NOTÍCIAS
30/10/2019 18:35 -03 | Atualizado 30/10/2019 20:32 -03

MP do Rio diz que porteiro mentiu e nega menção a Bolsonaro no caso Marielle

Após repercussão da reportagem do Jornal Nacional, a promotora Simone Sibilio disse que os testemunhos são “equivocados” e “não têm coerência com provas técnicas e investigações”.

Adriano Machado / Reuters

O Ministério Público do Rio de Janeiro negou que os depoimentos do porteiro que relacionou o nome do presidente Jair Bolsonaro nas investigações sobre a morte da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) sejam compatíveis com as gravações das chamadas feitas pela portaria. 

O porteiro afirmou em testemunhos à Polícia Civil ter falado com alguém, que identificou como sendo a voz do “Seu Jair”, antes de liberar a entrada de Élcio de Queiroz no condomínio Vivendas da Barra, na zona Oeste do Rio de Janeiro, em 14 de março, dia do crime.

De acordo com a promotora Simone Sibilio, Bolsonaro não atendeu ao interfone, como o porteiro deu a entender nos depoimentos que são, na visão dela, “equivocados” e “não têm coerência com provas técnicas e investigações”. 

Os depoimento foram mencionados pelo Jornal Nacional em reportagem veiculada na noite de terça-feira (29), em que registra o acesso da Polícia Civil ao livro de registro de entradas daquele dia, segundo o qual Elcio teria dito que iria à casa 58, de Bolsonaro, mas acabou se dirigindo à residência 65, de Ronnie Lessa, acusado dos disparos que mataram Marielle e o motorista Anderson Gomes. “A prova técnica juntada aos autos mostra que no dia 14/03/2018 às 17h07, quem autoriza a entrada de Élcio Queiroz no condomínio é Ronnie Lessa”, destacou a promotora em coletiva à imprensa na tarde desta quarta. 

Outro lado 

Questionamentos sobre o depoimento do porteiro já haviam sido levantados pelo vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) que exibiu em seu Twitter dois vídeos gravados, segundo ele, na administração do condomínio Vivendas da Barra,  onde ele também tem casa. 

De acordo com o filho 02 de Bolsonaro, os vídeos mostram o sistema da portaria e exibem uma lista com arquivos de áudio do dia 14 de março, data da morte de Marielle. 

Em um dos posts, o vereador mostra o áudio do horário a que se referiu a reportagem do JN, por volta de 17h10, em que o porteiro interfona para a casa 65 - não 66 como mostrado na reportagem - e anuncia a chegada de Élcio. 

‘Imprensa porca’

Os esclarecimentos do MP do Rio foram prestados a partir da repercussão que a reportagem gerou. Logo após a veiculação, o presidente se manifestou em uma live no Facebook direto da Arábia Saudita, por volta de 3h30 da manhã (horário local), em que chamou a matéria de “patifaria”, atacou a Rede Globo, disse que a emissora quer prejudicar a ele, sua família e seu governo. 

Ele criticou ainda o fato de seu advogado, procurado pelo JN, ter sido acionado pela TV Globo “de última hora”. E completou: “Qual a intenção de desgastar o governo federal? O que vocês ganham com um governo fraco? TV Globo, vocês tiveram acesso a um processo que segue em segredo de Justiça. Vocês têm que ser investigados no tocante a isso. Parentes meus estão sendo investigados. Quem está do meu lado está sendo investigado. Qual a intenção de vocês? O orgasmo da TV Globo é ver alguém preso? Eu seguro a onda. Eu tenho imensa responsabilidade. Eu tenho compromisso. Apesar da imprensa porca, nojenta, canalha, imoral.”

Nesta quarta, antes de seguir para o evento conhecido como Davos no Deserto, Jair Bolsonaro disse que pediria ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, para colher novo depoimento do porteiro. Pouco depois, o ministro solicitou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que o Ministério Público Federal atue junto com a Polícia Federal na investigação do caso. 

No documento, Moro destacou que há “inconsistências” e “eventual tentativa de envolvimento indevido do nome do presidente da República no crime em questão, o que pode configurar obstrução de Justiça, falso testemunho ou denunciação caluniosa”. 

Os procuradores do Rio de Janeiro, que até o momento conduzem as investigações sobre a morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, fizeram uma consulta informal ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli. Queriam saber se poderiam seguir com o inquérito ou se a menção do nome de Jair Bolsonaro implicaria inevitavelmente na transferência do caso para instância superior. O ministro Dias Toffoli considerou a consulta informal e não respondeu.