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02/08/2019 16:34 -03

Ricardo Galvão deixa a diretoria do Inpe preocupado com interferências no órgão

Após irritação de Bolsonaro com divulgação de dado sobre desmatamento, diretor do Inpe será exonerado. Oposição vê ato como escalada autoritária.

Adriano Machado / Reuters
Tanto Bolsonaro quanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, contestam dados do Inpe. 

O engenheiro Ricardo Galvão anunciou nesta sexta-feira (2) que será exonerado do cargo de diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) por causa da indisposição com o presidente Jair Bolsonaro, Mesmo sem nenhuma evidência científica, Bolsonaro questionou os dados de desmatamento divulgados pelo órgão, disse não acreditar na metodologia do instituto e que os números são mentirosos.

Além disso, o presidente ficou indignado porque não foi consultado antes de a informação se tornar pública.

Constrangido com as falas e o descrédito do presidente em relação ao Inpe, Galvão chegou a rebater. Disse que o instituto era sólido e que resistiria às queixas de Bolsonaro.

O posicionamento do chefe do Executivo fez com que Galvão fizesse um apelo ao ministro da Ciência, Tecnologia e Informação, Marcos Pontes. Ao negociar sua exoneração, pediu para que não houvesse interferência na linha de trabalho do órgão e mais investimento.

“Eu tinha uma preocupação muito grande que isso ia respingar no Inpe. Isso não vai acontecer. O ministro (Marcos Pontes), inclusive, nós discutimos em detalhe como vai ser a continuação da administração do Inpe, agora é claro, diante do fato, a maneira como eu me manifestei com relação ao presidente, criou-se um constrangimento que é insustentável. Então eu serei exonerado”, disse Galvão.

O dado que gerou o debate foi indicador do desmatamento na Amazonia em junho. Imagens de satélites monitoradas pelo Sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), do Inpe, mostraram que houve um avanço de 88% no desmatamentoem comparação ao mesmo período do ano anterior.

Para Bolsonaro, o índice não condiz com a realidade e atrapalha a imagem do País no exterior. “Tem um gato aí, alguma coisa aconteceu. E a desconfiança nossa é que os  dados [divulgados] são alertas de desmatamento. E alerta não é desmatamento.”

Galvão confirma o dado e diz que o ministro Marcos Pontes também “concorda inteiramente”. “Ele sabe como são os dados do Inpe. Foi só uma questão simples de comunicação que houve e que nós esperamos corrigir. Nós temos que aprender com os erros e temos que corrigir no futuro”, disse Galvão.

O próprio ministro republicou o post do MCTI com a entrevista de Galvão na qual o engenheiro confirma a veracidade dos números. Bolsonaro, por outro lado, vem dizendo que existe um outro percentual. “A gente espera dar um dado real para você”, disse o presidente a jornalistas ao lado do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

“O Sistema Deter faz um alerta: apareceu uma clareira. Não quer dizer que esteja ilegal. Depois, tem um outro que é divulgado de tempos em tempo que faz a verificação se essa abertura é sobre área legal ou não”, justificou o presidente.

Sem anunciar o novo percentual, Salles reforçou que o indicador divulgado está errado. Disse ainda que a pasta vai abrir uma licitação para contratar um novo sistema de monitoramento. Segundo ele, o Deter será usado apenas para alertas de desmatamento em tempo real no auxílio à fiscalização.

Em outra ocasião, Bolsonaro afirmou ainda que deseja “preservar o meio ambiente mas não vamos entrar na psicose ambiental”.

Reação da oposição

Para o líder da oposição na Câmara, deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), a exoneração faz parte de uma “escalada autoritária” de Bolsonaro. “Ele não aceita ser contrariado, mesmo quando há fatos científicos comprovando que ele está errado. Este foi o caso do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais sobre o desmatamento da Amazônia.”

Molon afirma ainda que a forma como o presidente tem conduzido a política ambiental tem consequências graves, “que não afetam apenas o meio ambiente, mas também a economia e a qualidade de vida das pessoas ―no Brasil e no mundo também”

Doutor em física de plasmas aplicada pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), Galvão estava à frente do Inpe desde 2016. Ele é engenheiro e antes de assumir o instituto era professor da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física, além de membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

O sistema de controle do Inpe é reconhecido mundialmente, com monitoramento diário de desmatamento e detecção de queimadas. As informações divulgadas pelo instituto estão disponíveis ao público no portal TerraBrasilis.