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10/02/2020 11:18 -03

Miliciano ligado a Flávio Bolsonaro tentou fugir antes de ser morto, diz jornal

Adriano da Nóbrega morreu na casa do vereador Gilsinho da Dedé, filiado ao PSL, na Bahia.

Digulgação/Getty Images
A mãe do miliciano, Raimunda Veras Magalhães, e a esposa, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.

O miliciano Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, mais antiga milícia do Rio de Janeiro, tentou fugir da polícia antes de ser morto em operação policial neste fim de semana, de acordo com o jornal O Globo. O ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais) foi citado no esquema de “rachadinha” no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Sem partido-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, quando ele era deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). 

Nóbrega fugiu da fazenda em que estava escondido e percorreu oito quilômetros até a chácara do vereador Gilsinho da Dedé, no município de Esplanada, na Bahia, onde tentou se esconder, segundo o jornal. Ele é filiado ao PSL, partido pelo qual tanto Jair quanto Flávio foram eleitos em 2018. Gilsinho negou conhecer o miliciano.

“Não sei como ele conseguiu entrar lá. Soube do tiroteio por vizinhos e, depois, que vi na imprensa que ele tinha morrido lá. Não o conheço e nunca fui apresentado a ele”, disse ao jornal.

O ex-PM foi morto na madrugada deste domingo (9). Capitão Adriano, como era conhecido, estava foragido há mais de um ano e era acusado de participação em homicídios no Rio, grilagem de terras e de ser sócio de jogos de máquina caça-níquel.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, ele reagiu com tiros à chegada dos policiais, foi ferido com dois tiros e não resistiu. Junto com ele, foram apreendidos 13 celulares e 7 cartões de chip. 

Rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro

A mãe do miliciano, Raimunda Veras Magalhães, e a esposa dele, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) cita Raimunda como uma das funcionárias que fizeram repasses para a conta de Fabrício de Queiroz, ex-assessor do parlamentar, investigado por coordenar o esquema. Segundo o levantamento, ela depositou R$ 4,6 mil na conta de Queiroz. As duas recebiam salário de R$ 6.490,35 e foram exoneradas em 13 de novembro de 2018.

Na época, Flávio afirmou que a funcionária foi indicação de Queiroz e que era o assessor quem supervisionava o trabalho dela. 

Adriano foi homenageado duas vezes pelo senador eleito. Na primeira, em outubro de 2003, Flávio ressaltou o “brilhantismo e galhardia” do ex-PM. Afirmou também que o ex-capitão da PM era responsável por “serviços à sociedade desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades”.

Dois anos depois, em julho de 2005, a nova homenagem veio em forma de um adereço, a Medalha Tiradentes. Na ocasião, Flávio destacou a atuação de Adriano em uma operação no Morro da Coroa, em 2001. A ação prendeu 12 suspeitos, apreendeu 4 fuzis, outras 3 armas de fogo, uma granada e munições.

Escritório do crime

Adriano era apontado como chefe do Escritório do Crime. Segundo o Ministério Público, essa milícia explora o mercado imobiliário ilegal, com a regularização de bens. De acordo com as investigações, integrantes do grupo são responsáveis por extorquir os moradores, cobrar taxas ilegais, falsificar documentos públicos, ocultar bens.

Os suspeitos também praticam outras atividades comuns de milícias para controle de território, como ligações irregulares de água, luz e serviços de TV a cabo, chamados de “gatonet”.

A organização é suspeita de envolvimento na execução da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Neste domingo, o partido anunciou que irá pedir uma audiência com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia para apurar mais informações da operação policial que culminou com a morte de Adriano da Nóbrega.

No fim de 2018, o então secretário de Segurança Pública do Rio Richard Nunes afirmou que Marielle e Anderson foram mortos por milicianos envolvidos com grilagem de terras. Nunes ressaltou que Marielle “estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos” que atuam “muito em cima da posse de terra”. “O que leva ao assassinato da vereadora e do motorista é essa percepção de que ela colocaria em risco naquelas áreas os interesses desses grupos criminosos”, disse o então secretário.

No início de 2019, Adriano foi um dos 13 alvos de uma operação deflagrada pelo Ministério Público do Rio para prender milicianos na zona oeste carioca.

O advogado do ex-policial,  Paulo Emilio Catta Preta, disse que seu cliente temia ser morto como “queima de arquivo”. Ele relatou que seria morto se a polícia o encontrasse ou caso se entregasse.