MULHERES
02/12/2019 17:10 -03

Protesto 'um estuprador em seu caminho' é reproduzido da América Latina à Europa

Música do grupo chileno Lastesis, "Un violador en tu camino", viralizou nas redes sociais e foi reproduzida por dezenas de mulheres.

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Comunidade de mulheres chilenas que vivem em Amsterdã, na Holanda, participaram de ato inspirado na performance "Un violador en tu camino".

“E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem de como me vestia. O estuprador era você”, diz a canção de protesto Un violador en tu camino (Um estuprador no seu caminho, em tradução livre), do coletivo feminista Lastesis, de Valparaíso, no Chile. Criado para marcar o dia 25 de novembro, que marca o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as mulheres, o ato viralizou e foi replicado por grupos feministas da América Latina e também da Europa.

Centenas de mulheres foram às ruas em cidades como Paris, Londres, Barcelona, Nova York, Cidade do México, Istambul, Madri, Berlim e Bogotá. Ativistas feministas se organizaram em grupo e ocuparam locais públicos com vendas nos olhos para reproduzir de forma fiel a coreografia das chilenas.

Abaixo, manifestação das mulheres em Madri, na Espanha:

 

Em Paris, na França:

 

Em Bristol, no Reino Unido:

 

Em Barcelona, na Espanha:

“O patriarcado é um juiz que nos castiga por nascer. E nosso castigo é a violência que você não vê”, diz trecho da música. Ao usar a venda sobre os olhos, o coletivo Lastesis quis chamar atenção para a cegueira da sociedade e da Justiça diante de casos de violência contra a mulher, mas também lembrar os manifestantes chilenos que foram atingidos nos olhos por balas de borracha.

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The performance of Chilean feminists -created by the Buenos Aires collective # Manifestante durante performande "O estuprador é você", em Bogotá, Colômbia, em 30 de novembro.

Na semana passada, o coletivo Lastesis fez um chamado na sua conta do Instagram para que as mulheres replicassem a performance em outros lugares do mundo da forma que desejassem, com sua própria versão. E foi atendido. 

“Lastesis convoca grupos de mulheres e dissidentes para realizar intervenções (...) subtraindo e/ou incorporando idealmente elementos novos em sua própria versão”, escreveu o coletivo de Valparaíso.

Dafne Valdés Vargas, Sibila Sotomayor Van Rysseghem, Paula Cometa Stange e Lea Cáceres Díaz são as quatro mulheres que integram o coletivo chileno. 

Em entrevista ao site Interferencia, as ativistas afirmam que tem como objetivo levar ideias feministas em “um formato cênico de uma forma simples e pegajosa para que a mensagem chegue a mais pessoas”.

A música de protesto, que aponta o dedo para o Estado e outras instituições busca, de acordo com elas, “desmistificar a violência como um problema pessoal”. Elas também lembram que, no Chile, apenas 8% dos casos de estupro resultam em algum tipo de condenação.

E a culpa não era minha, nem de onde eu estava, nem de como eu me vestia. O estuprador é você.Trecho de "Un violador em tu caminho", do coletivo feminista Lastesis

Tudo começou quando dezenas de mulheres realizaram a performance pelas ruas de Santiago, no Chile, no dia 25 de novembro, considerado o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Instituída pela ONU há dez anos, a data de 25 de novembro lembra um crime ocorrido em 1960, quando as irmãs Minerva, Patria e Maria Teresa Mirabal, conhecidas como “Las Mariposas” e ativistas contra a ditadura, foram mortas a mando do regime do presidente da República Dominicana, Rafael Trujillo.

Para marcar a data ― em um contexto de protestos no Chile ― as feministas do Lastesis realizaram a performance em seis pontos da capital chilena, entre a Plaza de Armas, Casa da Moeda e Ministério da Mulher. 

Um dos vídeos da performance que circula nas redes sociais chegou a ser assistido por cerca de 2,3 milhões de pessoas. Assista abaixo:

 

Os protestos na capital chilena pelo Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres ocorreram em um ambiente de manifestações contra o presidente Sebastián Piñera. Protestos em massa já duram mais de um mês e cerca de três mil pessoas ficaram feridas e 23 mortos contabilizados.

″É o feminicídio. Impunidade para o assassino. Desaparição. Estupro”, diz a canção de protesto do Lastesis. Em 2019, 41 feminicídios foram registrados no Chile, seis a mais do que no mesmo período em 2018, segundo dados do Ministério da Mulher e Igualdade de Gênero do país sul-americano.

No final de outubro, grupos feministas do país se organizaram para denunciar estupros e violências sexuais, que meninas que iam a protestos vinham sofrendo por policiais e militares. Para investigar os casos, uma missão do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos (Acnudh) foi enviada ao país. 

Segundo dados do Observatório da Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe (OIG) da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), pelo menos 3.529 mulheres foram mortas em 2018 por razões de gênero em 25 países da América América Latina e Caribe.

Dados do Anuário de Segurança Pública apontam que, em 2018, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio, uma alta de 4% em relação ao ano anterior. De cada dez mulheres mortas, seis eram negras.

A faixa etária das vítimas é mais diluída: 28,2% têm entre 20 e 29 anos, 29,8% entre 30 e 39 anos. E 18,5% entre 40 e 49 anos. Nove em cada dez assassinos de mulheres são companheiros ou ex-companheiros.