OPINIÃO
01/07/2019 08:14 -03 | Atualizado 01/07/2019 08:14 -03

Por que me sinto triste? Como estamos nos blindando de todas as emoções

Nomear os nossos sentimentos exige a coragem de olhar para dentro e encarar o que há de mais humanos em nós: a nossa vulnerabilidade.

sesame via Getty Images
Muitas pessoas não entendem por que se sentem tristes e as diferenças entre tristeza e depressão.

Cada época tem uma palavra para falar do seu mal-estar contemporâneo. A da nossa, talvez, seja a depressão.

Às vezes, ela aparece como uma espécie de rolo compressor que não nos deixa perceber as nuances.

Todos os dias, milhares de pessoas chegam aos consultórios de psiquiatras porque estão deprimidas, e o Brasil é o país com as maiores taxas da doença em toda a América Latina, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). 

Em algum casos, trata-se de uma disfunção bioquímica do cérebro que altera as relações com os neurotransmissores e desencadeia uma série de efeitos no corpo e na mente.

Em outros, uma escuta atenta e um convite ao diálogo podem ser o pontapé inicial para entender que, na verdade, aquela pessoa pode estar passando por um processo de luto, tem medo de encarar alguma frustração ou simplesmente está se sentindo triste. Muito triste.

Mas definir a tristeza não é algo fácil.

Nomear os nossos sentimentos exige a coragem de olhar para dentro e encarar o que há de mais humanos em nós: a nossa vulnerabilidade. É por isso que, muitas vezes, pode soar mais simples colocar todas as sensações que envolvem o nosso mal-estar sob o guarda-chuva da depressão.

Por que me sinto triste?

Para o psicólogo Mario Corso, a tentativa de medicalizar o que é do nosso sentir acabou por empobrecer o nosso vocabulário.

“A gente deixou de desenvolver ferramentas de compreensão do que está acontecendo com a gente. E a tristeza é uma dessas coisas. Porque a tristeza não necessariamente é negativa, ela é inerente à condição humana”, explica, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Você considera possível olhar para a humanidade sem a tristeza? Provavelmente não. O ser humano é capaz de sentir e criar as maiores maravilhas, mas também estamos expostos aos fracassos, perdas e erros.

“A patologização dessas emoções vem de uma cultura que está muito ligada ao ideal de felicidade. A gente vive como se o nosso único objetivo de vida fosse a busca pela felicidade. É algo mandatório e egóico. Porque se todo mundo precisa ser feliz o tempo inteiro, a gente acaba vivendo de fachadas”, analisa o psicólogo.

E em tempos de redes sociais, criamos um mecanismo de exposição dessa “fachada” que é quase ininterrupta.

São fotos de viagens perfeitas, casas perfeitas, comidas perfeitas, pessoas perfeitas. Se é assim que esperam que a gente esteja se sentido todos os dias, se é isso que dá status e que rende diversos likes, como, então, dizer que nos sentimos tristes?

Fica cada vez mais difícil de dar vazão à tristeza. Nos sentimos intimidados a não falar a verdade das nossas emoções ou a esconder os nossos momentos de fraqueza.

A vida nem sempre é fácil, mas estamos quase que proibidos de demonstrar essa face verdadeira de nós mesmos.

Por que a tristeza é sempre desencorajada em nossa sociedade?

Às vezes, você não quer ouvir que “tudo vai dar certo” ou que “tudo vai ficar bem”. Às vezes, você só precisa que alguém reconheça que você realmente está mal.

Mas temos a tendência de insistir na narrativa de que “somos fortes” e que “vamos superar”. Não que se sentir no fundo do poço seja a melhor coisa do mundo. Aliás, ninguém gosta de se sentir assim.

Mas o melhor consolo para quem está triste pode ser bem simples: reconhecer aquela dor e não menosprezá-la. Afinal, assim como os momentos de felicidade são fugazes, os momentos tristes também são passageiros.

A ideia de que precisamos sempre vencer acaba criando outro problema, que é culpa por estar se sentindo triste.

“Como assim você está para baixo?”
“Você não pode ser fraco.”
“Se você fosse forte você, não estava se sentindo assim.”

“A principal consequência disso é que as pessoas tem dificuldade de nomear a tristeza e outros sentimentos. De reconhecê-los e abraçar essa dor. Com isso, ficam mais tempo sofrendo”, explica Corso.

Sempre vai existir alguém em uma situação melhor ou pior que a gente. Mas todo mundo tem o direito de se sentir triste. Parece óbvio, mas não é.

Usar a régua dos outros para medir as nossas emoções não funciona. É preciso respirar fundo e mergulhar na incrível aventura que é se confrontar com as suas próprias experiências. 

Desculpa a verdade sincera, mas não existe a busca da felicidade

Talvez uma das grandes roubadas que a gente caiu como sociedade é a ideia de que a felicidade é uma espécie de atalho para a solução de todos os males.

“Não dá para simplesmente ir em busca da felicidade. A felicidade é algo fugaz, não é uma entidade, não dá para pegar nela. É um subproduto de uma outra coisa. É quando você tem um sonho, aí você constrói a trajetória para realizar esse sonho e, de quebra, se diverte no caminho”, analisa o psicólogo.

Segundo Mario Corso, para refletir sobre a ideia da felicidade como atalho é preciso refletir sobre o que encaramos como uma vida rica.

“O que seria uma vida rica? Não é uma vida apenas feliz, mas uma vida cheia de experiências. E são essas experiências que te constituem, amadurecem e fazem você enxergar a vida de outros jeitos.”

Estamos, cada vez mais, nos blindando de emoções

Mas parece que não estamos tão interessados nisso.

Pelo contrário, usamos aplicativos que facilitam a nossa vida em diversas maneiras, mas que nos colocam frente a relações transacionais em que não há intimidade ou empatia.

Não existe espaço para a responsabilidade emocional com o crush ou contatinho. Mas deveria. Ao nos blindarmos de emoções, acabamos por nos privar de diversas experiências.

“A gente vive uma ‘evitação’ da tristeza para não se contaminar com a tristeza do outro. Com os sentimentos dos outros”, diz Corso.

A ‘evitação’ das experiências não deixa que criemos anticorpos. E isso é quase uma covardia moral porque reafirma a ideia de que nunca, em hipótese alguma, podemos nos sentir tristes. 

Mas talvez isso só funcione nos feeds perfeitos do Instagram. Porque no fundo, todo mundo sabe, a tristeza é inevitável.

“A evitação dessas emoções nos deixa desprotegidos para quando situações difíceis chegarem em nossa vida. São as derrotas que nos ensinam muito mais que as vitórias. E quem evita a dor, a perda, a frustração sai muito empobrecido dessa vida”, diz o psicólogo.

É preciso ter instrumentos para lidar com as sensações que nos despertam para aquilo que nem sempre podemos controlar. Sem a coragem de nos expor ao que há de mais visceral em cada um de nós, estaremos todos perdidos.