Como falar sobre suicídio pode salvar vidas e diminuir o tabu sobre transtornos mentais

Entenda algumas formas de tratar do assunto no dia a dia da maneira mais adequada, sem preconceitos.

Aviso: este artigo trata de questões como suicídio, depressão, ansiedade, entre outros transtornos mentais. Se você precisar de ajuda urgente, procure um amigo, familiar ou conhecido. Você também pode ligar para o CVV, o Centro de Valorização da Vida, no número 188 ou buscar atendimento por chat no site cvv.org.br

De repente parece que nada mais faz sentido. Os problemas, sofrimentos, tristezas, pensamentos ruins, parece que nunca vão ter fim, vão te sobrecarregar pra sempre e a única solução é acabar com a vida. Esse sentimento passa pela cabeça de muita gente — pode ter passado inclusive pela sua. Mas saiba que as coisas não têm de seguir por esse caminho... Você precisa de ajuda e não está sozinho nessa.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio. Entre os jovens de idade entre 15 e 29 anos, essa é a segunda maior causa de morte. Cada número que compõe a estatística oficial é uma tragédia que atinge famílias e comunidades inteiras. E parte de tudo isso pode ser evitado se falarmos cada vez mais sobre depressão, ansiedade, transtornos mentais e mesmo suicídio sem tabus.

Você precisa falar sobre seus sentimentos, botar pra fora o que está te afligindo e entender que pode ter algum tipo de transtorno mental. E que está tudo bem.

“Existe muito tabu em se falar em transtornos mentais em geral, muita gente nem gosta de usar esse termo. Ninguém quer ser tachado como um doente mental, e isso também tem muito a ver com a questão do suicídio”, explica a psiquiatra Giuliana Cividanes, mestre em psiquiatria pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Por não falar sobre o que sente, muita gente sofre tanto a ponto de encontrar no suicídio a única saída para resolver um problema. Por isso é preciso se abrir.

A enfermeira da família Marina Rosito, que trabalha para a plataforma Cuidas, que conecta empresas com profissionais de saúde de família, já atendeu pacientes com ideação suicida e pacientes no momento que chegaram a consumar o ato. Ela corrobora com a ideia de que ainda existe tabu e estigmas.

“Tem muitas falas de pessoas que querem suicidar, então outros olham e dizem que a pessoa quer chamar atenção, que é frescura, que a pessoa é mimada. Tem muito preconceito envolvido, essa resistência de achar que não tem o problema, que não é algo relacionado com a saúde mental”, exemplifica.

“Já apregoou-se por aí que não se podia falar sobre suicídio porque todo mundo iria ter vontade de se suicidar. Existe, sim, o que a gente chama de efeito espelho, quando se romantiza”, detalha a psiquiatra Giuliana.

“A gente quer dizer que as pessoas não podem ser proibidas ou desencorajadas a falarem de suas dores. Só quando você fala, é ouvido, entende, é capaz de buscar ajuda.”

- Giuliana Cividanes, psiquiatra

Isso é o que se chama de prevenção em saúde mental. Quando os pensamentos ruins ficam guardados, fechados, o sofrimento só aumenta. E estamos falando de uma doença que tem cura.

“Durante muito tempo foi atribuído aos transtornos mentais não uma condição de doença, mas uma condição de caráter, de fraqueza, incapacidade. Falava-se que fulano era desocupado. ‘Dá um tanque de roupa pra lavar pra ver se a depressão não passa’, ‘depressão é coisa de rico, pobre não tem depressão’, o que é absolutamente mentira. Qualquer transtorno psiquiátrico é muito democrático, não escolhe raça ou classe econômica. Pode nascer em qualquer país do mundo e correr o risco de ter depressão ou outro transtorno mental”, afirma Giuliana.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, afirma que o preconceito ainda é uma triste realidade. “As pessoas menosprezam os transtornos psiquiátricos e não os encaram como doenças, como enfrentam a diabetes e patologias cardiovasculares”, compara.

Em entrevista ao HuffPost, Silva reflete sobre o papel das religiões no tabu envolvendo o diálogo sobre a violência contra si próprio. “O suicídio é, ainda hoje, considerado um tabu por questões religiosas, morais e culturais, encarado como um ‘pecado’, talvez o pior deles. Por isso, ainda temos medo e vergonha de falar publicamente sobre o tema – e esse preconceito não desaparece sem o esforço de todos nós.”

O suicídio é a 2ª principal causa de morte entre os jovens 15 a 29 anos no mundo, segundo a OMS.
O suicídio é a 2ª principal causa de morte entre os jovens 15 a 29 anos no mundo, segundo a OMS.

A enfermeira Marina Rosito acredita que o tratamento de saúde mental é algo multidisciplinar, no qual as pessoas precisam ser vistas por completo. Então é necessário levar em consideração hábitos de vida, histórico familiar e alimentação. São questões que também impactam na saúde mental. “Todas essas coisas podem causas problemas nos indivíduos. Muito comum aparecer com sintomas físicos e quando a gente investiga mais descobre que tem outras questões relacionadas à saúde mental.”

Ela cita como exemplo uma dor de cabeça, algo que pode parecer simples, mas que, dependendo do caso, é muito mais sério, que pode ser uma sobrecarga no trabalho, reflexo de questões de relacionamento, soluções que vão além de um medicamento.

O médico János Valery Gyuricza, head da startup Cuidas, conta que muitas vezes os pacientes não compreendem que a ansiedade pode necessitar de um tratamento mais aprofundado e cuidadoso.

Em muitas situações, os pacientes buscam por um problema físico, relata Gyuricza. “Se é um hipertireoidismo que está te deixando ansioso, é mais fácil de tratar, mas às vezes não é isso; é preciso quebrar o preconceito”, pondera.

Como ele trabalha com o atendimento primário, que depois segue para especialistas, muitas vezes encontra resistências dos pacientes com os próprios encaminhamentos. Nesse caso, há necessidade de um trabalho de convencimento do paciente para tratar sua saúde mental.

Como faz o acompanhamento direto e atendimento de urgências com vários pacientes, Marina Rosito conta que já trabalhou com suicídio em vários momentos, inclusive atendendo pacientes no curso do ato. Depois de preservar a vida da pessoa, começa o trabalho de transformar em pacto pela vida, para que o paciente entenda o que aconteceu, como aconteceu, para que não se repita.

Para ela, entretanto, o melhor caminho é o da prevenção. “Nesse momento, a gente dá esse espaço seguro para falar. É isso que a gente precisa fazer; tornar o sofrimento algo concreto pois quando está no campo das ideias é insolúvel e eu não consigo resolver.”

Cuidar da saúde mental e conversar sobre isso são atos fundamentais para a prevenção do suicídio.
Cuidar da saúde mental e conversar sobre isso são atos fundamentais para a prevenção do suicídio.

Como falar sobre saúde mental nas redes sociais

O Setembro Amarelo começou em 2014 no Brasil por iniciativa da ABP e do Conselho Federal de Medicina (CFM). A escolha por este mês ocorreu porque no dia 10 de setembro é o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, criado pela OMS em 2013.

Desde que a campanha passou a mobilizar as redes sociais, as pessoas têm falado mais, escrito mais e publicado mais conteúdos sobre o assunto. Isso é muito importante, mas precisa ser feito de maneira adequada. A melhora dessa comunicação é uma das missões do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio

“É fundamental que a gente saiba como falar sobre suicídio. Dependendo da forma como a gente fala, a gente pode ajudar até a diminuir o número de casos, aumentar a consciência pública e diminuir o tabu. Pode ajudar alguém em sofrimento, alguém que perdeu outra pessoa e alguém que está em dúvida se busca ajuda ou não”, explica a doutora Karen Scavacini, à frente do Vita Alere.

O instituto já desenvolveu 4 manuais sobre o tema, com distribuição gratuita na internet. São eles: Orientações e Cuidados ao Luto por Suicídio; Como Falar de Forma Segura sobre Suicídio; Prevenção ao Suicídio na Internet para Adolescentes; e Prevenção ao Suicídio na Internet para Pais e Educadores. Baixe os manuais neste link.

Separamos abaixo alguns itens apontados nos manuais sobre o que pensar antes de postar sobre suicídio na internet e o que não fazer de jeito nenhum.

ANTES DE POSTAR

  • Reflita sobre o que você quer comunicar e o porquê.
  • Lembre-se que sua mensagem pode rapidamente atingir milhares de pessoas e influenciá-las. Dependendo do conteúdo e da forma, ela pode ajudar mais e ser mais segura e efetiva.
  • É importante se colocar no lugar de quem verá sua publicação ou vídeo; imagine que essa pessoa está em sofrimento ou perdeu alguém para o suicídio. Como ela poderia reagir à sua publicação?
  • Você pode resolver gravar algo sobre o assunto de forma espontânea, mas é essencial revisar o conteúdo e pensar na segurança e utilidade dele antes de postar.

O QUE NÃO FAZER

  • Jamais publique ou compartilhe fotos da cena do suicídio, com a pessoa morta ou mostrando o método (ferramenta utilizada, sangue no chão etc).
  • Jamais publique ou compartilhe vídeos de suicídio.
  • Não publique fotos do velório ou do desespero dos pais e amigos. Não publique foto do local da morte (ponte, casa etc).
  • Não coloque fotos de cortes, cicatrizes ou meios de suicídio.
  • Evite colocar fotos de pessoas em desespero e aflição, já que elas podem reforçar estereótipos. Nada de ser sensacionalista e colocar conteúdo gráfico desnecessário.
  • Não relacione o suicídio com crime, pecado, coragem ou falta de religião.
  • Não coloque o suicídio como uma saída viável para os problemas.
  • Não relacione o suicídio a um evento único, como a perda de um emprego ou de um relacionamento.
  • Não fale em suicídio bem-sucedido ou denote que a pessoa encontrou a paz ou acabou com a sua dor.
  • Nada de piadas sobre suicídio ou transtornos mentais.
  • Sem declarações que tirem a esperança da pessoa conseguir melhorar.
  • Não contribua para a estigmatização e o preconceito relacionado a pessoas com transtornos mentais e a psiquiatras e psicólogos

“Mesmo os profissionais muitas vezes não percebem pois a pessoa disfarça tanto, esconde tanto, porque ela não quer que ninguém saiba, quer se livrar do sofrimento que está dentro dela sem afetar as pessoas que ela ama.”

- Giuliana Cividanes, psiquiatra

E o que fazer quando você percebe que alguém pode estar pensando em se suicidar?

O comportamento de pessoas suicidas vem atrelado a sinais importantes de que alguma coisa não está bem. Por exemplo, quando a pessoa começa a se sentir inútil, culpada, incapaz e desinteressada, ela pode se isolar, diminuir a produtividade, recusar convites de amigos e buscar o isolamento.

As redes sociais também podem indicar esse caminho, quando a pessoa começa a postar coisas tristes, depressivas, sem esperança e com muita revolta. Se você algum dia perceber alguns desses sinais em alguém, deve se mostrar presente e buscar ajuda.

Outro sinal bastante claro, mas nem sempre levado a sério, ocorre quando em uma briga, num momento de raiva e tristeza, uma pessoa diz como se fosse da boca pra fora: “eu vou me matar”. É comum outras pessoas acharem que essa é uma frase para chamar atenção, que a pessoa não quer morrer na verdade.

“Pode até ser, a pessoa está tão angustiada, deprimida e sozinha que ela quer fazer um ato desesperado para chamar atenção. Uma pessoa que faz um ato desse não está muito sã, uma pessoa que está saudável e quer chamar atenção faz outra coisa, não vai tentar se machucar”, explica Scavacini.

É neste momento que vem a importância de acolher, ouvir o que o outro tem a dizer, ter empatia e se colocar à disposição. A psiquiatra Giuliana Cividanes diz que ninguém precisa agir como se fosse um profissional de saúde, mas pode ajudar a pessoa a buscar um médico, a ir a um pronto-socorro, ouvir sem julgar.

“Nem que seja pra falar ‘eu seguro a sua mão e fico aqui a noite inteira até você melhorar’. Eu falo que à noite todos os fantasmas saem dos armários. Às vezes uma pessoa muito angustiada e que está sofrendo muito à noite, se ela tem uma companhia que vá com ela até de manhã, ela já acorda melhor, essa ideia vai embora. Só o fato de existir, estar lá naquele momento, eu já estou ajudando”.

Mas a doutora Cividanes também lembra que nem sempre isso é possível. “Mesmo quem está muito próximo e ama muito pode não perceber. Quando você vai ver, a pessoa já se matou. Os familiares e amigos também não podem se culpar, pois às vezes os sinais são bem claros, às vezes não são. E mesmo os profissionais muitas vezes não percebem pois a pessoa disfarça tanto, esconde tanto, porque ela não quer que ninguém saiba, quer se livrar do sofrimento que está dentro dela sem afetar as pessoas que ela ama. E fica difícil perceber esse ato suicida.”

O apoio de um amigo ou familiar pode ser essencial para dissuadir a ideação suicida de uma pessoa.
O apoio de um amigo ou familiar pode ser essencial para dissuadir a ideação suicida de uma pessoa.

10 sinais de que algo não está bem com você

  • Tristeza persistente
  • Preferir ficar isolado
  • Perder o interesse por atividades de que gostava antes
  • Irritação ou agressividade mesmo sem motivo
  • Tédio constante
  • Dizer frases como: “Eu sou burro”, “As coisas NUNCA dão certo para mim”
  • Pensar com frequência em morte
  • Achar que os outros ficarão melhor depois da sua morte
  • Achar que você é um problema para todos
  • Achar que nada e ninguém pode ajudar você

Os itens são do manual Prevenção ao Suicídio na Internet, do Instituto Vita Alere.

A importância de ter uma rede de apoio

Ter quem te ajude a cuidar da saúde mental é uma das coisas mais importantes envolvidas no processo do tratamento. Essa rede é formada por parentes, amigos, familiares e colegas de trabalho; todo mundo envolvido na sua rotina tem seu papel.

Essa convivência, essas pessoas, formam a proteção para todos os transtornos mentais, não só para o suicídio. “Pessoas que são articuladas socialmente, têm mais relações sociais, amizades, frequentam grupos, têm turmas, um entrosamento maior com a família, têm muito menos chance de desenvolver um transtorno mental e de vir a ter ideias suicidas do que aquelas pessoas que são mais solitárias”, explica a psiquiatra Giuliana Cividanes. Por isso é importante saber como falar de saúde mental, como abordamos aqui neste texto, e também ter empatia e estar aberto para ouvir quem está sofrendo sem julgamentos nem juízos de valor.

O médico János Valery Gyuricza lembra que muitas vezes a pessoa pensou em atos suicidas justamente por não ter uma rede de apoio. “São pessoas que passam por abandono, relações familiares difíceis. A ideação não surge do nada, surge muitas vezes pelo vazio existencial. Ter boas relações sociais, pais e mães que tratam com carinho, afeto e respeito é uma forma. Quando a gente acolhe, a gente dá o primeiro nó na rede.”

Esse primeiro nó é o início da reconstrução de uma nova relação entre as pessoas, mas é importante não colocar dentro da rede justamente quem traz o sofrimento para o paciente, como um tio, um primo ou mesmo até a mãe, se esse for o caso, lembra János.

A importância de falar sobre saúde mental também entra aqui, pois cada pessoa precisa construir a sua ponte, pedir ajudar, falar com os amigos.

“Quem nunca teve vontade de desaparecer? Então é importante saber que as pessoas podem pedir ajuda, que precisam pedir ajuda, que não é errado pedir ajuda, que não é errado sofrer. Avisa as pessoas que você está em sofrimento, vai na casa dos outros pra chorar, faz isso. A gente precisa se mobilizar neste sentido de que o sofrimento faz parte da nossa vida, mas não significa que precisa engolir as coisas”, alerta a enfermeira Marina Rosito.

“É importante saber que as pessoas podem pedir ajuda, que precisam pedir ajuda, que não é errado pedir ajuda, que não é errado sofrer. Avisa as pessoas que você está em sofrimento, vai na casa dos outros pra chorar, faz isso.”

- Marina Rosito, enfermeira Saúde da Família

O exemplo de João Carlos Martins

A campanha Falar Pode Mudar Tudo levanta a bandeira de que é preciso falar constantemente sobre saúde mental e buscar ajuda quando preciso. Durante o mês de setembro e por causa do movimento Setembro Amarelo, a campanha produziu uma série de conteúdos voltados para a desmistificação da doença.

Em um deles, com o maestro João Carlos Martins, um dos músicos brasileiros mais famosos e conhecidos do mundo, dá em vídeo um depoimento que exemplifica muito bem como o suicídio é algo muito sério, que atinge todas as faixas etárias e classes sociais. Por isso, precisa ser falado e tratado. Veja o depoimento: