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02/07/2020 05:00 -03

Profissionais de saúde do mundo inteiro estão morrendo para nos salvar da covid-19

Os contágios e as mortes de médicos e enfermeiros estão aumentando de forma dramática, mostrando histórias de coragem e completa falta de preparo dos sistemas de saúde.

Na província italiana de Brescia, um dos epicentros da epidemia do coronavírus na Europa, um médico aposentado chamado Gino Fasoli, 73, voltou a trabalhar.

No dia 6 de março, ele disse ao irmão que não se sentia bem: tinha dor de cabeça e febre. Quatro dias depois, ele piorou. “Mal consigo falar”, disse Fasoli. Ele foi internado, recebeu diagnóstico de covid-19. Os médicos não puderam salvá-lo.

“Às 8h do dia 14 me ligaram do hospital para dizer que ele tinha morrido”, afirmou o irmão.

Nos primeiros meses da doença, pelo menos 24 médicos italianos tinham morrido por causa do coronavírus. Segundo o instituto nacional de saúde do país, mais de 5 mil profissionais da área médica foram infectados, o dobro da China.

Na Espanha, o ministério da Saúde anunciou no fim de março que, dos 40.000 casos confirmados no país até então, 5.400 – quase 14% ― eram profissionais de saúde. Na França, na mesma época, cinco médicos haviam morrido por causa da doença.

Com o crescimento dos casos em todo o mundo, os profissionais de saúde que estão no front do combate à doença temem ser considerados “soldados descartáveis” nessa guerra, como disse o diretor de uma entidade de classe.

“Estou arriscando a minha vida e a da minha família”, disse a enfermeira britânica Joan Pons Laplana. “Vou trabalhar porque amo ajudar os outros. Mas quero que o governo me dê os equipamentos necessários – parece que estão mandando soldados para a guerra com pistolas de água. É inacreditável.”

Diego Puletto via Getty Images
Funcionário de um hospital de Turim, na Itália, responsável por testes para o coronavírus.

“O maior problema é de suprimentos. É uma das questões mais dramáticas da crise”, disse ao HuffPost Itália Francesco Rocca, presidente da Cruz Vermelha Italiana.

“Não só as máscaras, mas também os aventais, protetores faciais, tudo o que é essencial para a proteção. Por mais que você tome cuidado para se vestir e para esterilizar os equipamentos, a situação é sempre muito complicada.”

Rocca afirmou que pelo menos quatro voluntários da Cruz Vermelha estavam na UTI. Dezenas de outros estavam de quarentena. 

A situação que se viu na Europa no primeiro trimestre foi um alerta para o que os profissionais de saúde dos Estados Unidos, do Brasil e de outros países estão assistindo agora com o aumento do número de casos de coronavírus. Os hospitais ficam sobrecarregados, e o fornecimento de equipamentos de proteção individual diminui.

Dois médicos de atendimento de emergência ― um em Nova Jersey e outro no estado de Washington ― já foram internados em estado crítico por causa do coronavírus. E em Nova York, maior foco da doença nos Estados Unidos, os hospitais vêm usando cerca de 40.000 máscaras por dia ― cerca de 10 vezes a quantidade normal. Em alguns deles, esse equipamento já está sendo racionado. 

“Se elas acabarem, é como enviar um soldado para uma guerra em que todo mundo tem armadura, mas nós não”, disse Joseph Habboushe, médico do pronto-socorro do NYU Langone Medical Center.

A Califórnia também está com dificuldade para obter equipamentos de proteção para os profissionais de saúde, trabalhando com locais para aumentar a produção.

O estado quer adquirir cerca de 1 bilhão de pares de luvas, além de centenas de milhões de aventais, máscaras cirúrgicas e protetores faciais, disse o governador Gavin Newsom. “Será necessário um esforço heroico”, completou.

Sem equipamento de proteção, médicos e enfermeiros podem ser forçados a escolher entre seus empregos e sua própria saúde e a saúde de seus familiares.

“Eu tenho um marido com o sistema imune comprometido. Sem equipamentos de proteção, eu o coloco em risco todos os dias. Se isso não for resolvido logo, vou embora”, disse um médico britânico à Doctors’ Association UK.

“O governo precisa proteger os profissionais de saúde da linha de frente e, em troca, eles darão 100%”, disse Rinesh Parmar, presidente do grupo. “Mas o governo não fez sua parte. Não há equipamentos de proteção em números suficientes para proteger a saúde de médicos e enfermeiros.” 

Alguns médicos continuaram trabalhando apesar da falta de equipamentos adequados.

Em Madri, o HuffPost Espanha conversou com dois auxiliares de enfermagem do Hospital Infanta Sofia, que disseram estar fabricando seus próprios equipamentos de proteção individual e que seus colegas da UTI estavam sobrecarregados.

“Há idosos morrendo sozinhos, e algumas das enfermeiras quebram o protocolo de segurança, segurando as mãos deles”, disse uma das enfermeiras em maio.

Na Itália, Marcello Natali, médico de 57 anos, recebeu diagnóstico positivo para coronavírus enquanto trabalhava na cidade de Codogno, norte do país. Com a piora de seu quadro, ele foi transferido para um hospital de Milão, mas acabou morrendo. 

Em entrevista à Euronews, Natali afirmou que tinha de trabalhar sem luvas. 

“Não tinha mais”, afirmou ele.

Com reportagem do HuffPost Itália, HuffPost Espanha, HuffPost UK, HuffPost França, AP e Reuters.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.