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08/04/2020 21:03 -03 | Atualizado 08/04/2020 21:27 -03

Em pronunciamento, Bolsonaro defende uso da cloroquina e locomoção dos mais humildes

O presidente afirmou que medidas restritivas são de responsabilidade de prefeitos e governadores e voltou a dizer que o desemprego também leva à morte.

O presidente Jair Bolsonaro defendeu na noite desta quarta-feira (8) o uso da cloroquina para pacientes com covid-19, independentemente da gravidade do quadro clínico. Em pronunciamento em cadeia nacional, ele elogiou o médico Roberto Kalil pela prescrição do medicamento e disse que “essa é uma decisão que poderá entrar para a história”.

Bolsonaro disse que passou a divulgar a possibilidade de tratamento da doença com o medicamento desde sua fase inicial após ouvir médicos e cientistas. Segundo ele, o médico Roberto Kalil lhe disse que ministrou a cloroquina para todos os seus pacientes e que todos estão salvos.

“Disse-me mais, que mesmo não tendo finalizado o protocolo de testes, ministrou o medicamento agora para não se arrepender no futuro. Essa decisão poderá entrar para a história como tendo salvo milhares de vida no País”, afirmou.

Ainda sobre a cloroquina, Bolsonaro disse que, graças a uma conversa que ele teve com o primeiro-ministro da Índia, foi fechado um contrato para compra da matéria prima do medicamento.

Medidas restritivas

No pronunciamento, o mandatário voltou a responsabilizar prefeitos e governadores pelo comércio fechado e pelas medidas de isolamento. Segundo ele, o governo federal não foi consultado pela amplitude e duração das medidas restritivas ou não.

Ele usou uma fala do diretor-geral da OMS (Organização Mundial de Saúde), Tedros Adhanom, para dizer que cada país tem suas particularidades e suas soluções. “Os mais humildes não podem deixar de se locomover para buscar o pão de cada dia e as consequências da doença não podem ser mais danosas que a própria causa”, disse.

Os mais humildes não podem deixar de se locomover para buscar o pão de cada dia e as consequências da doença não podem ser mais danosas que a própria causa.Jair Bolsonaro

Bolsonaro voltou a dizer que o desemprego também leva à morte. Mas pontuou que é preciso que se sigam as orientações do Ministério da Saúde. A pasta, porém, prega pelo isolamento social, como medida restritiva, e não é a favor do uso da cloroquina para todos os casos, apenas os graves.

O medicamento ataca o coração e pode levar à morte. Quando ministrado dentro do hospital, o médico tem a possibilidade de acompanhar de perto os efeitos colaterais.

Além de recados a prefeitos e governadores, Bolsonaro disse que todos os ministros devem estar sintonizados com ele — a referencia é ao estranhamento entre ele e o titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Logo no início do pronunciamento, Bolsonaro se solidarizou com as famílias que perderam entes queridos e classificou a pandemia do novo coronavírus como uma guerra. Ao fim, o presidente destacou as medidas de apoio à economia que o governo vem adotando, como o pagamento do auxílio emergencial.

A população reagiu ao pronunciamento com panelaços em cidades como Brasília e São Paulo. 

Cloroquina e casos graves

Um dos motivos pelos quais o medicamento é indicado apenas aos casos graves são seus efeitos colaterais. Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE), do Ministério da Saúde, Denizar Vianna de Araújo, quando o uso da cloroquina é feito em ambiente hospitalar “a proteção é maior”, por isso o ministério tomou a decisão de gerar uma política específica para os pacientes graves e críticos da covid-19.

“Se o paciente tem indicação de hospitalização, um quadro de falta de ar, indícios de uma pneumonia bilateral e tem critérios de hospitalização, ele já é elegível para usar o medicamento”, explicou.

O secretário reforça que o medicamento mostrou em estudos preliminares que pode ser favorável nesse tipo de paciente. “Quando pesamos a relação entre risco e benefício, os benefícios superam os riscos porque estamos lidando com paciente e com um potencial de letalidade muito alto. Podemos correr o risco de ter um evento adverso que está sendo monitorado num ambiente hospitalar para tentar favorecer o tratamento”, disse.

Sobre casos leves, que são cerca de 80%, ele afirmou que ainda não são robustas as evidências para tomar uma a decisão de política de saúde. “Vamos recomendar no momento em que tivermos evidências, que estão sendo geradas inclusive em estudos brasileiros”, afirmou Denizar Vianna.