OPINIÃO
19/07/2020 04:00 -03 | Atualizado 19/07/2020 04:00 -03

Populismos em xeque

A polarização política ao redor do mundo não apresentou resultados palpáveis diante da pandemia. Já governos centristas democráticos têm conseguido entregar melhor a gestão da crise, preservando vidas, que serão essenciais na retomada da economia.

JIM WATSON via Getty Images
Donald Trump e Jair Bolsonaro em encontro na Flórida em março de 2020. Os dois presidentes são populistas.

A covid-19 vem causando uma verdadeira devastação nos sistemas de saúde, mas também nas economias do mundo inteiro. Os reflexos na política são inevitáveis, uma vez que a agenda de muitos governantes se tornou refém do vírus, colocando em risco seus projetos políticos e de poder.

As dores da economia são sentidas na política de forma aguda, algo que já foi ensinado várias vezes por diversos analistas. “É a economia, estúpido”, já dizia James Carville, estrategista político de Bill Clinton. A economia, no final das contas, baliza o voto, e injeções de ânimo em suas oscilações podem ajudar um governante a se reeleger.

Em tempos de pandemia, entretanto, quando o problema é mais vertical, as saídas precisam ser mais trabalhadas, e o risco de troca dos eleitos se torna cada vez mais real. Isso significa que sem soluções mágicas, governantes reféns da distração política como forma de governar, populistas clássicos, tendem a sentir mais os golpes da pandemia nos números da economia em seus países.

Isso explica por que muitos optam pela reabertura de comércio e serviços mesmo ao custo de vidas e controle da pandemia. Políticos que pensam na próxima eleição, ao invés da próxima geração, estão longe da postura de estadistas que precisamos em tempos sombrios como este que vivemos.

Do outro lado, governantes ponderados e hábeis tem usado seu capital político para liderar suas nações e passar medidas reais de enfrentamento ao coronavírus. Essa liderança ficou clara diante dos excelentes resultados no combate ao vírus em seus países. Nova Zelândia, Alemanha, Uruguai e Grécia integram esse grupo.

Diferentemente disso, o mundo vive uma guinada populista à direta nos últimos tempos. Longe do liberalismo conservador tradicional da centro direita europeia ou mesmo da visão tradicional dos republicanos nos Estados Unidos, esse populismo pode começar a sucumbir diante da crise econômica gerada pela pandemia. As urnas farão esse processo de limpeza.

O primeiro grande desafio ocorre nos Estados Unidos, que viverá um ciclo eleitoral polarizado, mas que tem chances de realinhar seu sistema político. Se as chances dos democratas eram pequenas um ano atrás, o cenário apresenta-se hoje realinhado diante da ineficiência no combate ao vírus e no desgaste econômico advindo da pandemia.

Os republicanos tradicionais enxergaram nos tropeços do atual governo uma chance de reconquistar o controle do partido, que em caso de derrota precisará ser reconstruído sob uma nova liderança. Diante disso, nascem movimentos espontâneos nas hostes republicanas que se levantam contra a administração Donald Trump e buscam um retorno do partido aos seus ideias tradicionais e mais consistentes. Argumentam que o partido de Lincoln jamais poderia ter se tornado o partido de Trump.

Está ficando claro que a polarização política ao redor do mundo não entregou resultados palpáveis especialmente diante da pandemia e que governos centristas democráticos têm conseguido entregar melhor a gestão da crise, além de resultados mais consistentes, preservando vidas, que serão essenciais na retomada da economia. Na Alemanha esta tem sido a tônica, assim como no Reino Unido, que mudou de postura após uma fase negacionista.

Ficou evidente que os ponderados colheram melhores resultados do que os populistas ao redor do mundo. Basta olhar para Nova Zelândia, Finlândia, Taiwan, Noruega, Islândia e Dinamarca, todos países com excelentes resultados no combate ao vírus e não coincidentemente governados por mulheres que souberam lidar de forma hábil com a crise.

É preciso escolher exercer liderança, ao invés de distração política, para colher resultados diante desta grave crise como tem feito essa safra feminina de líderes internacionais. Governos populistas são incapazes de entregar esse resultado. Diante disso, talvez um dos principais resultados políticos deste período seja o realinhamento de forças por meio do voto, resgatando governos de caráter mais técnico e centristas, tanto na direita como na esquerda.

Como ao final de uma guerra, quando emergem grande alianças, ao fim desta pandemia, governos de concertação nacional podem substituir populismos e polarizações que tornaram a política um triste palco de divergências e ódios vazios.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.