MULHERES
22/10/2019 15:29 -03 | Atualizado 22/10/2019 15:55 -03

Google define professora como 'prostituta' em pesquisa e classifica como 'brasileirismo'

"Reconhecemos a preocupação neste caso e vamos transmiti-la aos responsáveis pelo conteúdo”, afirma o Google em nota.

Reprodução/Google
Ao buscar no Google "professora significado", termo é associado a "brasileirismo" e define profissão como "prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual."

Ao buscar no Google os termos “professora significado”, a primeira definição dada pelo dicionário utilizado pela ferramenta é “mulher que ensina ou que exerce o professorado”. Mas a segunda, considerada “brasileirismo” pelo verbete, ou seja, algo próprio do português do Brasil, a profissão é definida como “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”.

Entre esta segunda-feira (21) e terça-feira (22), imagens com a definição da profissão ligada ao sexo feminino viralizaram nas redes sociais e circularam em grupos de WhatsApp. Devido à repercussão, segundo informações do Google Trends, na noite de ontem o termo foi buscado mais de 500 mil vezes.

O HuffPost Brasil fez o teste nesta terça-feira (22) e obteve o mesmo resultado divulgado nos grupos e redes sociais (imagem acima).

Definição igual aparece também em dicionários online como o cultuado Houaiss, o Aurélio e o Aulete, que destacam em verbete que o uso pejorativo do termo “professora” é usado em “algumas regiões do Brasil, para se referir à pessoa com quem se teve a primeira relação sexual”. 

Reprodução/Houaiss
Definição de "professora" e "professor" no dicionário Houaiss online.

A pesquisa, porém, aparece diferente quando a busca é feita em relação à profissão no sexo masculino. “Professor significado”, no masculino, resulta na definição de “aquele que professa uma crença” primeiro e, em segundo; “aquele que ensina” (veja abaixo).

Questionada, a assessoria de imprensa do Google informou ao HuffPost Brasil que privilegia resultados de fontes confiáveis para os quadros que aparecem em primeiro resultado dos termos buscados e que, no caso do box “dicionário”, o conteúdo gerado é produzido por parceiros, e não pela plataforma Google.

Reprodução/Google
Ao buscar por "professor significado", Google mostra verbetes diferentes dos que aparecem em "professora significado". 

“Quando as pessoas pesquisam por definições de palavras na Busca, frequentemente, elas desejam informações de maneira rápida. Por isso, trabalhamos para licenciar conteúdos de dicionários parceiros, que são exibidos diretamente na Busca”, diz a nota.

A assessoria informa ainda que reclamação sobre o resultado de qualquer busca pode ser feita clicando na palavra “Feedback”, que aparece logo abaixo do resultado da pesquisa.

Quando questionada sobre o que poderia fazer a respeito deste conteúdo produzido por sites parceiros, a empresa não deu detalhes, mas afirmou, em nota, que reconhece a preocupação neste caso e irá transmiti-la aos responsáveis.

“Os resultados incluem usos coloquiais que podem causar surpresa, mas não temos controle editorial sobre as definições fornecidas por nossos parceiros que são os especialistas em linguagem. Reconhecemos a preocupação neste caso e vamos transmiti-la aos responsáveis pelo conteúdo.”

A responsabilidade do Google

Flashpop via Getty Images
Empresa reconheceu que buscas mostravam resultados "abaixo das expectativas". Correção está disponível desde 19 de julho.

Recentemente, o termo “lésbica” deixou de ser mais associado a páginas de conteúdo pornográfico e sexual quando digitado na busca do Google. A empresa anunciou em julho que consertou seu algoritmo com a intenção de fornecer resultados mais precisos e de alta qualidade para este tipo de consulta.

Desde o dia 19 de julho esta correção está ativa. Antes, o mecanismo de busca mais famoso do mundo trazia em seus primeiros resultados conteúdos ligados a sites pornô, mesmo se a pesquisa fosse feita por um conteúdo de cunho educacional ou informativo, o que contribuía para a sexualização de mulheres.

Foi este tipo de efeito negativo que motivou um grupo feminista francês a criar o movimento “SEOLesbienne” nas redes sociais e a pressionar o Google por uma mudança efetiva, apontando problemas e possíveis soluções.

“Do nosso lado, tentamos repetidamente entender como sites pornográficos confiam em consultas e por que o Google não fez nada para alterar os resultados ‘naturais’ sobre esses tópicos, como pode fazer para os outros”, disse uma das porta-vozes do grupo ao site francês Numerama.

Buscas relacionadas a outros termos ligados à comunidade LGBT, como homossexual ou trans não levavam a conteúdos pornô e, sim, a páginas como Wikipedia ou reportagens de grande engajamento sobre esses temas.