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26/05/2020 15:53 -03

Para procuradores e policiais, é preciso investigar 'sistema de informações particular' de Bolsonaro

Avaliação é que há necessidade de apurar se presidente recebe dados sigilosos de informantes extraoficiais, ou se conta com um aparato clandestino de espionagem.

NurPhoto via Getty Images
Presidente afirmou em reunião que seu sistema de informações particular funciona. Em seguida, em entrevista, disse que são conhecidos, citando policiais. 

A existência de um possível sistema paralelo de informações, citado pelo presidente Jair Bolsonaro na reunião cuja gravação foi liberada semana passada, precisa ser investigada. É o que defendem procuradores e policiais federais que conversaram com o HuffPost sob condição de anonimato, e que veem no relato do mandatário no encontro, e também em falas posteriores, indícios de crime de responsabilidade. A intenção é apurar se Bolsonaro recebe dados sigilosos de informantes extraoficiais, ou se conta com um aparato clandestino de espionagem. 

“Sistemas de informações, o meu funciona. O meu particular funciona. Os que tem oficialmente desinforma (sic). E voltando ao tema, prefiro não ter informação a ser desinformado por sistema de informação que eu tenho”, disse Bolsonaro na reunião de 22 de abril no Palácio da Alvorada. O encontro virou objeto do inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal e investiga as acusações de Sergio Moro contra o presidente.

Horas após o ministro responsável pelo inquérito no STF, Celso de Mello, suspender o sigilo sobre o vídeo, Bolsonaro admitiu, em entrevista à rádio Jovem Pan, a existência de canais privados de informação e disse ser formado por conhecidos seus. 

O que é meu serviço de informações particular? É o sargento do batalhão do Bope do Rio de Janeiro, é o capitão do grupo de artilharia lá de Fortaleza, é o policial civil que tá em Manaus, é meu amigo do Acre que tá na reserva e me traz informação da fronteira. Este é meu serviço de informação particular que funciona melhor do que este que eu tenho oficialmente e não me traz informação. Esta sempre foi a minha crítica. Este problema, temos aqui o aparelhamento de instituições, e não é fácil mudar isso”, disse. 

Na entrevista à Jovem Pan, Bolsonaro admitiu ter tido conhecimento de que estava em curso uma operação na casa de um de seus filhos. ”O tempo todo vivendo sob tensão, possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Levantei isso, graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares do Rio de Janeiro, que isso tava sendo armado pra cima de mim”. 

Na sequência, contou como cobrava do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro: “Moro, eu não quero que me blinde, mas você tem a missão de não deixar eu ser chantageado”.

De acordo com pessoas do governo ouvidas pelo HuffPost, é praxe que o presidente receba diariamente relatórios dos ministérios, assim como da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), órgão vinculado ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência. Ele, contudo, criticou, na reunião que virou central no inquérito, as informações recebidas pela Abin e pela Polícia Federal. 

Eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. ABIN tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas, pô! Aparelhamento etc. Mas a gente num pode viver sem informação. Sem info... quem é que nunca ficou atrás da porta ouvindo o que seu filho ou sua filha tá comentando. Tem que ver pra depois que e depois que ela engravida, não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, já não adianta mais falar com ele, já era. E informação é assim.”

A possível existência de um aparato paralelo de inteligência a serviço do presidente já havia sido relatado pela deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) na CPMI das Fake News no fim do ano passado. “Houve uma tentativa, no início, de que o Carlos [Bolsonaro] tentou montar uma ‘Abin paralela’ para que houvesse grampo de celular, dossiês feitos. E isso teria criado um atrito. E o nome foi esse, uma Abin paralela”, afirmou a parlamentar. 

Ela disse ter ouvido a história do ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gustavo Bebianno, que deixou o cargo logo no início da gestão. Bebianno, morto em março de infarto agudo do miocárdio, confirmou a história em 2 de março no programa Roda Viva, da TV Cultura. 

Bebianno era um dos melhores amigos do empresário Paulo Marinho, suplente do primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele disse que o parlamentar lhe contou ter sido informado com antecedência de uma operação da Polícia Federal (Furna da Onça) que teria como alvo seu ex-assessor Fabrício Queiroz. Marinho já prestou depoimento ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal. 

O inquérito em curso no STF sob responsabilidade do ministro Celso de Mello, tocado pela Polícia Federal, apura as acusações feitas por Moro ao deixar o governo em 24 de abril. O objeto central é identificar se Bolsonaro interferiu ou interfere na PF para fins pessoais, como afirmou o ex-ministro. 

Por isso, os procuradores e policiais com quem o HuffPost conversou falam que a averiguação do possível sistema paralelo deve ser alvo de um novo inquérito. 

Bolsonaro X Witzel: interferência? 

Membros da PGR, da PF e também políticos avaliaram à reportagem que as falas do presidente provocam um ambiente de suspeição constante, ainda que as investigações não caminhem para isso. 

Nesta terça (26), foi deflagrada a Operação Placebo, que teve como alvo o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e investiga desvio de verba que deveria ser usada em ações na saúde. A ação partiu da decisão do ministro Benedito Gonçalves, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que expediu 12 mandados de busca e apreensão, entre eles, no Palácio das Laranjeiras. 

Logo após a deflagração da ação da PF, Witzel, rival político do presidente, afirmou que a operação deixou clara a interferência política de Bolsonaro na PF. Em pronunciamento mais tarde, ele se disse alvo de “perseguição política”. 

“Esse é um ato de perseguição política que se inicia nesse país e isso vai acontecer com governadores inimigos. O senador Flávio Bolsonaro, com todas a provas que já temos contra ele, que já estão aí sendo apresentadas, dinheiro em espécie depositado em conta corrente, lavagem de dinheiro, bens injustificáveis, ele já deveria estar preso”, ressaltou. 

Antes disso, questionado sobre a operação contra seu adversário, o presidente Jair Bolsonaro riu e deu parabéns à Polícia Federal. 

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