Como posso saber se preciso fazer terapia?

Não é preciso ter um diagnóstico específico para beneficiar-se de terapia.

Para algumas pessoas, a decisão de fazer terapia é fácil. Elas podem ter recebido um diagnóstico de saúde mental e ter percebido que não vão conseguir enfrentar o problema por conta própria. Talvez queiram experimentar uma terapia comportamental cognitiva.

Mas não é preciso ter um diagnóstico específico para beneficiar-se de terapia. “A maioria de nós tem relacionamentos que precisam ser revistos e trabalhados. Quase todos temos hábitos ou comportamentos que gostaríamos de mudar”, explicou a psicoterapeuta Dra. Bronwyn Singleton, de Toronto, que trabalha com indivíduos e com casais, entrevistada pelo HuffPost Canadá.

Ela explicou que há vários elementos em comum que levaram seus clientes a buscar terapia. Continue lendo para saber se a terapia é algo que pode beneficiar a você também.

Você passou por uma grande mudança ou transformação na vida

Segundo estudos que remontam aos anos 1960, transformações de qualquer tipo, mesmo que sejam positivas, podem levar a estresse emocional e físico. Mudanças criam confusão, explica o psicoterapeuta Hans Loewald, porque você se vê de repente em uma situação na qual não sabe o que esperar.

É evidente que você terá seu senso de quem é abalado quando é obrigado a enfrentar mudanças dolorosas, como a morte de uma pessoa querida, descobrir que seu companheiro anda lhe traindo ou receber um diagnóstico médico do tipo que vai alterar sua vida.

Mas às vezes até mesmo transformações positivas podem ser demais para uma pessoa processar, explicou Singleton. Se você estiver se sentindo sobrecarregada ou ansiosa em um trabalho novo ou sobrecarregada com um filho que nasceu há pouco, pode ser boa ideia procurar ajuda. É comum começarmos a duvidar de nós mesmos quando recebemos novas responsabilidades, especialmente no caso de grandes transformações compostas de muitas mudanças menores em nosso dia a dia. Um profissional pode ajudá-lo a lidar bem com uma situação que você pode estar sentindo como insuperável.

Você está repetindo padrões de comportamento ou pensamento pouco saudáveis

Há inúmeros tipos de comportamentos destrutivos – abuso de drogas ou álcool, automutilação, passar fome ou comer compulsivamente, escolher os tipos errados de parceiros românticos, fazer sexo sem proteção ou participar de confrontos violentos.

Todo o mundo dá passos em falso, e praticar de vez em quanto um comportamento arriscado (mesmo por algum período de tempo) que não te beneficia é comum. Mas, quando você não consegue parar de repetir esse comportamento e ele está prejudicando sua capacidade de funcionar bem em seu dia a dia, ou quando está afetando seus relacionamentos de modo negativo, é hora de apertar “pause” e procurar ajuda.

“A terapia pode ajudar você a examinar suas ações, compreender melhor o que as motiva e formular um plano para mudar”, escreveu Singlaton.

Para algumas pessoas, o que está em jogo pode parecer que não é tão importante. Talvez seu comportamento não seja prejudicial, mas seus pensamentos são, e eles são constantes. Se você estiver atolado em um ciclo de sentimentos de vergonha, diálogo interno cruel ou fantasias doentias, há muitas práticas terapêuticas que funcionam para interromper esse ciclo.

“Que prova concreta você tem de que as pessoas a odeiam? Quais premissas são inerentes a esse pensamento?”

A terapia comportamental cognitiva, por exemplo, é sugerida com frequência para pessoas com baixa autoestima ou ideação negativa. A TCC nos convida a identificar pensamentos negativos – por exemplo, “todo o mundo me odeia” – e questioná-los ou submetê-los à “prova da realidade”, nas palavras de Singleton.

Que prova concreta você tem de que as pessoas a odeiam? Quais premissas são inerentes a esse pensamento, e quais são algumas outras explicações possíveis da maneira como você se sente? Quanto mais você praticar esse tipo de questionamento, mais será capaz de desativar esse diálogo interno negativo.

Outra abordagem positiva é a terapia baseada no mindfulness, segundo Singleton. Ela geralmente combina técnicas de TCC com técnicas de mindfulness, como meditação e exercícios respiratórios. Concentrando-se sobre o aqui e o agora, em oposição a se deixar enveredar por pensamentos destrutivos, você pode aprender a “se distrair ou deixar de ficar fixada nesses pensamentos”, ela explicou.

Você sente que sua vida está sendo interrompida por traumas do seu passado

Algumas pessoas que sofrem traumas são afetados por isso de maneiras imediatas e óbvias. Mas o comportamento pós-traumático pode diferir muito de uma pessoa a outra e às vezes é algo mais sutil ou insidioso, segundo o National Institute of Health. Muitas pessoas terão uma combinação de reações imediatas e reações retardadas. E, em alguns casos, essas reações retardadas podem ocorrer muito tempo após o fato que desencadeou o trauma.

Algumas das muitas reações retardadas que pessoas traumatizadas podem sofrer incluem, segundo o NIH: memórias intrusivas ou flashbacks, sentimento de culpa, preocupação com o evento, depressão, distanciamento emocional, perturbações do sono, pensamento mágico como maneira de evitar traumas futuros, sentimento de desesperança.

Não existe uma maneira única de “superar” traumas passados, mas, se o trauma está se manifestando em seu cotidiano – se você não consegue deixar de pensar nisso ou está se isolando por medo de que possa voltar a ocorrer ―, há maneiras de lidar com isso. Segundo a Clínica Mayo, a terapia cognitiva pode ajudar com padrões de pensamento que mantêm você paralisado. A terapia de exposição, também comum nos casos de trauma, confronta a própria memória traumática como forma de ajudar a pessoa a superá-la. Um terapeuta também pode te ajudar a criar um sistema para enfraquecer o pânico e estresse, se essas reações forem recorrentes.

Você tem decisões importantes a tomar

Se você está tendo muita dificuldade em decidir se se divorcia ou não, se tem um bebê ou não ou se deve parar de beber, talvez a decisão seja importante demais para você conseguir tomar sozinha. Em situações como essa, escreveu Singleton, “familiares e amigos podem estar envolvidos demais para poderem lhe dar os melhores conselhos”.

Um bom terapeuta não tomará a decisão por você – isso não cabe a ele. O que ele ou ela fará é trabalhar com você para que você mesma consiga chegar à resposta mais adequada. Um terapeuta lhe oferece apoio, um espaço neutro no qual conversar e as ferramentas necessárias para decifrar o que é que você realmente procura.

O terapeuta pode te ajudar, rompendo o pensamento do tipo “tudo ou nada”. Quando se trata de ter ou não um filho, não existe decisão certa ou errada. Há duas escolhas, ambas as quais podem ser certas, e o que você precisa fazer é descobrir qual é a mais acertada para você. Muitas das opções que fazemos são influenciadas pelas expectativas de nossa família, amigos ou companheiros ou mesmo da sociedade. Um terapeuta pode te ajudar a entender o que pode funcionar melhor para você.

Seu relacionamento parece doentio ou acaba de terminar

Pode ser fácil esquecer ou minimizar quando você não está passando por isso, mas um coração partido pode ser sentido como algo tão sofrido quanto a morte. Isso é normal, disse Singleton, porque “os relacionamentos nos proporcionam identidade e sentido na vida”. Um terapeuta pode ajudá-la a ou fortalecer ou abandonar um relacionamento que não está funcionando bem. Se o relacionamento terminar, o terapeuta pode ajudar, ensinando você a usar técnicas para lidar com o sofrimento.

Um terapeuta também pode te ajudar a examinar os problemas específicos de seu relacionamento. Será que você inconconscientemente sempre procura companheiros que possuem as mesmas qualidades doentias? Você já enfrentou o mesmo tipo de problema em diferentes relacionamentos? Se você tiver a sensação de estar repetindo os mesmos erros, é um sinal de que se beneficiaria da ajuda de um terapeuta.

A terapia de casais também pode ser uma boa maneira de conservar um relacionamento feliz. Não é preciso estar em crise para procurar um terapeuta que possa ajudar você a comunicar-se efetivamente, mostrando a seu companheiro, de uma maneira que faça sentido para ele ou ela, que você se importa com ele ou ela, e lidando com conflitos de maneiras sadias.

Sua saúde física está atrapalhando sua saúde mental

Em situações em que sua saúde física está vinculada a seu estado mental – para coisas como insônia, perda de peso, menopausa, etc. ―, a terapia pode ajudar. “Terapeutas não são médicos”, escreveu Singleton, “mas frequentemente ajudamos nossos clientes a enfrentar doenças que dificultam sua vida, condições médicas crônicas ou temporárias e sintomas ou condições físicas diversas.”

Se uma condição física estiver afetando seu estado mental negativamente – por exemplo, se você estiver convivendo com dor crônica e isso estiver impactando seu estado de humor ―, um terapeuta pode ajudá-lo com mecanismos para enfrentar o problema. Se você sofre de insônia, pode haver razões emocionais por trás do problema. Um terapeuta poderá ajudá-la a lidar com elas.

Você se preocupa com a possibilidade de ter uma doença mental

Se isso é algo que a preocupa, ou se você leu uma lista de sintomas de uma doença específica e acha que ela se aplica a você, marque uma consulta com seu médico ou ligue para um disque-ajuda de saúde mental, o quanto antes. Não há razão por que você ou as pessoas em sua vida devam sofrer desnecessariamente.

Você quer ter a certeza de conservar seu bem-estar mental

Se você não está sofrendo nem sente que está com dificuldades, talvez não sinta que precisa de ajuda psicológica. Mas a maioria das pessoas enfrenta desafios, e nem todo o mundo tem estratégias saudáveis para lidar com o estresse ou a tristeza quando aparecem, inesperados e indesejados. “Fazer terapia é fazer um investimento importante em você mesmo”, diz Singleton.

Se isso é algo do qual você anda pensando, a melhor coisa a fazer é conversar com um terapeuta primeiro. A maioria dos terapeutas aceita um encontro exploratório inicial gratuito, que pode ser pelo telefone; Sinleton disse que ela faz questão disso. Esse contato exploratório inicial dá às pessoas a oportunidade de explicar por que estão querendo fazer terapia e de manifestar qualque dúvida ou desconfiança que possam ter em relação ao processo.

Cuidar da sua saúde mental é crucial – mas ainda existe um estigma em torno da ideia de procurar terapia para cuidar de seu próprio bem-estar. Em nossa série “Isto Pode Ajudar”, vamos explorar como começar a fazer terapia e como fazê-la caber em sua vida e seu orçamento. Vamos responder as perguntas que você anda se fazendo e lhe mostrar como a terapia pode beneficiar a você e às pessoas que você ama. Quer você esteja enfrentando dificuldades ou apenas queira se assegurar de estar no caminho certo, há apoio disponível – que pode ajudar, e muito.

Se você precisar de ajuda agora, peça ajuda. O CVV atende por telefone, chat, e-mail e carta, anote os contatos:

Caso você ou alguém que você conheça precise de ajuda, ligue para o número 188. Ele é gratuito, funciona de qualquer celular ou número fixo.

Você também pode conversar por escrito, por chat ou por e-mail. Veja os caminhos no site cvv.org.br.

Se o seu atendimento não for urgente, você pode enviar uma carta para um posto de atendimento, veja o endereço da sua cidade neste link.

Todos os atendimentos acontecem 24 horas por dia, 7 dias por semana, e são feitos de forma anônima, você não precisa nem falar seu nome para os voluntários caso não queira.

O Centro de Valorização da Vida foi fundado em São Paulo em 1962 como uma associação civil sem fins lucrativos e em 1973 foi reconhecido como Utilidade Pública Federal.

A instituição presta serviço voluntário e gratuito e é muito conhecida por trabalhar com prevenção ao suicídio, mas seu foco é no apoio emocional. São cerca de 3.400 voluntários de 24 estados que realizam por volta de 250 mil atendimentos por mês.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.