MULHERES
03/04/2020 21:42 -03 | Atualizado 04/04/2020 12:48 -03

O que se sabe até agora sobre as acusações de estupro contra o ex-BBB Felipe Prior

Ex-participante do reality foi eliminado com 58% dos votos. Reportagem revelou que três jovens o acusam de abuso sexual.

Eliminado do Big Brother Brasil 20 com cerca de 57% dos votos na última terça-feira (31), o arquiteto Felipe Prior é acusado de estupro por duas mulheres e de tentativa de estupro por uma terceira. Segundo as vítimas, os crimes teriam acontecido em 2014, 2016 e 2018, durante jogos universitários da InterFAU, das faculdades de arquitetura e urbanismo de São Paulo. O caso foi revelado com exclusividade pela revista Marie Claire nesta sexta-feira (3).

A reportagem teve acesso a um documento que foi protocolado como notícia crime no Departamento de Inquéritos do Fórum Central Criminal de São Paulo em 17 de março de 2020 pelas advogadas Maira Pinheiro e Juliana de Almeida Valente. O documento, com depoimento de três vítimas e de 11 testemunhas, pede a proteção das vítimas e que uma investigação criminal seja aberta.

Procurado pela reportagem, Prior não quis se posicionar, e sua assessoria negou os fatos. Em suas redes sociais, o ex-BBB publicou um vídeo em que afirma ser inocente e que “nunca cometeu violência sexual contra ninguém”.

A postagem acompanha a nota de seus advogados. Nela, eles afirmam que as informações são levianas e apontam que os casos só foram vieram a público após ele ter ganhado visibilidade pública. “Felipe Prior estará à disposição das autoridades para qualquer tipo de questionamento, e adotará todas as medidas necessárias contra os que investem contra a sua civilidade”, diz a nota. 

As denúncias geraram repercussão dentro e fora das redes sociais. Taís Araújo, Bruno Gagliasso e Bruna Marquezine se manifestaram em apoio às vítimas e a hashtag #PriorEstuprador se tornou um dos temas mais falados no Twitter; a TV Globo também emitiu comunicado e é possível que a participação de Prior em programas da emissora seja cancelada. O que se sabe até agora:

Divulgação/TV Globo
O arquiteto Felipe Prior foi eliminado com cerca de 57% dos votos na última terça-feira (31).

O que dizem as três vítimas que acusam Felipe Prior de estupro

Alerta de gatilho: Os relatos abaixo contém conteúdo sensível 

Segundo a reportagem da Marie Claire, os casos começaram a aparecer ainda em janeiro, quando o Big Brother Brasil teve início. Denúncias surgiram nas redes sociais indicando que ele havia sido proibido de participar dos jogos universitários por ter protagonizado casos de abuso sexual. A partir disso, as jovens que vieram a público e em condição de anonimato, entraram em contato umas com as outras e reconheceram comportamento recorrente de Prior.

A primeira vítima contou que foi estuprada por Prior em agosto de 2014, após uma festa da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo), enquanto ele ainda era estudante de arquitetura na UPM (Universidade Presbiteriana Mackenzie), em São Paulo. Ao final do evento, ele teria oferecido uma carona a ela, e a estuprado no banco de trás do carro. 

Ela conta, ainda, que a violência provocou uma laceração em seu lábio vaginal esquerdo, o que causou sangramento e dor intensa. Ele só parou o ato sexual ao vê-la aos prantos e dizendo que estava com muita dor. Ela relata que o carro ficou com muito sangue e que, em casa, pediu para que sua mãe a levasse a um pronto-socorro e não conseguiu contar a ela o que tinha acontecido.

A segunda vítima relata ter conseguido se desvencilhar de uma tentativa de estupro de Prior em 2016, durante os jogos universitários, o InterFAU - que tradicionalmente acontecem em cidades do interior do estado de São Paulo. Ela, embriagada, foi levada até a barraca dele. Como não havia camisinha, ela se recusou a transar com ele, que tentou penetrá-la por duas vezes no ânus. Ela se recusou, e ele fez uso de força; a jovem relata que conseguiu fugir.

“Quando começou o BBB, vi um tuíte de uma garota que dizia que o Felipe tinha fama de assediador no Mackenzie. Foi quando entendi que a violência que sofri não era única. Mandei uma mensagem para garota e disse a ela que se aparecessem mais vítimas, me manifestaria”, disse, à Marie Claire.

O terceiro caso é de 2018, e teria acontecido também durante os jogos universitários. Felipe teria, novamente, se aproveitado do estado de embriaguês da jovem e a chamado com “muita insistência” a entrar em sua barraca. Os dois começaram uma relação sexual consentida, mas ela pediu para parar quando ele começou a agir de maneira excessivamente violenta.

Segundo o documento obtido pela Marie Claire, o acusado teria dado tapas no rosto e por todo o corpo da vítima, mesmo depois de ela dizer que estava sentindo dor e, por diversas vezes, que desejava interromper a dinâmica. A uma certa altura, a teria colocado deitada de barriga para baixo e se pôs sobre seu corpo, de forma que ficasse imobilizada no chão.

Leia os relatos completos na reportagem de Marie Claire 

Qual a posição de Felipe Prior

Procurado pela reportagem, Prior não quis se posicionar, e sua assessoria negou os fatos. O HuffPost Brasil também tentou entrar em contato, mas não obteve resposta. Em suas redes sociais, o ex-BBB publicou um vídeo em que afirma ser inocente e que “nunca cometeu violência sexual contra ninguém.”

A postagem acompanha a nota de seus advogados. Nela, eles afirmam que as informações são levianas e apontam que os casos só foram vieram a público após ele ter ganhado visibilidade pública. “Felipe Prior estará à disposição das autoridades para qualquer tipo de questionamento, e adotará todas as medidas necessárias contra os que investem contra a sua civilidade”, diz a nota. 

O que Mackenzie, Globo e InterFAU dizem

A Comunicação da Rede Globo informou que “é veementemente contra qualquer tipo de violência, como se percebe diariamente em seus programas jornalísticos e mesmo nas obras do entretenimento, e entende que cabe às autoridades a apuração rigorosa de denúncias como estas”.

Dois dos crimes teriam acontecido no contexto do InterFAU. A comissão organizadora dos jogos universitários da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo), no início da noite desta sexta-feira, divulgou uma nota confirmando Prior foi banido do evento.

A nota diz que a comissão do evento “deliberou, de maneira permanente, que Felipe Antoniazzi Prior, ex-aluno da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não poderia ingressar e tampouco participar de nenhuma de nossas atividades”.

Em nota, o Mackenzie afirmou que não aceita qualquer tipo de discriminação, preconceito e agressão. “A Universidade Presbiteriana Mackenzie repudia violência de qualquer espécie, e vai seguir defendendo os seus princípios de respeito e amor ao próprio.”

A reação das celebridades frente às acusações de estupro

A atriz Taís Araújo, após a repercussão da notícia, pediu nas redes sociais “que nenhuma violência contra a mulher seja tolerada e fique impune”.

Já a apresentadora Titi Muller comentou, em seu perfil, disse que não conseguiu terminar de ler a matéria. “Que horror”, escreveu.

Patricia Pillar se manifestou de forma indignada a respeito do machismo que veio à tona com os casos. “É assustador o que está por trás da mentalidade machista criminosa desse tipo de gente!”, pontuou.

Juíza nega medidas cautelares apresentadas contra Felipe Prior

As advogadas haviam entrado com pedidos de medidas protetivas para que Prior fosse impedido de manter contato com as três mulheres por qualquer meio de comunicação, com a intenção de protegê-las. Porém, o pedido foi negado pela a juíza Patrícia Álvares Cruz, do Foro Criminal da Barra Funda.

A magistrada recomendou que o Ministério Público abra uma investigação para apurar as denúncias. Segundo a assessoria de imprensa do MP-SP, foi solicitada a abertura de um inquérito para investigar as denúncias.

Globo estuda cancelar participação de Prior no Fantástico

Após a repercussão, o colunista Léo Dias, do UOL, divulgou que a alta cúpula da TV Globo está acompanhando o caso e que estuda suspender a participação de prior no Fantástico do próximo domingo. 

Segundo Dias, Prior seria tema de uma reportagem para falar sobre como foi sair de um confinamento, no Big Brother Brasil, e entrar em outro devido à pandemia de coronavírus e o aumento de casos no Brasil.

No Jornal Nacional, foi divulgada uma nota da Rede Globo dizendo que cabe às autoridades “apuração rigorosa de denúncias como essas” e que a emissora ”é veementemente contra qualquer tipo de violência, como se percebe diariamente em seus programas jornalísticos e mesmo nas obras do entretenimento, e entende que cabe às autoridades a apuração rigorosa.”

Qual a punição para o crime de estupro no Brasil?

NurPhoto via Getty Images
Cerca de 180 estupros por dia acontecem no Brasil.

Em 2018, o Brasil atingiu o recorde de registros de estupros - um crime marcado pela subnotificação. Foram 66 mil vítimas, o equivalente a 180 estupros por dia. O dado pertence ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública, realizado pelo FSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Este é o maior número deste tipo de crime desde o início da série do relatório, em 2007.

“Esse aumento [de registros] acontece porque o tema da violência de gênero entrou na agenda da imprensa, do Judiciário e do movimento feminista. Hoje as mulheres estão mais seguras para falar, o que estimula a denúncia”, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do FSB ao HuffPost Brasil.

O crime de estupro está tipificado no artigo 213 do Código Penal como crime hediondo e consiste em “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”.

A pena é de 6 a 10 anos de reclusão, com a possibilidade de ser aumentada se o crime for cometido contra menores ou levar à morte da vítima. Neste último caso, o agressor pode chegar a cumprir até 30 anos de prisão se condenado.