COMIDA
14/04/2019 08:00 -03

Quantas barras você compraria com o valor do seu ovo de Páscoa preferido?

Com o valor do ovo de Páscoa ao leite da Nestlé, é possível comprar 3,5 vezes mais chocolate em barra. "Com certeza, a margem de lucro do ovo é bem maior", explica economista.

Todo ano, com a chegada da Páscoa, a população volta a discutir os preços exorbitantes dos ovos de chocolate, em comparação com a guloseima em barra. 

Além dos preços já salgados, os valores dos ovos variam nos mercados de acordo com a região. Segundo uma pesquisa do Procon-SP, a diferença de preços de um mesmo ovo de chocolate pode chegar a 88%. O ovo Surpresa da Nestlé, por exemplo, foi encontrado por R$ 39,80 e por R$ 74,99 em diferentes lojas de São Paulo. 

Se comparar com os mesmos chocolates nos formatos originais de barras ou tabletes, a diferença de preços é ainda mais gritante. Fazendo uma rápida busca na internet, com o valor de um ovo de chocolate ao leite da Nestlé de 185 gramas, é possível comprar 6 tabletes e meio de 100 gramas do mesmíssimo chocolate, adquirindo assim 3,5 vezes mais chocolate em barra do que comprando a versão de ovo de Páscoa. 

Luiza Belloni/HuffPost Brasil
Infográfico compara quantidades diferentes de chocolate — em ovo e em barra — que um mesmo valor compra.

Afinal, por que os preços são tão diferentes? 

Que há um abismo entre os valores cobrados por um ovo de Páscoa e um tablete do mesmo chocolate, todo mundo já sabe. Mas a indústria se defende argumentando que produzir ovos de Páscoa custa muito mais caro do que produzir uma barra de chocolate.  

Em nota enviada ao HuffPost Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) explicou que os produtos de Páscoa demandam um processo de produção mais complexo e gera um produto final “com mais valor agregado”, tendo o trabalho iniciado, em média, 18 meses antes da data comemorativa. 

A associação explica ainda que o preço dos ovos de Páscoa não é impactado só pelo custo do cacau, mas também por outros ingredientes. O açúcar e o leite, por exemplo, sofreram com a alta do dólar nos últimos meses. “Contratações, distribuição e impostos também influenciam na formação do preço”, acrescentou a entidade. “Há de se considerar um processo de produção de alta complexidade, custos de embalagem, armazenagem e logística.”

O tal do “valor agregado”, ainda de acordo com Abicab, provém de fatores de produção, como: processo manual de embalar os ovos, a fragilidade dos produtos, que demandam processos especiais de logística e armazenamento e, por fim, a contratação de temporários, que muitas vezes permanecem em atividade por até 6 meses.

“Para se ter uma ideia, a indústria de chocolate gerou mais de 18 mil empregos temporários este ano”, citou a Abicab. 

Porém, na visão do economista Eduardo Reis Araújo, conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon), apesar de esses fatores impactarem diretamente o preço final do produto, o valor estipulado é “meramente mercadológico”

A margem de lucro do ovo de Páscoa é bem maior [do que a do chocolate em barra], com certeza.Economista Eduardo Reis Araújo

Segundo o economista, o ovo de Páscoa tem uma margem de lucro maior por ter grande apelo comercial e por estar relacionado a uma estratégia publicitária, que acaba despertando uma preferência da população para ovo, e não para um chocolate em barra. Ou seja, o ovo de Páscoa é vendido como presente, e não como apenas um chocolate.

Além do valor de mercado adicional, ainda há o apelo sazonal. “Por ser uma data comemorativa, existe um efeito ‘manada’, no qual o consumidor se sente obrigado a comprar ao ver todo mundo ao redor adquirindo o ovo”, explica Araújo.

Nesse caso, a racionalidade econômica perde espaço ― uma vez que, convenhamos, o mesmo ovo de chocolate costuma ficar muito mais barato no dia seguinte ao feriado.

O economista acrescenta que, no final das contas, o maior responsável pelos preços dos ovos acaba sendo o consumidor, uma vez que as vendas no varejo continuam a todo o vapor, mesmo com a crise. 

O preço é resultado da famosa equação de oferta e demanda. Ainda temos muita procura nessa época, e assim o preço sobe. Se o consumidor comprasse menos ou fizesse o ovo em casa, em vez de comprar, essa diferença de preço iria se reduzir, e a margem de lucro seria menor.Economista Eduardo Reis Araújo