade”. “Convivemos com isso lá dentro. É uma casa que está preparada para desafios e terá serenidade como resposta.”

No Rio de Janeiro, estado do presidente da Câmara, manifestantes fizeram um boneco inflável do democrata simbolizando o grupo de partidos de centro-direita, que incluem DEM, PR, PP, Solidariedade, PRB, PSD e PTB. 

Além da crítica a políticos tradicionais, os atos tinham como bandeira a reforma da previdência. Paradoxalmente, Maia tem sido um dos principais defensores da proposta de emenda à Constituição (PEC) que muda as regras de aposentadoria. No último mês, o parlamentar chegou a participar de eventos no exterior com objetivo de aumentar a confiança de empresários na aprovação da reforma.

Também representante do Centrão, o presidente da comissão especial da PEC 6/2019, Marcelo Ramos (PR-AM), no entanto, criticou o tom dos protestos, incluindo a fala de Bolsonaro.

“Não sou movido por pressões de extremistas. Esse tipo de manifestação não influenciará o nosso trabalho. Meu compromisso com a reforma não é por causa das pessoas que estavam protestando nas ruas, e sim, com o Brasil todo”, disse à Rádio Jornal nesta segunda-feira (27).

No domingo, o presidente tuitou em apoio aos atos e negou ter incentivado bandeiras como o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Ele se referia à declaração na última quinta-feira (23), de que “quem defende o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional está na manifestação errada”. A frase foi dita em café da manhã com jornalistas dias após o presidente compartilhar, pelo Whatsapp, um texto que falava que o Brasil é “ingovernável” fora de conchavos.

Nesta segunda, Bolsonaro chamou de “extremamente significativo e histórico” os protestos de domingo. De acordo com levantamento do G1, foram registrados atos em 156 municípios. As manifestações contrárias ao corte de gastos na educação em 15 de maio, por outro lado, ocuparam 222 cidades.

Líder do DEM, Elmar Nascimento (DEM-BA), também criticou a postura do presidente. Ele lembrou que o Congresso é quem pode aprovar a reforma da Previdência.

“Ninguém governa sozinho”, disse, em nota enviada à imprensa. “O radicalismo e a beligerância nunca levaram a lugar algum e, neste momento, é preciso unir esforços para atingir a um objetivo comum, real e urgente, diz o texto.

O teste para o governo Bolsonaro para medir a temperatura da relação com os parlamentares será a votação, nesta semana, de medidas provisórias (MPs), incluindo a reforma administrativa. Há 6 MPs na pauta da Câmara que vencem até 3 de junho.

No Senado, possíveis mudanças na medida provisória que reestrutura a Esplanada dos Ministérios obrigariam o texto a voltar à Câmara, o que aumentaria o risco de o texto caducar. Se isso ocorrer, o governo terá de recriar ministérios e voltar à configuração de 29 pastas, em vez de 22.

Sem uma orientação clara do governo, parte da base quer alterar a proposta para que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) fique subordinado ao Ministério da Justiça, de Sergio Moro.

Líder do PSL na Casa, o senador Major Olímpio (PSL-SP) mobiliza a aprovação de um destaque nesse sentido. ”A população, de forma unânime, está pedido que se faça essa reparação”, disse a jornalistas, nesta segunda.

A subordinação do órgão que auxilia investigações ao ex-juiz da Operação Lava Jato é vista como uma bandeira de combate à corrupção que responde ao clima das ruas no domingo.

Sobre o risco de o texto caducar, Olímpio disse que, “se a Câmara não quiser, a Câmara responde para a sociedade, na medida da sua responsabilidade”. Ele também afirmou que conversaria com o presidente Bolsonaro nesta terça, em busca de apoio.

Para garantir a aprovação da reforma administrativa, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, construiu um acordo com Maia e com o Centrão para aprovar, na última quinta (23), a MP com o Coaf no Ministério da Economia, de Paulo Guedes.

A articulação, com apoio da líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP) dividiu o PSL. A ala mais ideológica da bancada, que apoia o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), considerou a movimentação uma subordinação às práticas da velha política.