LGBT
10/08/2020 20:00 -03 | Atualizado 10/08/2020 22:35 -03

Como a prisão de uma ativista LGBT levou milhares de pessoas para as ruas na Polônia

Em meio a ações de governo nacionalista e anti-LGBT, país prendeu ativistas e vê onda crescente de protestos.

A condenação a dois meses de prisão de uma ativista identificada como Margot Szutowicz fez com que milhares fossem às ruas em Varsóvia, na Polônia. Protesto foi realizado neste fim de semana diante da pandemia do novo coronavírus e exigiu a libertação da jovem, que defende direitos LGBT.

Margot foi presa por autoridades polonesas na última sexta-feira (7), após ser vista pendurando bandeiras LGBT em estátuas de personalidades religiosas pela cidade e ter danificado o carro de uma ativista anti-aborto. Na sexta, a polícia deteve outras 48 pessoas que tentavam impedir sua prisão.

No sábado (8), em frente ao Palácio da Cultura de Varsóvia, multidões gritavam “Libertem Margot!”, “O arco-íris não é um insulto!”. O protesto, que foi realizado de forma pacífica, também estendeu uma bandeira do movimento LGBT em uma estátua que fica em evidência na entrada do Palácio.

via REUTERS
Pessoas protestam em Varsóvia, na Polônia, por direitos LGBT.

“Estamos aqui para protestar contra o fato de que essas pessoas terem sido detidas pela polícia”, disse Mateusz Wojtowicz, 24, um especialista em folha de pagamento, à Reuters. A polícia começou a libertar os manifestantes detidos no sábado, mas não Margot, que ficará detida por dois meses, disse a polícia.

Ela é membro do grupo “Stop Bzdurom”, que reivindicou autoria da ação que cobriu estátuas religiosas com a bandeira LGBT pela cidade. O grupo diz que o ato tem como objetivo chamar atenção para as ações do atual governo, que colocou gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans no centro do debate público durante a corrida eleitoral, que chegou ao seu fim no mês passado. 

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Pessoas protestam pela liberdade de Margot em Varsóvia, na Polônia.

Andrzej Duda, que pertence ao partido de direita PiS (Lei e Justiça), foi eleito no final julho para um segundo mandato de cinco anos. Em sua campanha, ele tentou se mostrar como um “guardião” dos programas sociais do governo, mobilizando sua base conservadora e críticas ao movimento LGBT. 

Nas últimas semanas de campanha, ele afirmou que a “ideologia LGBT” era mais perigosa do que a “doutrina comunista” e prometeu garantir que as escolas públicas sejam proibidas de discutir os direitos destas pessoas.

A confusão se intensificou nos protestos deste fim de semana quando grupos conservadores se encontram com os que pediam a libertação da ativista.

Segundo a Reuters, eles carregavam cartazes que pediam o “fim do totalitarismo”, uma “família normal” e atiraram garrafas contra manifestantes que haviam pendurado cartazes que diziam “feminismo, não o fascismo”.

A posição das autoridades

Dunja Mijatovic, comissária para os direitos humanos do Conselho da Europa, órgão de defesa humanitária na europa, pediu a libertação imediata da ativista ainda na sexta-feira. “A ordem de detê-la por dois meses envia um sinal assustador para a liberdade de expressão e os direitos LGBT na Polônia”.

“É inaceitável que em 2020 pessoas LGBT sofram perseguições na Polônia. O ataque aos ativistas LGBTI lembra mais os protestos de grupos perseguidos na Rússia do que uma democracia europeia moderna”, disse o deputado Dacian Ciolos em suas redes socias neste domingo (9). Ele é presidente do partido Renew Europa, grupo de centro do Parlamento Europeu.

Antes dos protestos, na última quinta-feira (6), membros da oposição do parlamento formaram um arco-íris com suas roupas para marcar posição durante cerimônia de posse do presidente eleito. O ato também tinha a intenção de demonstrar solidariedade à comunidade LGBT no país europeu. 

Os parlamentares usaram máscaras e roupas com as cores que representam a bandeira do movimento LGBT e se sentaram em fileira para formar uma imagem com as cores durante a cerimônia.

Segundo a Reuters, uma das parlamentares, Anna Maria Zukowska, afirmou que “queria mostrar ao presidente que na constituição há garantia de igualdade para todos.”

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Protesto aconteceu durante posse do presidente Andrzej Duda, eleito ao defender que a “ideologia LGBT” é um perigo nacional.

“Não queremos uma situação semelhante durante o seu próximo mandato, como ocorreu durante sua campanha, quando o presidente desumanizou as pessoas LGBT negando-lhes o direito de serem pessoas”, disse. 

Ainda segundo a agência de notícias, o PiS, partido do presidente, argumentou que os direitos LGBT fazem parte de uma “ideologia estrangeira invasiva que mina os valores poloneses e a família tradicional”.

Em seu discurso de juramento, Duda reiterou sua promessa de manter “a família como a pedra fundamental da sociedade, como nosso bem mais precioso”.

As condenação simbólica das “zonas livres de LGBTs”

Agencja Gazeta / reuters
O protesto, que foi realizado de forma pacífica, também estendeu uma bandeira do movimento LGBT em uma estátua que fica em evidência na entrada do Palácio.

Recentemente, algumas cidades polonesas foram informadas de que perderiam o financiamento da Comissão Europeia - órgão executivo da União Europeia - por incitarem a LGBTfobia.

Desde o início de 2019, foram registrados mais de 80 casos na Polônia em que governos tanto regionais, ou locais, se declararam “zonas livres de ideologia LGBT”.

Em uma decisão simbólica, as cidades foram informadas de que não vão receber os repasses de até 25 mil euros (cerca de R$ 153 mil) do programa “cidades gêmeas”.

O argumento foi de que estes locais não cumpriram o requisito de tratar a todos os cidadãos do bloco sem discriminação.

Além da Polônia

Segundo a ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais), maior organização mundial em defesa dos direitos LGBT, o discurso de ódio por parte de líderes políticos e religiosos aumentou em 17 países da Europa, incluindo Portugal, Espanha e Finlândia, conhecidos por serem acolhedores a esta população. A violência homofóbica, como um todo, também cresceu na região, de acordo com o estudo.

O estudo destaca manifestações recentes. Entre elas, a do partido nacionalista que governa a Polônia e faz frente ao que considera ser uma “ideologia LGBT”, às declarações do presidente do Parlamento húngaro, que equiparou a adoção por casais gays à pedofilia e também colocações de políticos espanhóis e de finlandeses, que fizeram duras críticas às Paradas do Orgulho LGBT no país.

A linha do tempo das ofensivas contra LGBTs na Polônia

 

Fevereiro de 2019 - O primeiro político assumidamente gay da Polônia, Robert Biedron, lança um partido progressista, o Wiosna (Primavera, em tradução para o português), antes das eleições europeias, realizadas em maio.

 

Março de 2019 - O líder do partido PiS, Jaroslaw Kaczynski, diz que o fato de o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, assinar uma carta se comprometendo com direitos das pessoas LGBT - que incluem combate à violência e educação de gênero nas escolas - é um ataque às crianças e à família tradicional.

 

Março de 2019 - A primeira de mais de 100 cidades assina uma resolução condenando a “ideologia LGBT” ou o que foi chamado de “Carta dos Direitos da Família”, levando ativistas a rotular os municípios que aderiram à carta como “zonas livres de LGBT”.

 

Maio de 2019 - A ativista Elzbieta Podlesna é presa por colocar pôsteres da Virgem Maria com um halo de arco-íris na cidade de Plock. Em seguida, ela e outras duas pessoas foram acusadas de “ofender os sentimentos religiosos”.

 

Maio de 2019 - Antes das eleições, Kaczynski diz que os direitos LGBT representam “uma ameaça real à nossa identidade”. Outros políticos do PiS afirmam que um programa de educação sexual de Varsóvia, baseado nos padrões da Organização Mundial de Saúde, sexualizaria crianças.

 

Julho de 2019 - A primeira marcha do Orgulho na cidade de Bialystok é atacada por extremistas anti-LGBT, que lançam bombas de fumaça, queimam bandeiras e espancam várias pessoas. A polícia dispersa multidões e detém 25 pessoas.

 

Setembro de 2019 - A polícia evita uma tentativa de ataque a bomba na Marcha do Orgulho LGBT de Lublin.

 

Dezembro de 2019 - Parlamento Europeu estimula a Polônia a suspender as resoluções locais que declaram as áreas “livres da ideologia LGBTI”.

 

Abril de 2020 - Parlamentares poloneses votam para suspender um projeto de lei que prenderia aqueles que “promovem o sexo de menores por até três anos” comparando-os a pedofilos e associando o ato a membros do movimento LGBT. Oponentes argumentam que a intenção do projeto é proibir a educação sexual e de gênero no país. 

 

Julho de 2020 - O presidente da Polônia, Andrzej Duda, é reeleito por para um segundo mandato de cinco anos, depois de comparar a “ideologia” LGBT ao comunismo e prometer proibir a adoção por casais homoafetivos e debate de gênero nas escolas durante a campanha.

 

Agosto de 2020 - Milhares saem às ruas para protestar contra a detenção da ativista LGBT + Margot Szutowicz, que foi acusada de danificar a van de uma militante antiaborto e foi presa no início do mês por pendurar bandeiras de arco-íris em estátuas religiosas em Varsóvia.

(Com informações da Reuters)