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19/04/2020 07:30 -03 | Atualizado 22/04/2020 11:22 -03

Profissionais de saúde enfrentam a pior batalha na guerra contra o coronavírus

Falta de equipamento, estresse e solidão tornam desafio muito maior para médicos e enfermeiros. 'Não é medo de cuidar, é medo de morrer', diz médico do Hospital São Paulo.

Na batalha contra o novo coronavírus, eles estão na linha de frente. Veem diariamente a luta de pacientes para sobreviver e, na maioria das vezes, são os únicos a dar um alento e garantir um fim digno para quem não resiste à agressividade do vírus isolado em uma UTI. Ao mesmo tempo que tratam e trazem humanidade, os profissionais de saúde se preocupam em não adoecer, em não contaminar seus pais e filhos, em não morrer.

“As equipes estão com medo, mas não é medo de cuidar, é medo de morrer”, resume o médico Aécio Góis, chefe da Urgência do Hospital São Paulo, que diz em 20 anos de medicina nunca ter visto nada parecido. “Conversei com professores mais velhos, falaram sobre a época da aids, mas nada se equivale a essa questão do coronavírus.”

Só na cidade de São Paulo, dados da Secretaria Municipal de Saúde indicavam que, até o dia 16, 3.865 profissionais de saúde tinham sido afastados. Eles representam 4,8% do total, sendo 532 com teste positivo para covid-19 e 3.333 com síndrome respiratória aguda. Pelo menos 11 profissionais tinham morrido em decorrência da doença.

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"A gente fica pensando que a doença não tem tratamento, não tem medicação", diz  Aécio Góis, chefe da Urgência do Hospital São Paulo. Na imagem, médica cuida de paciente na UTI do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre.

Um deles era amigo próximo de Góis. Paulo Fernando Moreira Palazzo, 56 anos, era médico hematologista do Samu e do Hospital São Paulo. “Isso toca e mobiliza a gente de uma forma indescritível”, desabafa.

No ‘front’ da batalha, pesa a quantidade enorme de notícias que chegam de profissionais de saúde vítimas da doença. O marco de 100 médicos mortos na Itália assustou, diz Góis. E isso intensifica o medo. “Medo de pegar uma forma grave, de adoecer, de ficar solitário...”

Segundo ele, todos sabem que a chance de se contaminar em um hospital é muito maior, “por mais que você use toda a proteção”. “Em todo caminhar dentro da unidade hospitalar, a chance de contaminação é enorme”, diz o chefe da Urgência do Hospital São Paulo. Por isso, a primeira coisa que mudou foi o cuidado com proteção. “As pessoas estão se cuidando como nunca. Desde que sumiu a ideia de que seria uma ‘gripezinha’, como H1N1, a busca é pela paramentação correta.”  

As equipes estão com medo, mas não é medo de cuidar, é medo de morrer.Aécio Góis, médico do Hospital São Paulo

Não há um levantamento oficial de quantos profissionais de saúde foram infectados com o novo coronavírus em todo o país. Cálculo feito pela Folha de S.Paulo estima que até o dia 16 o País tinha 8,2 mil profissionais afastados por apresentar sintomas ou fazer parte do grupo de risco. 

Para quem convive diariamente com a luta mais extrema contra o coronavírus, a necessidade de isolamento não é sequer questionada. “A gente fica pensando que a doença não tem tratamento, não tem medicação. Não adianta as pessoas ficarem falando que existe medicação, não tem. As pessoas precisam se isolar, grandes resultados vêm de quem está isolado”, diz.

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Médicos cuidam de paciente com covid-19 no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre

E os próprios médicos e enfermeiros estão se isolando - de suas famílias. Sem a alternativa de não sair de casa, muitos têm mudado de endereço para não colocar em risco principalmente os filhos pequenos ou pais idosos.

“Há muitos profissionais que estão ficando no hospital ou na casa de amigos para não ter contato com familiares. Em alguns casos, quando tem filho pequeno, eles têm deixado com os avós para não ter contato com a criança”, afirma Solange Caetano, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo.

Essa falta de contato com a família acaba piorando o estresse do profissional. “Ele não tem contato com a família, está sobrecarregado, o trabalho está exaustivo e ainda falta equipamento de proteção individual”, diz.

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“Há muitos profissionais que estão ficando no hospital ou na casa de amigos para não ter contato com familiares”, afirma Solange Caetano, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo.

Esse sentimento de exaustão ficou ilustrado em retratos de médicos italianos com os rostos marcados pelos equipamentos de proteção que circularam o mundo. Começou com uma selfie que o médico italiano Nicola Sgarbi fez no dia 13 de março após 12 horas de trabalho. Sua intenção era mostrar a foto para a filha de 1 ano quando ela crescer e ele for contar a ela sobre esse momento. Depois dele, outros profissionais divulgaram fotos semelhantes ao fim do expediente.

O médico italiano, assim como Góis e Solange, fazem coro pela permanência da população em casa em solidariedade também aos profissionais de saúde.

Médico e coordenador do Centro de Contingência do Combate ao Coronavírus em São Paulo, David Uip, que teve covid-19, também destaca a vulnerabilidade de quem está na linha de frente. 

“Este sentimento de você se ver, como médico, infectologista, com uma pneumonia, sabendo que muito provavelmente entre o sétimo e o décimo dia vai complicar, foi um sentimento muito angustiante”, disse, em depoimento em 6 de abril. “Quero dizer para vocês que não é fácil ficar isolado. É de extremo sofrimento, mas absolutamente fundamental. Eu tive que me reinventar, tive que criar um David novo. Seguramente mais humilde e sabendo os limites da vida.”

Segundo Uip, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas têm um estresse adicional. Há dificuldade em manter distância no ambiente hospitalar pela própria estrutura do local, como tamanho das salas e corredores. E é prioridade para esses profissionais ter segurança para poder passar segurança.

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Cristo Redentor "vestiu" um jaleco para homenagear profissionais de saúde na última semana.

O drama da falta de EPIs

Um profissional infectado é uma baixa na equipe de combate à doença. E no caso de quem está em ambiente hospitalar, a principal arma é o equipamento de proteção individual (EPI). Segundo Solange, já há queixas de falta de máscaras, por exemplo. “É como se o profissional estivesse pronto para agir, mas não tem o mínimo. Faltam medidas de amparo a quem está na linha de frente”, diz.

Góis ressalta a solidariedade de quem está tentando ajudar. “Mas há dificuldade, mesmo com doação, e para comprar máscara. Para aqueles procedimentos onde se vai entubar, esse tipo de máscara está muito difícil, avental com proteção maior também está muito difícil encontrar no mercado. Ninguém estava preparado para essa demanda.”

Em nota, o presidente do Conselho Federal de Medicina, Marcelo Ribeiro ressalta que contra a pandemia só ”máscaras, luvas, aventais, protetores de face e gorros”. “Assim como água, sabonete líquido e álcool gel ou 70% para higienização das mãos e das áreas de atendimento.”

Ciente da demanda por equipamento básico, o conselho criou um canal para receber informações sobre falta de EPI. “Ao acessar o portal médico, o médico poderá comunicar se há falta de insumos, de EPI, de equipes em sua unidade de trabalho. Essas informações nos ajudarão a cobrar providências e a melhorar o atendimento da população.”

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Profissionais de saúde vibram com a alta do veterano da Segunda Guerra Ermando Armelino Piveta, 99 anos, no Hospital das Forças Armadas, em Brasília.