OPINIÃO
20/10/2020 01:00 -03 | Atualizado 20/10/2020 08:59 -03

O brutal assassinato de professor de História na França é um reflexo de tensões geopolíticas

Essas atrocidades cometidas em solo francês têm por objetivo colocar os franceses muçulmanos contra o resto da população — forçando-os a escolher entre a identidade religiosa ou nacional.

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Em Marseille, manifestantes lamentam assassinato do professor Samuel Paty e empunham faixas com dizeres: "Eu sou Samuel".

À primeira vista, o brutal assassinato de um professor de História por um extremista islâmico traça um retrato de uma sociedade fraturada. Sim, o caso nos diz muito sobre o agravamento de tensões culturais e religiosas há muito latentes na França. Mas a forma e, sobretudo, o momento em que o assassinato foi cometido nos dizem mais ainda sobre as tensões geopolíticas que a França enfrenta no Oriente Médio.

Alguns pontos de contexto são essenciais para entender o que está acontecendo na França: 

- No começo do mês, o presidente Emmanuel Macron declarou guerra ao “separatismo”. Oficialmente um instrumento legal contra qualquer tipo de discurso radical, a medida visa combater o islamismo político, “que tenta constituir uma sociedade paralela”, segundo Macron.

- A medida motivou ameaças diretas de dois homens que tentam se tornar líderes do mundo muçulmano: Ibrahim Mounir, da Irmandade Muçulmana, e o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Ambos disseram que Macron e a França desrespeitam os 2 bilhões de muçulmanos no mundo inteiro.

- Sob Erdogan, a Turquia tenta se firmar como a potência mais influente do mundo muçulmano. O país ocupou o norte da Síria, tem atuado no Iraque, e interveio na guerra civil da Líbia. A França — cujo império colonial incluía o Magrebe — é uma pedra no sapato de Erdogan, seja por sua força no Líbano ou intervenção na Líbia.

- De todos os países da Europa ocidental, nenhum dedicou mais dinheiro, tropas ou esforços diplomáticos na luta contra grupos islâmicos extremistas, incluindo uma intervenção no Mali. Além disso, a influência francesa no Líbano se opõe aos interesses do Hezbollah, grupo de ação terrorista ligado ao Irã.

- Ademais, o crime acontece no momento em que a França promove o julgamento pelos atentados contra a revista satírica Charlie Hebdo (em 2015, parte da equipe foi assassinada após, entre outras coisas, desenhar caricaturas do profeta Maomé).

Ainda é cedo para saber tudo o que está por trás do assassinato do professor Samuel Paty, mas as informações levantadas pela polícia sugerem que não foi um ato cometido por um “lobo solitário”. Em vez disso, o crime foi o desfecho de uma campanha orquestrada contra o docente por líderes extremistas ligados a interesses estrangeiros (até agora, 11 pessoas foram presas preventivamente).

Atos como esse fazem parte de uma campanha para desestabilizar uma sociedade já fragilizada por tensões antigas, diminuição da mobilidade social, e radicalização de grupos à direita e à esquerda.

Essas atrocidades cometidas em solo francês têm por objetivo colocar os franceses muçulmanos contra o resto da população — forçando-os a escolher entre a identidade religiosa ou nacional. Pelos primeiros movimentos em reação ao crime, a estratégia mostra-se, mais uma vez, bem-sucedida.

A extrema direita tem aumentado o tom contra a população muçulmana, fazendo o jogo dos extremistas que tentam inculcar nos fiéis a ideia de que a república francesa e a fé muçulmana são antinômicas. Como diria o filósofo chinês Lao-Tse, “muito a leste é oeste”.

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Principal expoente da extrema-direita francesa, Marine Le Pen fala com a imprensa após assassinato de Samuel Paty.

Parte do establishment político francês, em contrapartida, tenta separar-se da direita dura de uma forma atabalhoada e inútil. O prefeito de Lyon, por exemplo, negou-se a participar de um evento com conotações católicas (citando a laicidade do Estado), mas dias depois compareceu à inauguração de uma mesquita. Esse tipo de atitude em nada aplaca o trabalho de radicalização que alguns líderes pagos por governos extremistas têm feito — e, ao mesmo, aumenta os ressentimentos de parte da população.

O governo, por sua vez, planeja endurecer a lei antisseparatismo, um instrumento perigoso que pode dar abertura a todo tipo de abuso contra a liberdade de expressão.

No meio desse caldeirão, observamos o surgimento de uma segunda onda do coronavírus, que pode aumentar ainda mais o descontentamento dos franceses. Paradoxalmente, porém, é justamente a pandemia — e a limitação do direito de realizar manifestações públicas — que tem prevenido (ou pelo menos postergado) uma situação de caos social.

Ainda assim, preocupa o comportamento da classe política francesa. Esse grupo insular ignora, em sua maior parte, o que se passa nas redes sociais. Enquanto radicais aumentam suas hostes, os políticos responsáveis da França perdem de WO.

Ao mesmo tempo, o complexo de superioridade da França faz que pensemos que nosso país não corre, a exemplo de Estados Unidos e Brasil, o risco de ser governado por um radical desqualificado como Trump ou Bolsonaro.

Tudo se desenha para que quebremos a cara em 2022.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.