Projeto pagou inscrição do Enem para 386 estudantes negros em 8 dias

Pretos no Enem surgiu nas redes sociais e em poucos dias conseguiu pagar a inscrição de 386 estudantes. E parece que é só o começo dessa história.

Uma semana antes de se encerrarem o prazo estendido para o pagamento das inscrições do Enem 2020, a publicitária Lyara Vidal foi impactada por uma notícia. Com prazo quase esgotado, 300 mil pessoas ainda não tinham feito o pagamento da fatura da prova.

Por causa da pandemia de coronavírus, o Ministério da Educação tinha prorrogado o prazo final do pagamento. De repente, Lyara não quis só passar a notícia pra frente como resolveu tomar uma atitude.

Alguns tuítes depois, e com ajuda de um grupo de amigos, o que era pra ser uma grana saindo do bolso dela acabou virando um projeto, nasceu assim o Pretos no Enem.

A ideia era ajudar estudantes negros com a inscrição feita mas sem condição de pagar a taxa no valor de R$ 85,00. O grupo de amigos cresceu, se transformou numa turma com 70 voluntários que trabalharam por 8 dias para divulgar a ideia e ajudar o maior número possível de estudantes.

Ao final, foram 386 estudantes tiveram suas inscrições pagas e vão ter a chance de fazer a sonhada prova (ainda sem data para acontecer, por causa da pandemia do novo coronavírus). Além disso, 32 mil pessoas se voluntariaram para participar do projeto.

Em entrevista ao HuffPost, Lyara conta que não esperava tamanha mobilização nas redes sociais: “A gente não esperava de jeito nenhum que fosse ficar assim. Só que a partir do momento em que percebemos que aquilo tinha potencial para crescer e alcançar pessoas, nós fizemos o melhor que podíamos para deixar essa iniciativa o maior possível”.

O projeto foi divulgado por clubes de futebol, celebridades, jornalistas e influenciadores em diversas redes sociais. “Alcançamos muita gente, tivemos o apoio de líderes comunitários, cursinhos populares, muitos famosos, artistas e jornalistas. A gente ficou muito feliz e com a sensação de dever cumprido em um curto espaço de tempo.”

Lyara afirma que a proposta era muito mais modesta se comparada ao resultado alcançado. “Falei muito para os outros voluntários que se a gente tivesse ajudado um jovem preto ou indígena a entrar na faculdade tudo isso já teria valido a pena. Se houver uma outra oportunidade, vamos querer levar isso mais além.”

Ela relata também que os voluntários conheceram com detalhes as histórias dos 386 estudantes. “Nós conseguimos acompanhar individualmente cada um desses alunos, conhecer a história deles e prestar atenção no que eles precisavam. Sentimos que ele [o projeto] poderia ser bem maior.”

O grupo já está trabalhando nos próximos passos do projeto, ao mesmo tempo em que nas redes sociais atualizam os perfis com dicas sobre o Enem, vestibulares e cursinhos gratuitos.

“Estamos conversando com alguns órgãos e pessoas que possam ajudar a gente a entender as necessidades dos jovens, para a gente tomar uma ação concreta. Estamos na fase de pesquisa. No futuro vamos estabelecer contato com o banco de voluntários e seremos transparentes com nossos padrinhos em potencial”, explica Lyara.

Para finalizar nossa conversa, perguntei para a Lyara uma ou mais histórias que a marcaram em meio aos 386 estudantes contemplados pelo Pretos no Enem:

Algumas saltaram aos nossos olhos. Eu lembro muito da história de um cabeleireiro um pouco mais velho, que estava sem conseguir trabalhar por causa da pandemia e tinha se inscrito no Enem porque quer mudar de vida. Outra que eu lembro muito é de uma mãe que tem um filho no semi-aberto e fez uma inscrição para ela e para o filho, para darem esse passo juntos rumo à universidade. Eu fiquei muito emocionada com essa história dessa mãe e desse filho que vão conseguir fazer essa prova”.

Outra história marcante foi da jornalista e âncora do ‘Jornal Hoje’ Maria Julia Coutinho, que apadrinhou o projeto e a Maria Eduarda, uma estudante de 16 anos que vai prestar história. “Eu pedi para Maju mandar um vídeo para a Maria Eduarda desejando coisas boas. De fato, significa muito para uma menina adolescente preta de 16 anos ver uma preta que está no topo mandar uma mensagem encorajadora para você. Eu tenho certeza que uma não vai esquecer da outra. A Maria Eduarda vai lembrar da Maju pra sempre, não importa o caminho que ela siga.”