NOTÍCIAS
17/11/2019 14:31 -03 | Atualizado 17/11/2019 14:33 -03

Com estradas bloqueadas, população na Bolívia começa a enfrentar crise de comida

Segundo OEA, ao menos 23 já morreram desde o início das manifestações, que atingem níveis cada vez maiores de violência.

STR via Getty Images
Polícia e soldados de choque da Bolívia encontram apoiadores do ex-presidente da Bolívia Evo Morales que protestavam contra o governo interino em Cochabamba, no dia 15 de novembro de 2019.

Além das manifestações nas ruas, que crescem em escala de violência, começa a faltar comida em algumas cidades da Bolívia. É o caso da sede do governo, La Paz, que enfrenta escassez de frango, ovos e combustível por conta do bloqueio nas estradas feito por apoiadores do ex-presidente Evo Morales, que isolam centros populacionais de fazendas. 

Há longas filas nas ruas de La Paz neste domingo (17) em busca de alimentos e também de combutíveis. Os postos estão sem nada. Autoridades disseram que um avião militar Hercules aterrissou na capital La Paz, no sábado (16), cheio de produtos de carne, contornando as barricadas nas estradas nas saídas da cidade.

O ministro da Presidência, Jerjes Justiniano, disse a repórteres que o governo estabeleceu uma “ponte aérea” para La Paz. Disse que autoridades esperam fazer o mesmo com outras grandes cidades bolivianas que foram isoladas de suprimentos.

David Mercado / Reuters
Pessoas esperam na fila para buscar gás em La Paz.  

A nação andina entrou em crise após as eleições de 20 de outubro. O então presidente Morales, que venceu o pleito, renunciou no domingo da semana passada, dia 10, depois que a auditoria da OEA (Organização dos Estados Americanos) revelou evidências de fraude eleitoral, e se asilou no México.

Apoiadores de Morales foram às ruas pouco depois, alguns armados com bazucas caseiras, pistolas e granadas, bloqueando ruas e entrando em conflito com forças de segurança.

Enquanto a violência piorava, muitos nas regiões mais pobres de La Paz passaram a cozinhar com lenha, e formaram longas filas por gás liquefeito, latas e pouca comida.

“Espero que as coisas se acalmem”, disse Josué Pillco, funcionário da construção civil em um bairro operário de La Paz. “Não temos comida ou combustível”.

Violência 

A situação do país tem deixado em alerta autoridades internacionais. Pelo menos oito pessoas morreram neste sábado após a polícia e as Forças Armadas tentarem conter um protesto de simpatizantes de Evo Morales em Cochabamba. 

No fim do dia, a alta comissária da ONU (Organização das Nações Unidas) para os Direitos Humanos disse haver preocupação para que a situação saia de controle e destacou o uso “desproporcional” da força

Luisa Gonzalez / Reuters
Apoiadores do ex-presidente Evo Morales sentam-se no chão durante confrontos com as forças de segurança, em La Paz.

“Estou preocupada que a situação na Bolívia possa sair de controle se as autoridades não lidarem com isso... com total respeito pelos direitos humanos”, disse Bachelet em comunicado. “Ações repressivas das autoridades... provavelmente colocarão em risco qualquer via possível para o diálogo”, acrescentou.

Ao menos 23 pessoas já morreram desde o fim de outubro, quando as ruas do país foram tomadas por manifestações cada vez mais revoltosas. De acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA, há mais de 120 feridos desde sexta (15). 

No sábado, o governo de transição da Bolívia garantiu que o decreto que isenta polícias e militares da responsabilidade criminal, quando agem em situações de necessidade e sob legítima defesa, não é uma “licença para matar” e está enquadrado na Constituição e nas leis do país.

Em entrevista no Palácio do Governo de La Paz, o ministro interino da Presidência, Xerxes Justiniano, disse que a medida “não contribui para nenhum estado de maior violência”, mas é um instrumento para “contribuir para a paz social”.

A resposta governamental surge na sequência de uma acusação feita pela CIDH, de que essa regra assinada pela presidente interina, Jeanine Áñez, “ignora os padrões internacionais” de direitos humanos e “estimula a repressão violenta”.

O ex-presidente boliviano Evo Morales afirmou, em entrevista divulgada sexta-feira pela agência de notícias Associated Press, que quer a ONU mediando a crise política no país e admitiu pedir a intervenção da Igreja Católica e do papa Francisco.

(Com informações da Reuters e da Agência Brasil)