COMIDA
30/08/2019 02:00 -03

As razões surpreendentes por que não somos tão magros como nossos avós eram

Não é impressão: hoje em dia é bem mais difícil estar no "peso ideal" do que em décadas anteriores. E existem diversas razões para isso.

Ao observar fotos e vídeos antigos, de nossos pais e avós na juventude, não é de se espantar que a maioria das pessoas tinha um corpo magro. 

Não é impressão, as pessoas realmente eram mais magras. Ao longo das últimas duas décadas, o número de obesos no mundo mais que dobrou em relação ao de pessoas subnutridas. 

Entre os homens, a obesidade pulou de 3,2% em 1975 para 10,8% em 2014 e, entre mulheres, a taxa foi de 6,4% para 14,9%. Se a tendência se mantiver, daqui a seis anos, quase 20% dos homens serão obesos e 21% das mulheres obesas.

A obesidade é considerada uma doença por desencadear doenças crônicas como hipertensão, diabetes, colesterol alto, doenças cardiovasculares e até câncer. 

Não é preciso voltar aos anos 20 ou 30, quando os carros praticamente não existiam nas ruas do País e os brasileiros tinham que se “exercitar” ou sempre pegar transporte público precário.

Se comparado à alimentação dos anos 80, pouca coisa mudou. Mesmo se exercitando e tendo acesso a alimentos mais saudáveis, a população mundial está mais pesada do 20 ou 30 anos atrás. 

Fairfax Media Archives via Getty Images

No Brasil, a obesidade chegou ao nível recorde em 2018. Uma pesquisa que monitora o estilo de vida e alimentação do brasileiro, conduzida pelo Ministério da Saúde, revelou que 19,8% da população brasileira está obesa. Nestes 13 anos, a porcentagem de obesidade deu um salto de 67,8%. 

Na contramão disso, os hábitos alimentares mudaram de forma positiva ao longo dos últimos anos. O consumo regular de frutas e hortaliças cresceu 15,5%, ao passo que o consumo de refrigerantes e bebidas açucaradas caiu mais da metade em 13 anos. A prática de atividade física também aumentou. Cerca de 38,1% dos brasileiros praticaram algum exercício no tempo livre, pelo menos 150 minutos na semana. 

Claro, a indústria alimentar, o trânsito, o estresse, o sedentarismo têm grande culpa nisso. Mas, seria só essa a resposta?

As explicações são muitas, mas nem todas são óbvias, contou uma reportagem da revista americana The Atlantic. Em um vídeo com especialistas na área de saúde e obesidade, a revista explicou por que estamos mais gordos hoje em dia.

Um estudo da York University publicado recentemente no jornal científico Obesity Research & Clinical Practice revelou que é mais difícil para adultos de hoje manter o mesmo peso do que os adultos de 20 a 30 anos atrás, mesmo consumindo a mesma quantidade de comida e fazendo exercícios físicos. 

Os autores examinaram dados alimentares de mais de 36 mil americanos entre 1971 e 2008 e atividades físicas de outras 14,4 mil pessoas entre 1988 e 2006. Eles compararam todos os dados, assim como os respectivos IMCs (Índice de Massa Corporal) dos participantes.

O resultado comprovou a teoria: um adulto de 2006 que consome as mesmas calorias e as mesmas quantidades de macronutrientes, como gorduras e proteínas, e fazendo exercícios físicos da mesma forma que uma pessoa fazia em 1988 teria um IMC com cerca de 2,3 pontos mais alto. Em outras palavras: adultos de hoje estão 10% mais pesados do que adultos eram na década de 80, mesmo seguindo a mesma dieta e fazendo exercícios. 

“O resultado do nosso estudo sugere que se você tiver 40 anos agora, você deveria comer menos e se exercitar mais para ter o mesmo peso de alguém com 40 anos anos na década de 70”, disse a professora Jennifer Kuk, coautora do estudo. “No entanto, isso também indica que há questões específicas que estão contribuindo para o aumento da obesidade, além da dieta e de exercícios.”

A revista lista três fatores que podem explicar como nossos corpos mudaram nas últimas décadas. Eles são: produtos químicos (presente tanto nas nossas roupas, quanto nos alimentos), remédios (inclusive que combatem a depressão e ansiedade) e nosso microbiomas. 

Produtos químicos 

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Imagine sua vida sem plástico. É mais difícil do que você pensa. 

Produtos químicos podem ser encontrados em qualquer lugar e consumidos por qualquer pessoa, todos os dias. Químicos encontrados em utensílios de plástico, químicos contra-fogo colocados nos móveis, também presentes nas roupas, nos alimentos ultraprocessados e agrotóxicos podem ter “efeitos obesogênicos” e mudar a forma de como nosso corpo gasta energia ou estoca gordura, assim como alterar os receptores hormonais e estrogênio.

Um estudo publicado na University of Novi Sad, na Sérvia, revelou que um componente químico muito comum em produtos de plástico, como os ftalatos, podem contribuir para o desenvolvimento de distúrbios metabólicos. Os pesquisadores encontraram uma conexão entre níveis do composto com o aumento do risco de obesidade, diabetes e doenças cardíacas. 

Ftalatos podem ser ingeridos por meio da água encanada e até mesmo estar presentes em brinquedos infantis, assim como em produtos higiênicos e café solúvel. 

“Isso pode estar fazendo uma pequena, mas significante, mudança”, diz a The Atlantic. 

Antidepressivos

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Remédios, principalmente os antidepressivos, também podem ter mudado nossos corpos durante estes anos. Com o aumento dos diagnósticos de depressão nos últimos anos, houve um aumento na preocupação sobre efeitos colaterais destes remédios. 

“Muitos deles podem aumentar o apetite, mas também há a possibilidade de eles afetarem também o metabolismo, acarretando na retenção do peso”, explica o vídeo.

Nosso intestino

ROGER HARRIS/SCIENCE PHOTO LIBRARY via Getty Images

O microbioma é qualquer organismo, vírus, fungo, bactéria que vive em nosso corpo, que está ligado tanto a doenças quanto à nossa saúde. 

“O microbioma mais abundante, na verdade, está no trato do intestino; portanto, quando falamos sobre o microbioma humano, a maioria de nós está falando sobre as bactérias no intestino”, explica a revista. 

A flora intestinal tem uma influência direta no peso. Bactérias quebram as fibras e as convertem em energia, regulando assim o apetite.

No entanto, a dieta “ocidental”, pobre em fibras e rica em gordura, inibe as boas bactérias de fazerem seu trabalho. 

Ao contrário de nossos pais, avós e antepassados, tendemos a ganhar peso por causa de produtos químicos que mal podemos viver sem, utilizando antidepressivos e remédios fortes que aumentam nosso apetite e desregulam o metabolismo e ainda temos alterações em nossos microbiomas.

Contudo, a revista lembra que estar acima do peso não é sinônimo de doenças ― e ser magro não quer dizer que você é saudável. 

‘A gente segue um padrão que não é brasileiro’

Na visão do nutricionista Cesar Henrique Azevedo, do Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo, a obesidade também é agravada em uma sociedade cada vez mais estressada e sedentária, que esquece de hábitos e alimentos saudáveis dos nossos antepassados. 

“A gente está seguindo um padrão alimentar que não é brasileiro”, contou ao HuffPost. “Temos cada vez mais comida industrializada, menos tempo para as refeições, ou mesmo comendo na mesa do trabalho. O teu corpo não entende isso.”

Segundo o nutricionista, com o passar dos anos, os brasileiros adquiriram hábitos pouco saudáveis em relação à comida: não priorizam alimentos naturais, mas sim industrializados e ultraprocessados, e não prestam mais atenção ao prato ― ou se come rápido para voltar aos afazeres ou passa a refeição grudado ao celular ou computador, não exercendo assim o chamado “comer consciente” (Mindful Eating, em inglês), que significa “estar presente” no momento da refeição.

O “mindfulness” é uma prática usada há décadas para ajudar pacientes a lidar com o estresse, e está sendo cada vez mais usado também na hora de se alimentar. O princípio é prestar atenção no momento presente e centralizar a atenção sobre si mesmo, se concentrando sobre as suas sensações e seus ritmos biológicos, como respiração e ritmo cardíaco, assim como sobre suas vontades e desejos. Tudo isso na hora de comer.

“Não estamos prestando atenção no que comemos, nem nos alimentos que escolhemos. Quando estamos estressados também liberamos cortisol, que dá uma fome maior ainda. Dificilmente vamos cozinhar vegetais, vamos logo abrir um pacote de biscoito e comer tudo”, conta. 

Para ter uma alimentação mais saudável, é preciso dedicação e planejamento. Ele citou alguns pontos importantes para buscar uma alimentação mais saudável: 

  • Coma mais verduras, legumes e frutas
  • Inclua cereais integrais
  • Priorize peixes
  • Se comer carne, coma em melhor qualidade e em menor quantidade
  • Coma alimentos sazonais
  • Faça comida em casa e provoque menos desperdício.