POLÍTICA
07/04/2019 08:23 -03

'Lula continua sendo o grande líder', diz dirigente do PT na Câmara

Para especialista, enquanto PT for 'escravo da agenda Lula Livre’, perderá protagonismo.

Handout . / Reuters
O ex-presidente Lula, ao deixar o velório do neto, no último mês. Foi a única vez que o petista deixou a sede da PF em Curitiba desde que foi preso.

No dia 7 de abril de 2018, após 48 horas de vigília com apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se entregou à Polícia Federal. Desde então, está preso na sede da PF em Curitiba, condenado, em segunda instância, a 12 anos e 11 meses, por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá.

Do lado de fora do prédio, um grupo de militantes segue acampado, pedindo sua soltura. Entre os dirigentes do Partido dos Trabalhadores, a defesa é de que é Lula quem ainda tem poder para mobilizar o partido e a esquerda - e que a pauta “Lula Livre” deve seguir no centro de sua agenda.  

“Mesmo com todas as dificuldades que foram impostas, ele continua sendo o grande líder”, disse o deputado Paulo Pimenta, líder do PT na Câmara, ao HuffPost Brasil, às vésperas de Lula completar um ano na prisão. Segundo ele, o ex-presidente continua exercendo a liderança e influenciando nas decisões do partido.

A estratégia, no entanto, é vista pelo cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP) Marco Antônio Teixeira como de alto risco para o partido e a esquerda.  

“Enquanto o PT for escravo da agenda ‘Lula Livre’, ele perde protagonismo, porque as coisas vão acontecendo no País”, diz. 

“A Reforma da Previdência vai tramitar, vai ser debatida, alguma coisa vai ser aprovada, e provavelmente sem que o PT tenha grande protagonismo no processo. Depois vem a reforma tributária ou o pacote anticrime. Mas o partido vai se deixar continuar sitiado?”, questiona o especialista.

A defesa do ex-presidente e a militância petista ainda aguardam a análise, pelas cortes superiores, dos recursos apresentados pelos advogados, mas não há previsão de quando o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) deve discutir o caso. No Supremo Tribunal Federal (STF), o debate sobre prisão após condenação em segunda instância, que estava marcado para a próxima semana e poderia ter impacto para Lula, foi adiado pelo presidente do STF, Dias Toffoli. 

ASSOCIATED PRESS
“Enquanto o PT for escravo da agenda ‘Lula Livre’, ele perde protagonismo, porque as coisas vão acontecendo no País”, diz cientista político.

Neste domingo (7), o PT e aliados convocaram uma manifestação em frente à sede da PF em Curitiba, apesar da decisão da justiça estadual, que proíbe, desde fevereiro, qualquer “ato ostensivo de manifestação (pró ou contra Lula)” no bairro. Paulo Pimenta, que já visitou diversas vezes Lula na prisão, estará lá.

Na noite de sexta-feira (5), a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, o candidato derrotado à Presidência Fernando Haddad e a sua companheira de chapa, Manuela D’Ávila (PCdoB), participaram de um ato “Lula Livre” em Porto Alegre. 

 

Fragmentação na esquerda revela brecha de liderança 

Uma pesquisa divulgada pelo Atlas Político na última quarta-feira (3) apontou que o PT é a sigla de maior preferência entre os brasileiros (15,8%), seguido do PSL (5,5%) e Novo (2,1%).  

Apesar de perder a Presidência, na Câmara, o PT ainda foi o partido que mais elegeu deputados - 54 -, seguido do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, que teve 52 parlamentares eleitos.

Para Marco Teixeira, os números refletem uma preferência consolidada pelo partido, enquanto o interesse pelo PSL é conjuntural.

“O PT continua sendo o partido de maior presença no imaginário da população. Você tem o recall do processo eleitoral, mas o capital do PT vai além disso”, diz. “Foram muitos anos de governos e projetos como o Bolsa Família e ProUni. Isso não se apaga da noite para o dia.”

Muita gente imaginou que o PT sem o Lula teria um resultado pífio. Mas temos confiança no nosso papel histórico e temos noção da nossa responsabilidade. Diante da nossa força política, a direita soa praticamente como uma militânciaPaulo Pimenta (PT-RS), líder do PT na Câmara

À frente da maior bancada na Câmara - apesar de ter perdido 13 assentos desde as eleições de 2014 -, o líder do PT na Câmara comemora. “Muita gente imaginou que o PT sem o Lula teria um resultado pífio. Mas temos confiança no nosso papel histórico e temos noção da nossa responsabilidade. Diante da nossa força política, a direita soa praticamente como uma militância.”

Teixeira, contudo ressalta que o PT não tem uma liderança capaz de agregar o bloco fragmentado da esquerda no País atualmente.

Para ele, os partidos de esquerda têm gastado mais energia em disputas internas do que em planejar uma oposição ao governo Bolsonaro.

A recente troca de farpas entre Gleisi Hoffmann e Ciro Gomes, que foi candidato à presidência pelo PDT, é prova disso. 

“O grande problema do PT não é a falta de pessoas preparadas, mas a falta do que apresentar. Discutir reforma do Previdência é muito mais do que ser contra a reforma, é apresentar o que se pensa como alternativa. E isso não é feito”, acrescenta Teixeira. 

E se o PT tem perdido espaço nos debates dos grandes temas nacionais, isso também poder ser considerado um reflexo de como a prisão do ex-presidente atingiu o partido.

“O ‘Lula Livre’ se tornou uma obsessão do partido e eles não conseguem dialogar as questões que são frágeis no governo atual”, explica o especialista.

Paulo Whitaker / Reuters
"O Haddad está bloqueado pela agenda ‘Lula Livre’. O PT deveria dar um cargo de relevância a ele, como o da presidência nacional", diz Marco Antônio Teixeira.

Mas e o Fernando Haddad ?

No segundo turno das eleições presidenciais em 2018, o candidato do PT Fernando Haddad obteve 47 milhões de votos, ou 44,87% dos votos válidos, o menor percentual do partido em 20 anos. 

“O Haddad hoje é o maior repositório do capital eleitoral não só do PT, mas da esquerda brasileira”, afirma Paulo Pimenta.

O líder do PT na Câmara defende que o ex-prefeito de São Paulo emergiu durante o período eleitoral como um nome capaz de representar a sociedade brasileira. “Ele se manteve com suas opiniões e representa uma oposição a tudo o que o Bolsonaro defende.”

Porém, até o momento, Haddad não conseguiu ocupar esse espaço de liderança. E ele tem dificuldade de ocupá-lo justamente porque, sem um mandato, não participa dos debates do parlamento. Sua atuação, hoje, é basicamente, nas redes sociais.

A eleição presidencial deixou isso bem claro. O veto ao Ciro Gomes foi muito mais um veto de quem não aceita ser liderado por outra legendaMarco Antônio Teixeira, cientista político da FGV

“O Haddad está bloqueado pela agenda ‘Lula Livre’. O PT deveria dar um cargo de relevância a ele, como o da presidência nacional. O PSDB fez isso com o [Geraldo] Alckmin, por exemplo. Então, o Haddad seria o interlocutor do partido nos grandes debates”, diz Marco Antônio Teixeira. Segundo o especialista, Haddad não tem condições de ser essa liderança se não tiver um mandato. “Ou essa interlocução sempre será vista como choro de derrotado.”

Para o cientista político, a oposição ao governo Bolsonaro tem sido construída por parlamentares de fora do campo tradicional político. 

Simbolicamente, o evento mais relevante até agora foi a fala da jovem deputada Tabata Amaral (PDT-SP) que questionou duramente o ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez durante audiência na Câmara. A atuação, no entanto, foi pontual. O deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) tem tido certa relevância nas discussões da Previdência. 

Para o especialista, o deputado Marcelo Freixo (PSol-RJ) pode vir a ter um desempenho capaz de liderar o bloco da esquerda.

No entanto, tanto ele quanto outros parlamentares vão esbarrar na dificuldade de o PT aceitar nomes de fora do quadro do partido para liderar negociações no Congresso.

“A eleição presidencial deixou isso bem claro. O veto ao Ciro Gomes foi muito mais um veto de quem não aceita ser liderado por outra legenda”, observa.

Stringer . / Reuters
Lula, pouco antes de sua prisão, em abril de 2018. Apoiadores e militância compareceram a missa convocada pelo partido em frente ao sindicato em São Bernardo do Campo.

Rotina de Lula na prisão inclui visitas de advogados e políticos

No último ano, o ex-presidente esteve preso em uma sala de cerca de 15 metros quadrados no quarto andar do prédio da superintendência da PF em Curitiba. Na “cela” improvisada há uma cama de solteiro, um banheiro, uma televisão, uma mesa com quatro cadeiras e armário e uma esteira ergométrica, que foi um pedido da defesa por orientações médicas.

Durante o período das eleições presidenciais, a sala virou escritório do partido. Hoje, o ex-presidente encontra-se com os seus advogados e alguns amigos, geralmente políticos.

“Ele continua sendo uma pessoa muito bem informada sobre a situação do País. Manter viva a discussão sobre a prisão política que ele sofre é um dos nossos maiores desafios”, explica Pimenta. 

Segundo a Folha de S. Paulo, agentes da PF que acompanham a rotina do ex-presidente dizem que o dia da eleição de Jair Bolsonaro foi o segundo mais triste para ele. O primeiro foi quando soube da morte do seu neto Arthur, de 7 anos.

Lula, que tentou sem sucesso ir ao velório do irmão, Vavá, no fim de janeiro, conseguiu autorização judicial para se despedir do neto em março, em São Bernardo do Campo. Foi a única vez que o ex-presidente deixou a prisão em Curitiba no último ano.