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09/11/2019 00:00 -03

Testes indicam que 16 praias de Pernambuco estão próprias para banho apesar de óleo

Exames foram realizados pela UFPE. Governo informou que em outubro havia 47 praias atingidas por petróleo.

Stringer . / Reuters
Voluntários retiram óleo da praia de Muro Alto, em Tamandaré (PE).

Testes realizados pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) mostram que as praias de Pernambuco estão próprias para banho. O litoral pernambucano foi um dos mais atingidos pela mancha de óleo que já atingiu mais de 400 locais no Brasil, de acordo com o Ibama.

O resultado dos exames encomendados pelo governo de Pernambuco foi divulgado nesta sexta-feira (8). Foram analisadas amostras colhidas em 15 praias do estado entre os dias 24 e 26 de outubro e em 16 no dia 31 (as 15 praias da primeira amostra e uma adicional). 

Foi analisada a presença dos componentes tóxicos do óleo de acordo com a resolução número 357/2005 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente): HPAs (hidrocarbonetos policíclicos aromáticos), benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno.

Divulgação/Governo PE
Resultado de testes de contaminação das águas de Pernambuco, após contaminação por óleo.

O ápice das manchas de óleo pelo estado foi a partir do dia 17 de outubro, mas até o início de novembro apenas vestígios de petróleo eram encontrados pelo litoral.

Pernambuco teve, em outubro, 47 praias atingidas por óleo. De acordo com o governo do estado, os locais para recolher amostras foram escolhidos devido à quantidade de óleo. O material foi coletado e levado para análise na UFPE nas localidades em que mais chegou petróleo.

O governo pernambucano também apresentará à população a situação do pescado da região. Há dúvidas sobre a segurança de consumir peixes que dos locais em que ainda pode haver óleo. Ao todo, 150 tipos de peixes e frutos do mar serão enviados à PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) na próxima segunda-feira (11). O resultado sai em 30 dias.

A preocupação se deve ao fato de a própria Marinha e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, admitirem que não há como garantir quanto petróleo ainda há no mar. O que se sabe é que ele é extremamente tóxico e continua chegando a novas localidades — nesta quinta-feira (7), atingiu a região Sudeste, conforme previsões das autoridades. O óleo foi detectado na praia de Guriri, no município de São Mateus, no Espírito Santo.

Em entrevista exclusiva ao HuffPost na semana passada, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, se queixou de o governo federal não ter tomado a iniciativa de fazer essas análises de contaminação para dar uma resposta “transparente” à população.

“Quando se fala em uma live que pode comer os peixes, a gente entende que deve ter tido algum teste, em alguma área infectada e deve ter dado negativo, mas nunca nos foi apresentado [teste]. Então, é importante também ter transparência de todos esses procedimentos, porque isso é fundamental. Se é o mesmo óleo, e foram feitos exames em algum dos estados afetados, esses exames têm que chegar ao conhecimento de todos”, disse Câmara no dia 1º de novembro ao HuffPost no Palácio Campo das Princesas, em Recife. “A gente desconhece qualquer tipo de teste oficial que foi feito em algum tipo de laboratório ou por algum tipo de expediente institucional.”

O governador se referiu à live semanal do presidente Jair Bolsonaro, em que o secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif, afirmou de forma convicta que não havia problemas em consumir peixes, lagostas e camarão de nenhuma região contaminada. “O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo.”

“Apesar de o presidente ontem [31 de outubro] ter dito na live dele que pode comer peixe etc e tal… Cadê o exame, cadê a prova de que pode? Não há nenhum risco de contaminação? Tudo isso a população pede respostas e nós também”, questionou o chefe do estado de Pernambuco.

Alertas à saúde

Apesar do resultado, um grupo de pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Nordeste pede que o governo decrete “situação de emergência em saúde pública”. A direção nacional da entidade diz que a demanda é uma ideia isolada.

Na última terça (5), a Fiocruz instituiu um grupo para monitorar os impactos do óleo na saúde dos nordestinos, com atenção especial à população pesqueira, marisqueira e às grávidas. Segundo o pesquisador Guilherme Franco Netto, da vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, há riscos de contaminação por inalação, contato ou ingestão de alimentos que eventualmente estejam contaminados.

Netto falou na necessidade de adotar parâmetros para análise dos alimentos com potencial de contaminação para, assim, se adequar o consumo de pescados, além de implementar estudos de longo prazo para monitorar a população exposta. O especialista destacou ainda a importância de se informar adequadamente a população sobre não se expor ao óleo bruto ou áreas contaminadas, como areia.

Na quinta-feira (7), o Ministério da Saúde divulgou que 70 casos de intoxicação por contato com petróleo foram registrados no Nordeste: em Pernambuco (66), Bahia (3) e Ceará (1). Segundo o boletim epidemiológico, 57% dos afetados são homens com idade média de 28 anos, e 27% trabalharam como voluntários na remoção do óleo nas regiões afetadas.

As consequências à saúde variam de acordo com o tempo e a dose de contato. Pode haver irritação na pele, vermelhidão, sensação de queimadura, inchaço, sintomas respiratórios, dor de cabeça, náusea, dores abdominais, vômito e diarreia.

Os primeiros laudos foram feitos a partir de vestígios de óleo e de resíduos sólidos coletados nas regiões afetadas. Os pacientes estão sendo expostos por contato com a pele ou por inalação, sendo a respiração a principal via de absorção.

O ministério orienta a nunca entrar em contato direto com o óleo e, se for participar de alguma ação de limpeza, usar máscara descartável, luvas de borracha resistente, botas ou galochas de plástico ou outro material impermeável. Crianças e gestantes não podem participar.

Caso ocorra contato, deve-se lavar a pele com água e sabão e, em seguida, usar óleo de cozinha e outros produtos contendo glicerina ou lanolina para limpar e nunca usar solventes (querosene, gasolina, álcool, acetona, tíner) para a remoção.