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08/04/2020 05:00 -03

‘Sofremos primeiro e somos mais fáceis de descartar’, diz moradora de favela no Rio sobre efeitos da pandemia

Auxílio do governo chega um mês depois de a fonte de renda das pessoas mais vulneráveis secar com interrupção dos trabalhos devido a coronavírus.

A resposta mais comum sobre o que mudou desde a pandemia do novo coronavírus na vida de um morador de favela no Rio de Janeiro ou bairro de baixa renda em Brasília é: “estou sem trabalhar”. A perda de renda foi o impacto imediato nos lugares mais vulneráveis das grandes cidades. Assim que o alerta da doença ganhou tons elevados, a busca por trabalhadores informais foi a primeira que sumiu. 

“Os primeiros afetados somos nós da favela, que somos os descartados mais fáceis. É muito triste”, desabafa a moradora da Cidade de Deus, no Rio, Samantha Messiades, 31 anos. 

“Todo mundo aqui conhece alguém que ficou sem renda. Boa parte das pessoas pessoas que moram na comunidade são autônomas. São manicures, cabeleireiros, fazem doce, bolo, trabalham com festa e estão sem trabalho. Catadores de latinha, guardadores de carro, pessoas que trabalham na praia. Boa parte de trabalhadores informais que não tem renda nenhuma”, descreve.

A mãe de Samantha é uma dessas pessoas. Ela é faxineira e está há um mês sem trabalhar. “O índice da pandemia aqui é maior na Barra da Tijuca, onde minha mãe trabalha. Os patrões dispensaram. Como é faxina, não tem vínculo, nada, ela está sem receber. Eu ajudo como posso. Eu tinha um estágio para uma advogada aqui na associação, perdi, porque a procura está baixa.”

Mãe de dois filhos com idade entre 6 e 11 anos, ela diz estar incerta sobre seu futuro. “Daqui a um mês não sei o que será de mim. O pai da minha filha trabalha em restaurante, o pai do menino é motoboy, são áreas muito afetadas. É uma avalanche, um dominó. Os empresários caem e todo mundo cai”, teme.

É uma avalanche, um dominó. Os empresários caem e todo mundo cai.Samantha Messiades, moradora da Cidade de Deus
MAURO PIMENTEL via Getty Images
Mulheres fazem fila para receber doações de cesta básica por ONG na Cidade de Deus, no Rio, durante epidemia.

A situação não é diferente em outras grandes cidades do País. Em Brasília, na Cidade Estrutural, onde boa parte da população é formada por catadores, ambulantes e diaristas, o assunto “desemprego” domina as conversas. Morador da Estrutural, Coracy Coelho, 37 anos, conta que não se fala em outra coisa.

“As pessoas estão preocupadas. A saúde já é fragilizada por conta de uma alimentação também fragilizada, isso nos deixa bem apreensivos. À medida que a crise apertar, a gente não vai mais conseguir convencer as pessoas a ficarem em casa e a gente teme o pior. É uma situação preocupante.”

Ele destaca que as pessoas não querem ficar em casa paradas. “Sem trabalho, ainda enfrentam dificuldade enorme por ter que se escorar em programas de transferência de renda. Muita gente depende do Bolsa Família e quem estava com qualquer problema no cadastro está desesperado para resolver porque é a única opção de renda”, diz. 

Auxílio emergencial

Quase um mês depois de a fonte de renda dessa população mais vulnerável secar, o governo vai liberar um auxílio emergencial de R$ 600 ou de R$ 1,2 mil para mães que são chefes de família. Os que já estão nos cadastros do governo vão começar a receber a partir desta quinta-feira (9). Os demais a partir de 14 de abril. 

Os alertas sobre a necessidade de uma política semelhante a esta de recomposição de renda soam desde meados de março. O próprio governo anunciou o benefício no dia 19 do mês passado, mas alega que a operacionalização estendeu o prazo para que o recurso chegue a ponta. 

Por causa disso, neste mês serão pagas duas parcelas do benefício ―uma no dia 14 e outra entre os dias 27 e 30 de abril. A terceira parcela do auxílio emergencial será paga no fim de maio, entre os dias 26 e 29. 

Wagner Meier via Getty Images

A expectativa do governo é que o auxílio seja necessário por apenas 3 meses, mas não é isso que prevêem os economistas. 

Há quase um mês a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington, tem feito uma defesa para que o governo adote uma proteção social para dar amparo aos que perderão renda. Para ela, o País vai sentir os efeitos da crise por pelo menos um mês e o prazo de pagamento do auxílio deveria ser maior. 

“Três meses não são suficientes; essa crise é muito longa e essa epidemia vai se alastrar por muito tempo. Para que as pessoas tenham proteção, elas deveriam receber esse benefício por pelo menos 6 meses. Eu, na verdade, defendi 12 prorrogáveis, porque eu acho que essa é a extensão da crise com a qual estamos lidando”, disse

Outro que endossa essa tese de que é preciso amparo governamental estendido é o economista Ricardo Paes de Barros, um dos criadores do Bolsa Família. Professor do Insper, o economista prevê que profissionais como camelôs e motoristas de táxi vão sofrer muito “porque não eram tão pobres”. “Logo, têm muito a perder”, disse à Folha.

Na análise dele, estamos na curva de subida, longe ainda de estabilizar o quadro da covid-19 no Brasil. “Há famílias que estão precisando muito e outras que não estão precisando tanto assim. A gente não está conseguindo diferenciar entre o motoboy que nunca teve tanto trabalho, e talvez não esteja precisando tanto de renda, daquela pessoa que perdeu completamente a possibilidade de continuar desempenhando suas atividades econômicas. Neste momento, claro, ninguém vai parar para fazer isso.”

Veja aqui quem pode receber o auxílio e como fazer

Quem pode receber?

Trabalhador informal, seja empregado, autônomo ou desempregado, de qualquer natureza, inclusive o intermitente inativo, inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) até 20 de março de 2020, ou que, nos termos de autodeclaração, cumpra o requisito.

Quais são esses requisitos?

Para ter acesso ao auxílio, a pessoa deve cumprir, ao mesmo tempo, os seguintes requisitos:

- ser maior de 18 anos de idade;

- não ter emprego formal;

- não receber benefício previdenciário ou assistencial, seguro-desemprego ou de outro programa de transferência de renda federal que não seja o Bolsa Família; e

- renda familiar mensal per capita (por pessoa) de até meio salário mínimo (R$ 522,50) ou renda familiar mensal total (tudo o que a família recebe) de até três salários mínimos (R$ 3.135,00).

E quem não está no Cadastro Único?

Trabalhadores autônomos não inscritos no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico) e que não pagam nenhuma contribuição para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) deverão se inscrever no site da Caixa Econômica Federal ou pelo chamado Auxílio Emergencial, também da Caixa.

Quem não sabe se está no Cadastro Único pode conferir a situação ao digitar o número do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) no aplicativo.

Confira aqui os links: 

> Baixe o aplicativo para Android:https://play.google.com/store/apps/details?id=br.gov.caixa.auxilio

> Baixe o aplicativo para iOS (celulares Apple):https://apps.apple.com/br/app/caixa-aux%C3%ADlio-emergencial/id1506494331

 > Para fazer a inscrição pelo site para receber o auxílio: https://auxilio.caixa.gov.br/#/inicio

A Caixa lançou uma página na internet e uma central de atendimento telefônico (disque 111) para tirar dúvidas e efetuar cadastro.