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09/09/2019 16:17 -03 | Atualizado 09/09/2019 17:01 -03

‘Nós vamos virar pedintes, quase?’, reclama procurador que acha pouco ganhar R$ 24 mil

Diante da possibilidade de ficar sem aumento, procurador do Ministério Público em Minas Gerais lamenta: ‘Estou baixando meu padrão de vida, mas vou sobreviver’.

yuoak via Getty Images

No momento em que o País vê o índice de trabalho informal bater recorde, conta com 12,6 milhões de desempregados e tem salário mínimo de R$ 998, procuradores do Ministério Público do Estado de Minas Gerais estão preocupados com a possibilidade de não terem reajuste.

Como o cara vai viver com R$ 24 mil?

O desabafo é do procurador Leonardo Azeredo dos Santos. Em um áudio disponibilizado no site do MPMG e publicado pela Rádio Itatiaia, o procurador pede um posicionamento do órgão em favor de um aumento salarial. Em cerca de cinco minutos, ele argumenta como está difícil viver “nesse mizerê”.

Leia trechos do desabafo:

“Vamos passar ano que vem a receber o salário verdadeiro nosso, que todo mundo já identificou que é um salário relativamente baixo, sobretudo para quem tem mulher e filho. Quando a gente não tem mulher e filho, o dinheiro sobra.

(...)

Como é que o cara vai viver com R$ 24 mil?

O que de fato vamos fazer para melhorar a nossa remuneração? Ou nós vamos ficar quietos? Não sei se vamos receber a mais, se vai ter algum recálculo dos atrasados que possa me salvar, salvar a minha pele. De qualquer forma, já estou baixando meu padrão de vida bruscamente, mas eu vou sobreviver.

(…)

Infelizmente, não tenho origem humilde. Não estou acostumado com tanta limitação. Talvez seja até mal visto, porque aqui está cheio de gente que diz que nós somos perdulários, que nós ganhamos muito, que nós é que temos que economizar.

(…)

Quero saber se nós, no ano que vem, vamos continuar nessa situação ou se vossa excelência já planeja alguma coisa, dentro da sua criatividade, para melhorar nossa situação? Ou se vamos ficar nesse mizerê?

(…)

Quem é que vai querer ser promotor?

(…)

Estou fazendo a minha parte. Estou deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito e estou passando a gastar R$ 8 (mil), para poder viver com os meus R$ 24 mil. Agora, eu e vários outros, já estamos vivendo à base de comprimidos, à base de antidepressivo. Estou falando desse jeito aqui com dois comprimidos sertralina por dia, tomo dois ansiolíticos por dia e ainda estou falando desse jeito. Imagine se eu não tomasse? Ia ser pior que o Ronaldinho. (…) Nós vamos virar pedintes, quase?

(…)

Será que estou pedindo muito para o cargo que eu ocupo? Será que meu cargo não merece uma remuneração que eu possa pagar o colégio dos meus filhos, por exemplo?”

Ao HuffPost, o Ministério Público destacou que a reclamação do procurador é de “cunho pessoal”. Informou ainda que “não há nenhum projeto em andamento sobre a adoção de benefícios pecuniários para a carreira” e que o órgão “vem tomando medidas de austeridade para aumentar a eficiência administrativa e reduzir os gastos, principalmente com pessoal”. 

Leia íntegra da nota:

“Em relação à 5ª sessão extraordinária da Câmara de Procuradores, realizada no dia 12 de agosto, para discussão da proposta orçamentária para 2020, na qual houve manifestação de cunho pessoal de um dos integrantes do colegiado sobre a política remuneratória da instituição, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) informa que não há nenhum projeto em andamento sobre a adoção de benefícios pecuniários para a carreira de membros (procuradores e promotores de Justiça) ou de servidores, em vista da grave crise financeira vivenciada pelo estado e da necessidade de observação da Lei de Responsabilidade Fiscal para gastos com pessoal.

Frente a essa realidade o MPMG informa ainda que vem tomando medidas de austeridade para aumentar a eficiência administrativa e reduzir os gastos, principalmente com pessoal. Esse conjunto de medidas tem se mostrado eficiente para manter o Ministério Público dentro do limite legal de 2% da Receita Corrente Líquida.

Diante da mencionada crise financeira e no intuito de garantir a capacidade da instituição de continuar atendendo às necessidades atuais e futuras da sociedade, a administração e os colegiados do MPMG (Câmara de procuradores de Justiça e Conselho Superior do Ministério Público) vêm debatendo continuamente a respeito de medidas que possam vir a ser tomadas sem, entretanto, haver ainda definido sobre tais iniciativas.”