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03/04/2020 20:39 -03

Confusão sobre primeiro caso de coronavírus no Brasil foi erro de digitação, diz Mandetta

Ministro da Saúde admitiu que é possível que o vírus circulasse no País antes de fevereiro e questionou confiabilidade de informações da China.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou nesta sexta-feira (3) que a confusão sobre a data do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil foi causada por um erro de digitação. Ele admitiu, contudo, que é possível que o vírus estivesse em circulação no País antes da primeira confirmação oficial, feita em 25 de fevereiro. 

Nesta quinta-feira (2), o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, afirmou que o primeiro caso da covid-19 no Brasil ocorreu em 23 de janeiro em Minas Gerais, com base em investigação retrospectiva. A vítima foi uma mulher de 75 anos. “Havia circulação inicial de casos já no final de janeiro de 2020, como caso importado”, afirmou em coletiva de imprensa.

No dia seguinte, a pasta voltou atrás. “O Ministério da Saúde foi comunicado pela Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais nesta sexta-feira (3) sobre a conclusão de investigação do possível primeiro caso de covid-19 no Brasil. A informação de início dos sintomas foi alterada de 23/1/2020 para 25/3/2020. Os dados no sistema de notificação estão sendo atualizados”, informou, em nota.

Mandetta lembrou que, até cerca de um mês, o Ministério da Saúde checava os casos suspeitos informados pelos estados e municípios. O fim dessa checagem foi determinado devido ao avanço da pandemia. “Em situações normais, no início do coronavírus, a gente revisava um por um. Checava. Via o nome, idade, se estava preenchido certo, a data do início dos sintomas”, lembra.

De acordo com o ministro, “na consolidação de dados, veio esse caso com essa data. Quando chama atenção, o Ministério da Saúde foi revistar. Quando questionada, a Secretaria Estadual de Saúde de Minas falou ‘realmente foi um erro de digitação. Esse dado é de março’.”

Andre Coelho via Getty Images
Após admitir que primeiro caso de coronavírus foi registrado em 23 de janeiro, Ministério da Saúde voltou atrás.

Mandetta questiona confiabilidade de números da China

Ao comentar a controvérsia, Mandetta questionou as informações divulgadas pelo governo chinês, local de início da pandemia. “É possível que nós tenhamos tido casos de pessoas com coronavírus aqui em janeiro, em dezembro, até antes. A China fez uma maneira de notificar essa doença muito atípica. Isso ainda vai ter de ser muito melhor explicado. Talvez, se tivéssemos tido melhores informações, muitas vidas poderiam ter sido salvas”, disse.

O ministro lembrou que os primeiros casos de morte, de origem desconhecida, na cidade de Wuhan, foram registrados oficialmente em 8 de dezembro. Isso significa que o vírus já circulava antes em um país com cidades com milhões de habitantes. “Quer dizer que essas cidades todas não  tiveram abalos nos sites de saúde? Essa era a imagem que passaram para o mundo”, disse.

De acordo com Mandetta, essas informações levaram o Brasil a se preparar para um cenário que poderia ser controlado por meio de bloqueios pontuais e medidas de higiene. “De repente, ele [novo coronavírus] chegou no mundo ocidental, onde a imprensa é livre, onde os números são livres, onde o comportamento similar é mais similar ao nosso, e caiu o sistema de saúde da Itália, da Espanha, da França, da Alemanha, da Inglaterra”, afirmou.

“Se esses sistemas de saúde ocidentais caíram igual a um efeito dominó frente a esse vírus, então esse não é um vírus pesado, lento, igual os chineses mostraram. Esse é um vírus muito competente para transmitir, e pode causar um impacto muito agudo no sistema de saúde”, completou o titular da Saúde.

‘Dias difíceis’ para o Brasil

Ao comentar o cenário nacional, Mandetta destacou preocupação com alguns centros urbanos: São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus e Brasília. “Não existe superar sem dor. Serão semanas duras. Serão dias difíceis. Não estamos aqui para tampar o sol com a peneira não. Mas faremos com o máximo da nossa inteligência, com o máximo do nosso denodo, sempre pensando no paciente, sempre pensando na preservação do maior número de vidas”, disse.

O número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil chegou a 9.056, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta sexta. O número de mortes é de 359. A taxa de letalidade é de 4%.

Entre as preocupações em território nacional, o ministro pediu que ONGs (organizações não governamentais) e igrejas que trabalham com a população indígena evitem contato devido ao quadro imunológico desse grupo, ao comentar a situação na capital amazonense. “A história do contato de brancos e indígenas é de paginas muito tristes”, afirmou, ao lembrar mortes por sarampo que atingiram indígenas brasileiros no passado.

Quanto aos equipamentos para hospitais, o ministro admitiu que foi frustrada uma compra de 680 respiradores para o Nordeste. “Continua muito difícil em temos de abastecimento”, disse. Ele lembrou, mais uma vez, das dificuldades logísticas do comércio mundial.

O titular da Saúde também voltou a explicar a importância da redução das atividades econômicas para não sobrecarregar o sistema de saúde. “A recomendação agora de diminuir a atividade social, de diminuir a dinâmica social - nem chamo isso de isolamento ou quarentena - isso é uma redução na atividade”, afirmou. “Segurem. Não deixem entrar em espiral antes de o sistema estar mais preparado para atender”, completou.