Projeto promove chamadas em vídeo entre pacientes com covid-19 e seus familiares

'Conexões do Cuidar' busca levar conforto neste momento difícil.

Um projeto tem tentado levar um pouco de conforto, carinho e comunicação em meio à angústia e ao medo envolvendo o novo coronavírus. É o Conexões do Cuidar, criado pela ONG ImageMagica, para conectar pacientes internados com covid-19 aos seus familiares.

Como você já deve ter visto, para evitar a propagação do vírus os pacientes internados com a doença ficam isolados em hospitais de campanha ou alas de hospitais dedicadas ao coronavírus, sem contato com os familiares. O que é necessário para o tratamento é uma angústia muito grande para os parentes que não têm notícias.

Para viabilizar essa comunicação, os voluntários do Conexões do Cuidar promovem, com toda a segurança necessária, videochamadas entre os pacientes e seus familiares. Tudo funciona com autorização dos hospitais que participam da ação, horário marcado e com equipamentos de proteção e celulares usados apenas com esse objetivo. As imagens do projeto são emocionantes e captam os momentos de alegria.

Para conhecer um pouco mais deste trabalho nós conversamos com o fotógrafo André Françóis, fundador da ONG ImageMagica, que nos conta as motivações para a criação, a possibilidade de continuar com a proposta e histórias marcantes nestes meses de trabalho.

HuffPost Brasil: O que os motivou a criar o projeto Conexões do Cuidar?

André Françóis: Eu realizo trabalhos documentais sobre saúde no Brasil e no mundo há 14 anos. E minha motivação, mesmo antes da pandemia, diz respeito a fotografar sobre a humanização do cuidar, de mostrar o quão é importante a conexão entre as pessoas em momentos difíceis. Vendo o atual cenário e o trabalho incrível das equipes de saúde no front para combater o coronavírus, não tinha como não me envolver e documentar esse ato heroico e histórico na saúde. O projeto Conexões do Cuidar foi criado rapidamente pela ONG e tem se mantido com doações de pessoas físicas e também de algumas empresas.

Como, infelizmente, o coronavírus deve permanecer em nossas vidas por bastante tempo, existe uma previsão de até quando o projeto vai acontecer ou há um limite para a atuação de vocês?

Eu gosto de dizer que a situação que enfrentamos com o coronavírus já ensinou e está ensinando muita coisa. Quando começamos o projeto Conexões do Cuidar, eu percebi que essa falta de conexão e o isolamento dos pacientes nos hospitais já existiam antes da pandemia. As pessoas têm celulares, mas nem todas sabem usar uma câmera e se conectar. Os idosos, muito menos. Mesmo depois do coronavírus, acredito que esse projeto vai continuar em muitos hospitais, porque o isolamento existe independentemente do corona, a pandemia só escancarou isso. Então essa situação mostrou o quanto a conexão é importante na cura, no tratamento, porque essa conexão tira o paciente da depressão, da angústia e o motiva para melhorar e voltar para sua família. Acredito que o formato no futuro poderá ser mais simplificado, já que o contágio do coronavírus traz uma dificuldade na aplicação do projeto – temos que estar sempre paramentados, existe um medo que a gente tem de se contaminar... Então essa seria a maior diferença.

Como tem sido a receptividade dos profissionais de saúde, pacientes e familiares para o projeto? Vocês sentem uma melhora?

A receptividade de todos é incrível. Os pacientes ficam extremamente agradecidos, porque isso é uma mudança no tratamento deles. Afinal, imagina a situação de estar com uma doença que você pode morrer e você está sozinho, isolado no hospital, sem ter a chance de ver ninguém que você ama. Isso vai gerando uma angústia no paciente. Quando o paciente tem a chance de ver em vídeo a família é transformador, inclusive, em sua própria recuperação: os médicos têm relatado que muitos pacientes, que tinham uma estimativa de ficar mais uma ou duas semanas em tratamento, após a conexão ficaram apenas dois ou três dias a mais e conseguem alta. Então a gratidão que a gente sente da família, do paciente e da própria equipe de saúde, que também é beneficiada pela ação, é muito grande.

“Esse projeto mostrou o quanto a conexão é importante na cura, no tratamento, porque tira o paciente da depressão, da angústia e o motiva para melhorar e voltar para sua família.”

Acredito que todas as histórias dos pacientes são muito marcantes, mas existe uma ou mais que te marcaram mais nesse tempo?

Uma história que me marcou muito foi a de José Beraldo. Quando o vi pela primeira vez no HC de Ribeirão Preto (Unidade de Emergência), ele estava na UTI entubado e em coma induzido. Eu estava lá fotografando, fazendo meu trabalho documental. Alguns dias depois voltei lá e soube que José tinha acordado e estava já no quarto, ainda em isolamento, e pude conhecê-lo. O médico havia me dito que a recuperação dele ainda seria longa, e que já estava há um mês hospitalizado. E aí foi feita a videochamada e ele teve chance de falar com a família, foi uma emoção só. Um dia depois dessa conexão ele recebeu alta. E essa foi uma história linda, porque ele tinha perspectiva de ficar mais tempo no hospital. Mas claro que também marcam as histórias difíceis: lembro a de uma enfermeira que se contaminou e teve que ser entubada. Ela sabe que, quando chega nessa situação, as chances são mínimas. Nesse momento ela queria muito poder ligar para sua família e se despedir se o pior acontecesse... Então, no fim, todas as histórias são muito intensas.

É possível participar do projeto como voluntário? Como funciona o processo de escolha dos profissionais que atuam nos hospitais?

Quando começamos o projeto, achamos que seria possível, até pela demanda que é crescente, mas não é tão simples. Quando entramos em um hospital que trata covid, o medo é muito forte. Então temos poucas pessoas para fazer esse trabalho. Outra questão é que nos responsabilizamos pela saúde dos nossos educadores: marcamos consulta médica, eles não pode estar no grupo de risco nem conviver com quem seja, por exemplo. Além disso, em alguns casos disponibilizamos um local para ficarem em isolamento durante as atividades. Também tem a questão que envolve a sensibilidade em lidar com situações delicadas que o paciente e o familiar vivem naquele momento. Então atualmente estamos contratando as pessoas que tenham algum histórico e habilidades que ajudariam nesse trabalho, em cada atendimento.

Quais são os temas mais comuns das conversas entre os pacientes e seus familiares?

O tipo de conexão que a gente faz é amorosa: normalmente o familiar quer dar força para o paciente, dizendo que está com saudades, que o ama. São mensagens poderosas que elevam a autoestima do paciente. Falam muito sobre coisas do cotidiano, mostram o pet, a horta crescendo... São assuntos que resgatam no paciente o sentimento de vida, que vale a pena viver, para ele continuar batalhando e sair dessa.

Vocês conseguem identificar quais são os sonhos e desejos dos pacientes têm vontade de realizar depois que saírem do hospital?

A covid é muito cruel e intenso. Ele te coloca frente a frente com a possibilidade de morte. Então o paciente quer muito sair do hospital, ser curado e isso é o mais urgente. Não necessariamente falam sobre sonhos, mas é nítido que seus maiores desejos envolvem rever a família. No fim, a doença da covid escancara a importância das coisas simples da vida, de ter as pessoas próximas, quem a gente ama. Acredito que as pessoas que se recuperam da covid e voltam para casa valorizam cada momento de uma maneira completamente diferente. Estar perto da morte nos coloca mais vivos.