O impacto do coronavírus sobre o maior campo de nudistas da França

O naturismo pode funcionar numa era de distanciamento social?
Como o novo coronavírus impacta as praias de campos nudistas?
Como o novo coronavírus impacta as praias de campos nudistas?

Na costa atlântica da França, a noroeste de Bordeaux, fica a maior e mais antiga comunidade de naturistas da França, a CHM Montalivet. Com dimensões de uma pequena cidade, o lugar tem mais de mil bangalôs particulares, um camping enorme, cinema, academia, spa, piscinas, biblioteca e uma praça central com bares, restaurantes, uma padaria, adega e dois supermercados pequenos.

O campo fica no meio de uma floresta de pinheiros, com uma bela praia de areia branca do seu lado ocidental. Há uma pequena população de residentes permanentes que vivem em CHM o ano inteiro, mas no verão a população explode com a chegada de milhares de naturistas que vêm encontrar amigos e escapar do seu dia a dia habitual.

Este ano, o coronavírus talvez torne isso impossível.

O camping do CHM bem no meio de uma floresta de pinheiros.
O camping do CHM bem no meio de uma floresta de pinheiros.

Descobri o CHM Montalivet cinco anos atrás, por acaso, quando estava percorrendo a França de carro com meu namorado. Decidimos espontaneamente parar para conhecer e reservamos uma estadia de quatro dias. Era nosso primeiro contato com o naturismo, então estávamos nervosos e não sabíamos bem o que esperar, mas em pouco tempo nos vimos batendo papo com naturistas de todo o mundo. Todo o mundo foi tão acolhedor que percebemos que havíamos topado com algo muito especial.

O CHM é muito mais do que um acampamento de férias. É uma comunidade com raízes profundas, um lugar frequentado por pessoas que forjaram amizades que vão durar toda a vida. Um casal de aposentados do Texas nos disse: “A gente vem para cá há 25 anos. Depois que você descobre este lugar, nunca mais quer ir embora.” Eles tinham razão. Desde então, meu namorado e eu voltamos para lá todo ano no verão.

Turistas no CHM Montalivet.
Turistas no CHM Montalivet.

O naturismo é um estilo de vida muito sociável. As diferentes gerações convivem de modo muito natural. No CHM, há grandes jantares comunais todas as noites, e a política é sempre “quanto mais gente, melhor”. São cantorias espontâneas, jogos de baralho, desconhecidos te oferecendo um cálice de vinho. Durante o dia há esportes de equipe e aulas de dança; à noite, o bar de praia, de propriedade familiar, tem música ao vivo (com mais dança), noites de quiz e um disco silencioso.

É claro que nada disso é compatível com as regras de distanciamento social. O CHM também tem vários moradores idosos, incluindo um pilar da comunidade, conhecido coloquialmente por todos como Frère Jacques, que vive no local desde que o campo foi fundado, em 1953.

Mesmo agora que a França está relaxando as precauções do lockdown e abrindo suas fronteiras, dificilmente a comunidade do CHM vai poder continuar como normalmente.

Como atesta a placa do bar, pessoas do mundo inteiro visitam o CHM
Como atesta a placa do bar, pessoas do mundo inteiro visitam o CHM

Conversei com algumas das pessoas que conhecemos no CHM para ver se compartilhavam minha preocupação. Pascal, 32 anos, vive em Bruxelas e também topou com o CHM por acaso. Seus pais são naturistas, mas nunca o forçaram a seguir esse estilo de vida. Mas quando a empresa para a qual ele trabalha o enviou ao CHM para conversar com um cliente novo, Pascal se apaixonou pelo lugar.

“Eu estava esperando no centro da vila”, ele recorda. “Uma pessoa com dreads no cabelo, usando apenas um sarongue, estava sentada debaixo de um pinheiro tocando ‘Ashes to Ashes’ no violão. Era uma cena quase mística. Eu só devia passar algumas horas ali, mas acabei ficando uma semana.”

Hoje o naturismo e a comunidade do CHM são elementos importantes na vida de Pascal. “Para mim o CHM representa um lugar atemporal, distante das restrições impostas pela sociedade. O nudismo, por definição, derruba barreiras sociais. O CHM é sinônimo de liberdade e aceitação dos outros.”

“O nudismo, por definição, derruba barreiras sociais. O CHM é sinônimo de liberdade e aceitação dos outros.”

Alex, 31 anos, é inglesa e visitou o CHM pela primeira vez no verão passado. “É uma experiência muito libertadora. Você se sente mais próxima da natureza”, ela explicou. “O local é muito belo, com os pinheiros e as dunas, e o ambiente é super familiar. Você se sente em segurança.”

Ela espera voltar este ano, mas não sabe se isso será possível, mesmo com a França estando isenta das regras da quarentena vigente no Reino Unido. “Ainda não reservei minhas passagens de avião. Vou esperar para ver o que acontece. Imagino que os residentes permanentes, muitos dos quais parecem ser pessoas mais velhas, talvez se sintam mais tranquilos se o resort for reservado apenas para os residentes até esta crise estar um pouco mais sob controle.”

Pascal tem o mesmo receio. “O verão de 2020 será diferente dos verões anteriores, com certeza. Talvez sejamos obrigados a usar uma peça de roupa adicional – uma máscara. Mas o CHM é um lugar frequentado por famílias. Muitos dos residentes são muito idosos. Se o CHM não puder abrir por razões de saúde, vou ficar muito decepcionado, mas, pelo bem de todos (especialmente dos mais velhos), vou entender se o acesso for restrito ou se forem adotadas medidas de segurança drásticas.”

“O CHM é um lugar família”, diz Pascal.
“O CHM é um lugar família”, diz Pascal.

Procurei a direção do CHM para saber como o campo está lidando com a situação. Em e-mail, um funcionário de comunicações da Tohapi, a empresa que administra o campo, respondeu: “Esta situação gera muita incerteza em relação ao próximo verão. Só depois dos anúncios que o governo francês deve fazer em 31 de maio vamos saber o que vai acontecer com os campings e os resorts de férias de modo geral.”

O funcionário disse que o CHM está fechado no momento. Apenas os residentes permanentes – há 400 vivendo ali durante a quarentena – podem continuar ali, e nenhum tipo de serviço está sendo prestado. Um desses residentes permanentes é Alexis, que trabalha no CHM há dez anos.

“Vamos nos adaptar. Esta situação estimula nossa criatividade.”

- Alexis

Ele passa seis meses de cada ano no CHM para comandar o bar e restaurante Gaia, à beira-mar. “As escolhas que fizermos nos próximos seis meses terão impactos sobre os próximos 50 anos”, ele fala. “É natural ficarmos na dúvida sobre se o CHM vai abrir neste verão. Estou preocupado, é claro. O medo do desemprego é uma coisa, mas, como naturista, sei que posso viver feliz com muito pouco.”

Pascal, Alex e eu talvez tenhamos que nos conformar com uma decepção – a notícia de que nossas férias naturistas serão canceladas neste verão ―, mas a comunidade como um todo parece estar determinada a seguir adiante e sobreviver. “Vamos nos adaptar”, disse Alexis. “Esta situação estimula nossa criatividade.”

Ele explica que este lugar e outras comunidades semelhantes pelo mundo afora são muito mais que a soma de suas partes. “O CHM não é um campo de férias. Este lugar simboliza uma ideia que não vai desaparecer nesta época: o naturismo. A solidariedade, o respeito pela natureza, o respeito uns pelos outros, esses são valores que nossa comunidade carrega com ela, quer seus membros estejam no CHM, em Paris ou em Berlim.”

O pôr do sol na praia do CHM.
O pôr do sol na praia do CHM.