NOTÍCIAS
23/08/2019 10:59 -03 | Atualizado 23/08/2019 11:04 -03

Pressão internacional por proteção à Amazônia cresce e Bolsonaro reage

Desmatamento na Amazônia será debatido pelo G7 e acordo do Mercosul com a União Europeia está em risco.

ISABEL INFANTES via Getty Images
Manifestantes na França repudiam desmatamento na Amazônia, que será discutido pelo G7 no país neste fim de semana.

O aumento do desmatamentona Amazônia, com queimadas sucessivas nos últimos dias, chamou atenção de líderes mundiais, e o governo de Jair Bolsonaro reagiu em tom de confronto. 

Nesta sexta-feira (23), o porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, declarou que os incêndios constituem uma “situação urgente” que deve ser discutida durante a cúpula do G7 neste final de semana.

O debate foi um pedido do presidente francês, Emmanuel Macron, feito nesta quinta-feira (22). Em publicação no Twitter com imagem antiga da floresta em chamas, ele destacou o impacto ambiental da Amazônia para o planeta.

“Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica - os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta - está em chamas. É uma crise internacional. Membros da Cúpula do G7, vamos discutir em dois dias este tema emergencial!”, diz o texto.

Líderes de outros países que integram o G7, como o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, endossaram o discurso de Macron.

Integrante do parlamento europeu, o político belga Guy Verhofstadt também chamou atenção para o tema. “Os incêndios na Floresta Amazônica são nossa preocupação. Esta questão deve ser discutida pelos líderes do G7 neste fim de semana e uma ação internacional precisa ser tomada”, afirmou.

O encontro da cúpula do G7 começa neste sábado (24) em Biarritz, sudoeste da França.

Organizações ambientalistas com atuação internacional também têm pressionado países europeus a não aprovarem os termos do acordo entre Mercosul e União Europeia assinado em julho. Essa etapa é obrigatória para as trocas comerciais serem concretizadas.

Nesta sexta, Macron se declarou contra o acordo. “Dada a atitude do Brasil nas últimas semanas, o presidente da República só pode constatar que o presidente Bolsonaro mentiu para ele na cúpula (do G20) de Osaka”, declarou o palácio do Eliseu, destacando que “o presidente Bolsonaro decidiu não respeitar seus compromissos climáticos nem se comprometer com a biodiversidade”.

O primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar, também ameaçou votar contra o acordo. “De maneira nenhuma, a Irlanda votará a favor do acordo de livre comércio UE-Mercosul se o Brasil não cumprir seus compromissos ambientais”, declarou em comunicado divulgado na quinta-feira à noite.

ASSOCIATED PRESS
Reunião do G7 no fim de semana irá discutir queimadas na Amazônia.

Há 4 meses, a comunidade científica internacional enviou uma carta à União Europeia em que pede a imposição de sanções comerciais ao Brasil em caso de descumprimento de compromissos ambientais. O documento contou com a assinatura de 602 cientistas de todos os 28 países membros da União Europeia.

O aumento do desmatamento também chamou atenção da ONU (Organização das Nações Unidas). Nesta quinta, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse estar extremamente preocupado com com os incêndios na floresta amazônica.

Bolsonaro critica líderes mundiais

Em reação à mobilização internacional, o presidente Jair Bolsonaro chamou a postura de Macron de “sensacionalista” e disse que “evoca mentalidade colonialista descabida no século 21”. De acordo com ele, o governo brasileiro ”segue aberto ao diálogo, com base em dados objetivos e no respeito mútuo”. 

Nesta semana, Bolsonaro acusou ONGs de terem provocado os incêndios na Amazônia. No início do mês, o então presidente do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Galvão, pediu demissão após o governo desacreditar dados científicos de monitoramento do desmatamento.

Entre janeiro e 21 de agosto, o Inpe registrou 75.336 foco de incêndio, 84% a mais do que no mesmo período de 2018. Segundo ambientalistas, a multiplicação dos incêndios ocorre devido ao rápido avanço do desmatamento na região amazônica, que em julho quadruplicou em relação ao mesmo mês de 2018, segundo dados do Inpe.

Nesta sexta, o presidente disse que a “tendência” é que o governo federal envie as Forças Armadas para combater incêndios na região amazônica. Ele se reúne com ministros pela tarde para discutir o tema. Na quinta, Bolsonaro editou decreto determinando que todos os ministros façam levantamentos sobre os incêndios na Amazônia e adotem medidas para preservar a floresta.

Em transmissão ao vivo no Facebook na noite desta quinta, o presidente voltou a criticar as ONGs e chamou de ataque à soberania nacional a movimentação estrangeira. ”ONGs não trabalham para o bem do Brasil, mas para quem paga”, declarou. “Esses países não mandam dinheiro por caridade. Espero que dê para entender isso daí. Mandam com interesse. Para atingir a nossa soberania”, completou.

Filho do presidente e indicado por ele para assumir a embaixada do Brasil em Washington, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) publicou um tuíte na noite desta quinta com a frase “Recado para [o presidente francês Emmanuel Macron” e um vídeo com o título “Macron é um idiota”. 

O vídeo foi publicado pelo youtuber Bernardo Kuster em 3 de dezembro de 2018, em meio ao movimento dos “coletes amarelos” na França.

Integrantes do governo também criticaram a reação internacional. Nesta quinta, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que o discurso dos países europeus é uma política para criar barreiras ao Brasil.

“Os europeus usam a questão do meio ambiente por duas razões: a primeira para confrontar os princípios capitalistas. Porque desde que caiu o muro de Berlim e desde que a União Soviética fracassou, uma das vertentes para qual a esquerda europeia migrou foi a questão do meio ambiente. E a outra coisa é para estabelecer barreiras ao crescimento e ao comércio de bens e serviços do Brasil”, afirmou a jornalistas, após o evento Brasil de Ideias, em São Paulo.