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08/08/2020 14:53 -03 | Atualizado 08/08/2020 16:25 -03

Polícia lança bombas de gás em grupo que protestava após explosão em Beirute

Polícia tentou conter manifestantes que tentavam chegar ao Parlamento com bombas de gás; Grupo invadiu ministérios.

PATRICK BAZ via Getty Images
Tropa de choque foi acionada para conter manifestantes que tentavam entrar no Parlamento.

A escalada de tensão entre manifestantes e a polícia em Beirute, durante protestos após a devastadora explosão que matou pelo menos 158 pessoas, levou à morte de um policial neste sábado (8). 

Manifestantes invadiram ministérios do governo e danificaram os escritórios da Associação de Bancos Libaneses, segundo mostraram imagens de televisão, enquanto tiros eram disparados em protestos cada vez maiores após a explosão devastadora desta semana.

Um policial no local afirmou que o seu colega morreu ao cair no poço de um elevador em um prédio próximo, após ser perseguido por manifestantes.

A Cruz Vermelha disse que havia tratado ferimentos em 117 pessoas, e outras 55 foram levadas ao hospital. Um incêndio começou na praça Martyrs, no centro da cidade.

Dezenas de manifestantes invadiram o Ministério das Relações Exteriores, onde queimaram uma fotografia do presidente Michel Aoun, representante para muitos de uma classe política que governou o Líbano por décadas e que dizem ser culpada pela profunda crise política e econômica.

“Ficaremos aqui. Chamamos o povo libanês para ocupar todos os ministérios”, disse um manifestante, com um megafone.

Mais cedo, uma tropa de choque lançou bombas de gás lacrimogêneo contra manifestantes que tentavam ultrapassar uma barreira para chegar ao prédio do Parlamento.

Cerca de 7.000 pessoas reuniram-se na praça Martyrs, no centro da cidade, alguns atirando pedras. A polícia lançou gás lacrimogêneo quando alguns manifestantes tentaram romper a barreira que bloqueia a rua que leva ao Parlamento, disse um jornalista da Reuters. Ambulâncias foram enviadas para o local. Um adolescente desmaiou por causa do gás.

A polícia confirmou que tiros e balas de borracha foram disparados. Não ficou imediatamente claro quem atirou.

Imagens de televisão mostraram manifestantes também invadindo os ministérios da Energia e da Economia.

Os manifestantes entoavam “o povo quer a queda do regime”, bordão popular durante a Primavera Árabe, em 2011, “revolução, revolução”, e seguravam cartazes que diziam “saiam, vocês são todos assassinos”.

Soldados em veículos armados com metralhadoras patrulhavam a área em meio ao conflito.

“Sério que o Exército está aqui? Vieram atirar em nós? Juntem-se a nós e podemos enfrentar o governo juntos”, gritou uma mulher.

A explosão de terça-feira, a maior da história de Beirute, matou 158 pessoas e feriu 6.000, segundo o ministério da Saúde. Vinte e uma pessoas ainda estão desaparecidas por causa da detonação que destruiu uma grande área da cidade.

O governo prometeu responsabilizar os culpados, mas poucos libaneses acreditam nisso.

Interferência externa?

Na sexta-feira, o presidente do Líbano, Michel Aoun, disse que a investigação sobre a maior explosão da história de Beirute examinaria se a causa foi uma bomba ou outra interferência externa, enquanto moradores tentam reconstruir suas vidas destroçadas pela detonação.

ASSOCIATED PRESS
Manifestantes atiram pedra contra policiais, que revidaram com bombas de gás, neste sábado (8).

“A causa ainda não foi determinada. Há a possibilidade de interferência externa por meio de um foguete ou uma bomba ou outro ato”, disse o presidente, em comentários veiculados pela imprensa local e confirmados pelo seu gabinete.

Ele disse que também consideraria se a explosão foi causada por negligência ou acidente. Ele havia anteriormente dito que materiais altamente explosivos haviam sido armazenados sob condições inseguras durante anos no porto. Uma fonte disse que o inquérito inicial culpou negligência no armazenamento de materiais explosivos.

Os Estados Unidos disseram anteriormente que não haviam descartado um ataque. Israel, que travou várias guerras com o Líbano, também negou que teve qualquer papel na explosão.

Voluntários varreram os destroços das ruas de Beirute, que mantém cicatrizes da guerra civil que atingiu o país entre 1975 e 1990 e tem frequentemente sido testemunha de grandes bombardeios e outros distúrbios desde então.

“Será que temos um governo aqui?”, afirmou o taxista Nassim Abiaad, 66, cujo táxi foi amassado pelas ruínas de um prédio que desabou quando ele estava prestes a entrar no veículo.

“Não tenho mais como ganhar dinheiro”, disse.

O governo prometeu uma investigação completa. A agência de notícias estatal NNA afirmou que 16 pessoas estavam sob custódia.

Mas, para muitos libaneses, a explosão foi sintomática de anos de negligência pelas autoridades, enquanto a corrupção prosperava.

Hezbollah nega armazenamento de armas

Também na sexta, o líder do Hezbollah Sayyed Hassan Nasrallah negou acusações de que seu movimento apoiado pelo Irã tenha armas armazenadas no porto de Beirute e pediu uma investigação sobre a maior explosão que atingiu a capital libanesa.

Reuters TV / reuters
Explosão no porto destruiu parte da cidade de Beirute.

Em um discurso televisionado, Nasrallah chamou a explosão de terça-feira de “um evento excepcional” que exige unidade e calma. O xiita Hezbollah, fortemente armado, tornará clara sua posição política depois que a poeira baixar, acrescentou.

Ele elogiou a solidariedade e a ajuda que chegam de todo o mundo, incluindo uma visita do presidente francês, Emmanuel Macron. Ele disse que isso representa uma oportunidade para o Líbano, que já estava mergulhado em crise financeira.

O líder do Hezbollah ―cuja facção é grande apoiadora do atual governo― perguntou por que o nitrato de amônio estava no porto, não importando a causa da explosão.

“Isso significa que parte do caso é absolutamente negligência e corrupção”, disse ele.

Israel, que travou muitas guerras com o Hezbollah e é um Estado inimigo do Líbano, negou qualquer participação na explosão.