OPINIÃO
24/08/2020 14:48 -03 | Atualizado 24/08/2020 14:48 -03

A cada 40 segundos, mil tweets perguntam: por que Michelle recebeu R$ 89 mil de Queiroz?

Reação agressiva mostra falta de respeito de Bolsonaro com transparência e prestação de contas inerentes ao cargo de presidente.

EVARISTO SA via Getty Images
Confrontado com pergunta incômoda, presidente ameaça repórter de agressão física.

O ex-capitão Jair Bolsonaro mostrou neste domingo (23) que os 600 dias de governo foram insuficientes para ele entender as obrigações inerentes ao cargo de Presidente. 

Questionado por um repórter do jornal O Globo sobre depósitos feitos na conta de sua esposa, Michelle Bolsonaro, pelo ex-assessor de seu filho Flávio e seu amigo, Fabrício Queiroz, Bolsonaro abandonou o estilo moderado recém-adotado e voltou aos ataques. A resposta à incômoda pergunta foi uma ameaça: “Estou com vontade de encher a tua boca na porrada, tá?”.

Este tipo de resposta tem sido sistemática. Basta que ouça qualquer pergunta que não o agrade, Bolsonaro parte para ataque. Só no primeiro semestre deste ano, foram 53, segundo relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras. O presidente já chegou ao ponto de atacar a imprensa para condenar um ataque contra a imprensa

Irritado com a repercussão de sua fala, nesta segunda (24), Bolsonaro criticou novamente a imprensa. Disse que jornalista com covid-19 tem mais chance de morrer por ser “bundão”. “O pessoal da imprensa vai para o deboche [na frase do histórico de atleta]. Mas quando [a covid] pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é menor. (…) [Jornalista] só sabe fazer maldade, usar caneta com maldade em grande parte. Tem exceções, como aqui o Alexandre Garcia. A chance de sobreviver é bem menor do que a minha.”

Como define a ONG Artigo 19, de defesa do direito à liberdade de expressão e acesso à informação, há “uma política de Estado de hostilidade à imprensa, já que é feita de maneira sistemática, regular, pelo próprio presidente”.

O mesmo jornalista que foi alvo neste domingo já havia sido no fim do ano passado. Ao questionar Bolsonaro sobre o que ele achava que deveria acontecer se o filho dele tivesse cometido algum deslize, Bolsonaro disparou: “Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”.

Na mesma entrevista, o repórter perguntou sobre o empréstimo que ele disse ter feito a Queiroz, e ele respondeu: “Porra rapaz, pergunta para sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, tá certo? Pelo amor de Deus. Comprovante, querem comprovante de tudo”.

Sim, é preciso, comprovar, senhor presidente.

É preciso prestar contas. É preciso ser transparente. Além do comportamento hostil, há o ataque sistemático à transparência. Faz parte da atribuição do cargo prestar contas. Em vez de responder, o presidente acusou o sistema Globo de perseguição.

No Palácio do Planalto, o problema não foi visto pela ótica da incompatibilidade do cargo com a ameaça de agressão física e o desrespeito à transparência. O culpado para o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, segundo relato feito à coluna do Lauro Jardim, é a segurança. Isso, “bastaria que que a segurança afastasse Bolsonaro de jornalistas quando perguntas incômodas fossem feitas”.

A população continuaria, como já está, sem resposta. Pelo menos, podemos perguntar. Como insistir neste direito de questionar não custa, a rede social em que o presidente gosta de fazer anúncios foi invadida pela pergunta:

Presidente @jairbolsonaro, por que sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?

Um levantamento feito pelo pesquisador Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mostrou que a cada 40 segundos, foram gerados mil tweets com a pergunta. Foram mais de 1 milhão de mensagens únicas com o questionamento.

Bolsonaro também precisa esclarecer qual valor foi depositado por Queiroz a Michelle, se ele tinha conhecimento sobre o esquema de “rachadinha” e por que Queiroz estava no sítio do então advogado da família, Frederick Wassef, quando foi preso.

Há perguntas em aberto e nós, jornalistas, não vamos deixar de fazê-las.

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