Projeto Inumeráveis já celebrou as vidas de mais de 100 Marias e Josés perdidas para a covid

"Tem um grupo da sociedade que está usando o memorial como um processo de elaborar o luto", conta Edson Pavoni, criador do projeto.

Quando o projeto Inumeráveis começou a contar histórias das vítimas da covid-19 no Brasil, eram mais ou menos 100 mortos por dia. Eram 100 vidas de pessoas com nome, sobrenome, uma biografia, familiares, planos futuros e histórias incríveis do passado perdidas para um vírus. Agora, há mais de um mês, já são mais de mil mortes a cada 24 horas.

Edson Pavoni, artista que trabalha com conexões, conta ao HuffPost que criou o projeto porque “já naquela época, esses números tinham pouco significado”. “Só dava pra interpretar de um jeito muito ruim, muito frio. Não imaginávamos que iria chegar a 10 mil mortos, seria um absurdo. A gente chegou muito rápido nesse número e tem 10 vezes mais.”

Desde então, o projeto já contou algumas dessas milhares de histórias. Só de Marias, são mais de 100 delas. Se falarmos em Josés, o projeto também já contou a história de mais de 100.

Como a história da Maria da Glória Silva Souza, de 35 anos, artesã que contagiava o ambiente ao seu redor com alegria; a Maria de Fátima Brasil, de 57 anos, que amava a família, cozinhar e fazia um vatapá que já deixou saudade; ou da paraibana Maria das Neves Santos, de 90 anos, que amava seus 12 filhos e os mais de 60 netos e bisnetos.

Uma das histórias que mais marcou Edson Pavoni, o criador do projeto, foi da Eunice Farah . Ela era mineira, muito alegre, já tinha vencido a batalha contra um câncer de laringe sem lamentar. Ela ouvia todo tipo de música, era muito eclética. E também era ecumênica, frequentava o centro espírita durante a semana e a igreja evangélica aos domingos. Era apaixonada pelo Carnaval, em 2020 pulou com seus filhos e netos, aos 77 anos.

Quem contou um pouco da história dela foi o Seu Antônio, seu genro. Foi a primeira entrevista feita, antes mesmo de o site ser lançado. “Eu queria entender se fazer esse trabalho iria ser uma coisa boa para as pessoas. Eu não tinha essa certeza completa e foi muito especial pra mim”, conta.

Mas bastou a história terminar para entender que o memorial precisava ser feito. “Durante a entrevista, o Antônio começou triste. Ele foi falando da Eunice, de como ela gostava de Carnaval, era uma pessoa alegre, como ela pulou o último Carnaval com os filhos e os netos no Clube Ipiranga. Conforme foi me contando, eu percebi que nele foi crescendo um sentimento muito forte de celebração”, lembra.

“Quando a gente terminou a entrevista, ele estava muito melhor do que quando começou. Eu percebi que ali tinha acontecido uma espécie de cura. Eu imaginei essa cura acontecendo em muitas conversas com o projeto. E entendi que era isso que a gente precisava fazer.”

Outra história que marcou Edson foi a de Manoel Chaves, conhecido como Belo. “Na Bahia, de onde ele veio, dizem que ele era o mais bonito da sua vila. Ele veio de lá sem nada na mão, foi vendedor, motorista de ônibus e depois conseguiu comprar uma banca de jornal. Essa história eu escrevi logo no começo e ainda me emociona bastante. Mais de 15 sobrinhos já tinham morado com ele quando ele parou de contar. Ele era um porto-seguro e uma vida a ser celebrada”, diz.

O Inumeráveis é um projeto colaborativo, sem fins lucrativos, que recebe histórias de jornalistas, estudantes de jornalismo e familiares que queiram mandar depoimentos com a história de seus parentes. Saiba como participar neste link.

“Tem um grupo da sociedade que está usando o memorial como um processo de elaborar o luto. Todo dia a gente recebe dezenas e às vezes centenas de mensagens”, ressalta Edson.

Em entrevista ao HuffPost em maio deste ano, a psicóloga e fundadora do instituto 4 Estações, Luciana Mazorra, especialista em atendimentos de perdas e luto, explicou que é importante ritualizar a morte de alguma forma para que o processo do luto aconteça e que pular etapas é um fator de risco que pode trazer prejuízos no futuro.

“São questões que a gente chama de fatores de risco para a elaboração do luto e como consequência dessa ausência: dificultar a aceitação da realidade da morte”. Nesse sentido, explica, fazer algum ritual, da melhor forma possível, é muito importante.