Produtividade em xeque

Até onde a cobrança pela alta performance pode gerar a maior crise de burnout que o mundo corporativo já viu?
O culto à produtividade durante a quarentena, diante do crescimento do home office, tem severos efeitos colaterais para nossa saúde mental.
O culto à produtividade durante a quarentena, diante do crescimento do home office, tem severos efeitos colaterais para nossa saúde mental.

Desde que começamos a quarentena, surgiram milhares de matérias e vídeos sobre produtividade durante o home office. Manter a disciplina, tentar se organizar da melhor maneira e permanecer com hábitos saudáveis são ótimas escolhas. O problema começa quando há uma negação do momento que vivemos. Fato é que do dia para a noite fomos obrigados a ficar em casa, com nossas rotinas viradas de ponta-cabeça e com a preocupação em relação à nossa saúde e dos nossos familiares e amigos.

Pouco tempo depois, também começamos a nos preocupar com o cenário econômico e infelizmente começamos a ver pessoas perdendo seus empregos e estabelecimentos sendo fechados.

Logo na sequência, as pessoas começam a se sentir inseguras em seus empregos, pois não sabem se os terão no dia seguinte. E se colocam uma pressão absurda para conseguirem sobreviver em seus cargos e produzir o esperado.

Enquanto isso, as preocupações são apenas somadas. Nenhuma sensação de segurança aparece para confortar. Ao mesmo tempo, todos tentam se adaptar ao novo normal que o mundo oferece.

Paramos aqui para trazer um pouco sobre a realidade da saúde mental das pessoas antes do coronavírus sequer aparecer na China. Um levantamento realizado em 2018 pela International Stress Management Association (Isma-BR ) apontou que mais de 32% dos brasileiros entre 25 e 65 anos já tiveram Burnout — algo em torno de 32 milhões de pessoas no Brasil.

O que é Burnout

Definição: Burnout é a perda de significado no trabalho, associada à exaustão mental, emocional ou física como resultado de estresse não resolvido a longo prazo, decorrente apenas e exclusivamente de esgotamento profissional.

Sintomas: desmotivação e desapego do seu trabalho; níveis de energia esgotados; menor produtividade; baixa imunidade; e exaustão física, mental e emocional.

Causas: carga horária excessiva; pressão absurda por resultados; acúmulo de funções; insatisfação com o ambiente ou com o líder; e assédio moral.

Mas por que falar disso agora? As empresas não estão enfrentando uma baixa, e as pessoas não precisam se comprometer a darem o seu melhor para juntos se manterem vivos?

Pois é. O problema é que se as pessoas ficarem absurdamente esgotadas o que acontece é o seguinte:

Profissionais: adoecem.

Empresas: sofrem impacto direto do desempenho dos profissionais e consequentemente nos resultados da organização.

Resultado = todos perdem!

O escritor T. Harv Eker publicou uma fórmula em um dos seus livros que eu considero bem interessante: P – S – A = R

“Pensamentos conduzem a sentimentos. Sentimentos conduzem a ações. Ações conduzem a resultados.”

Ou seja, se o pensamento e o sentimento são de ansiedade e esgotamento, é impossível o resultado ser positivo.

Que o mundo corporativo e as culturas tradicionais já estavam em colapso, todos sabemos. Mas como podemos aproveitar para, de fato, ressignificarmos algumas coisas e tentarmos sair mais fortes desse período tão desafiador

Primeiro, precisamos levar saúde mental a sério e parar de falar que quem não aguenta é fraco.

Segundo, entender que o burnout vai surgindo aos poucos... Ele passa por algumas fases até chegar a seu estágio crítico, e perceber esse avanço nos estágios é primordial para não chegar ao esgotamento. A lei do equilíbrio é o que define essa linha tênue.

Mais do que apenas entender o que é o esgotamento, é importante identificar esses sintomas a fim de tomar uma atitude para cortá-los.

Ter empatia de verdade — na prática mesmo! — e saber que cada pessoa tem uma rotina e respeitar sua singularidade são as melhores providências.

Profissionais: por favor, não se comparem com o colega do lado. Está tudo bem se você não fez um curso online ou se não está acompanhando todos os webinars do seu mercado. Também está tudo bem se você não está conseguindo se organizar da melhor forma ou até mesmo se sua produtividade caiu nas últimas semanas. Estamos em meio a uma pandemia, e é inegável que as coisas sofrerão alterações. Isso não significa que você deva ficar acomodado ou não tomar frente das suas responsabilidades. Pelo contrário, a dica é que você se cuide e se respeite para, quando precisar agir, fazer isso de forma segura e eficiente.

Empresas: por favor, tentem se reinventar na forma de liderar e de fazer seus negócios prosperarem. Sabemos que está suado para todo mundo. Mas agora não é hora de negar o que está acontecendo e cobrar como se estivesse tudo normal. A criatividade precisa ser superada, e o cuidado com o profissional precisa existir mais do que nunca. Somente assim, os colaboradores serão capazes de produzir e, aí sim, de conseguir zelar e batalhar pela empresa.

Este já era um assunto relevante no passado. Agora isso se tornou urgente.

Já estamos vivendo um cenário sensível demais na saúde mundial, na economia e na política. Tudo o que não precisamos é de uma crise mental se alastrando entre as pessoas.

Por isso, vamos refletir juntos e ressignificar o que realmente é produtividade.

Que tal?

Boa semana!

Madu

Este texto é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.