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07/09/2020 08:29 -03 | Atualizado 07/09/2020 08:29 -03

Como a polícia ajuda a milícia supremacista nos Estados Unidos

Novos dados mostram que milícias de extrema direita, muitas vezes com apoio da polícia, ameaçaram manifestantes cerca de 500 vezes desde que George Floyd foi assassinado por policiais.

ILLUSTRATION: HUFFPOST; PHOTOS: GETTY/AP/REUTERS

De acordo com um vídeo, antes de supostamente abrir fogo contra manifestantes antirracistas em Kenosha, Wisconsin, no último dia 25, deixando dois mortos e um ferido, Kyle Rittenhouse, de 17 anos, foi incentivado pela polícia. 

Junto com outros homens armados, Rittenhouse andava pelas ruas de Kenosha com um fuzil. O grupo era uma autoproclamada milícia local, formada para proteger a propriedade privada das ações dos manifestantes. 

No vídeo, podemos ver um policial agradecendo o grupo pelo alto-falante e jogando uma garrafa de água para Rittenhouse. 

É uma cena que costuma se repetir na história dos Estados Unidos: policiais que recrutam justiceiros brancos armados para ajudar a reprimir com violência os movimentos que buscam a igualdade e a liberdade racial (nos protestos, os manifestantes dizem que “a polícia é amiga da Ku Klux Klan”). 

Não foi nenhuma surpresa quando outro vídeo, divulgado na terça-feira (25), mostrou Rittenhouse andando em direção aos policiais depois do suposto assassinato de dois manifestantes. Além disso, ele só foi preso no dia seguinte, na casa onde mora em Illinois. 

Nos últimos meses, o país foi tomado por manifestações históricas contra a violência policial. No entanto, a presença antagônica e ameaçadora de milícias de extrema direita também tem sido uma constante. Elas costumam ser vistas patrulhando as manifestações do movimento Black Lives Matter com apoio implícito (e muitas vezes explícito) dos policiais, e já atacaram os manifestantes com tiros, carros e violência física. 

Conforme as eleições presidenciais deste ano se aproximam e as tensões políticas aumentam, com um presidente que demoniza os manifestantes antirracistas como se fossem “criminosos” e terroristas, e policiais reacionários, desesperados para contestar os pedidos de eliminação da força policial, surge uma preocupação legítima de que a violência das milícias que aconteceu em Kenosha se repita em outros lugares. 

BRANDON BELL VIA GETTY IMAGES
Um homem joga bebida alcoólica no local do assassinato de um manifestante antirracista em Kenosha, Wisconsin, nesta semana. 

Uma onda de violência de milícias brancas

De acordo com dados coletados por Alexander Reid Ross, doutorando do Centro de Análise da Extrema Direita, milícias brancas e representantes da extrema direita estiveram presentes nos protestos do movimento Black Lives Matter para fazer oposição pelo menos 497 vezes este ano. Esses dados foram reunidos de 27 de maio, dois dias depois do assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, até esta semana. 

O conjunto de dados, que Ross compartilhou com o HuffPost, documenta uma violência impressionante da extrema direita nesses protestos, incluindo 64 casos de agressão simples, 38 incidentes de milicianos tentando atropelar manifestantes e nove tiros disparados contra manifestantes. 

Ao todo, seis manifestantes foram atingidos pelos tiros das milícias brancas nos protestos durante o verão nos Estados Unidos, e três deles morreram. 

Os dados de Ross também incluem 387 incidentes de intimidação, como insultos racistas, ameaças e uso de armas de fogo. 

“Não dá nem para fazer comparações, nunca vi nada assim antes”, conta Ross ao HuffPost. 

Os dados coletados por Ross em posts de redes sociais, notícias publicadas na mídia e no Monitor de Crises nos EUA do ACLED, com ajuda da Political Research Associates e do Instituto de Pesquisa e Educação sobre Direitos Humanos, incluem histórias de violência assustadoras. 

Um sargento do exército dos Estados Unidos, que já tinha publicado tweets sobre atacar ativistas do movimento Black Lives Matter, deu um tiro letal em um manifestante em Austin, no Texas. 

Manifestantes do movimento Black Lives Matter em um protesto na zona rural de Bedford County, na Pensilvânia, dizem que um homem branco atirou contra eles à noite, atingindo um deles no rosto. 

Um homem em Iowa City, em Iowa,  tentou atropelar um grupo de manifestantes e, de acordo com o boletim de ocorrência, justificou o ataque dizendo à polícia que os manifestantes precisavam “mudar de atitude”. 

O ritmo constante desses ataques no verão norte-americano coincidiu com a divulgação do apoio aberto ou da colaboração de policiais e  da Guarda Nacional com fascistas e milícias brancas. 

Ross conta que o conjunto de dados inclui aproximadamente uma dúzia de incidentes de milicianos que receberam aprovação ou apoio da polícia. Um delegado no Arizona, por exemplo, comunicou que formaria um “grupo civil” para ajudar a “reprimir a anarquia” nesse momento de “agitação desenfreada”. 

Na Califórnia, um subdelegado foi visto com o símbolo da milícia “III Percenters” no uniforme enquanto patrulhava uma manifestação. Já em Portland, Oregon, os policiais deixaram a gangue fascista Proud Boys atacar os manifestantes nas ruas. 

SETH HERALD / REUTERS
Membros armados de uma milícia se reúnem no capitólio de Michigan em abril antes da votação da extensão da declaração de emergência e da ordem de quarentena da governadora Gretchen Whitme devido ao coronavírus.

Também surgiram imagens preocupantes de policiais interagindo com ativistas de extrema direita: na Geórgia, um policial foi fotografado cumprimentando um membro de uma milícia armada e, na Filadélfia, alguns policiais  posaram para uma foto com milicianos que perambulavam pelas ruas da cidade com tacos de beisebol. 

Além disso, apareceram ainda mais histórias de policiais apreciando a violência contra os manifestantes. 

Um chefe de polícia em Sioux Rapids, Iowa, foi suspenso por duas semanas depois de escrever um comentário no Facebook incentivando as pessoas a atropelar os manifestantes do movimento Black Lives Matter.

“PISEM FUNDO E CUIDADO COM AS LOMBADAS”, dizia o comentário. 

Além disso, em Wilmington, na Carolina do Norte, três policiais brancos foram demitidos porque foram filmados usando insultos raciais enquanto conversavam sobre o extermínio de manifestantes negros.

“Vamos sair e começar a massacrar esses pretos de merda”, dizia um dos policiais. 

“Vamos apagar essa raça do mapa, arrasar com quatro ou cinco gerações”, continuava o mesmo policial.

Um relatório publicado esta semana por Mike German, ex-agente do FBI e atual pesquisador do Brennan Center for Justice da Universidade de Nova York, demonstrou que foram descobertos vínculos da polícia com “grupos defensores da supremacia branca ou atividades de milícias de extrema direita” em mais de 12 estados desde 2000.

“As iniciativas para cortar as verbas da polícia estão ganhando destaque, e a maneira como os policiais estão se comportando parece justificar esse argumento”, explica German ao The Guardian

A imposição de uma ordem racial

Nick Estes, professor de estudos americanos na Universidade do Novo México e autor do livro “Our History Is The Future”, se lembra de ouvir o rádio da polícia em junho deste ano, quando a milícia armada New Mexico Civil Guard apareceu para ameaçar e atacar manifestantes antirracistas em Albuquerque. 

Ele conta que dava para ouvir os policiais no rádio chamando essa milícia, fundada por um neonazista, de “amigos com armas pesadas”.

Pouco tempo depois, um desses “amigos” atirou em um manifestante antirracista, que ficou gravemente ferido. 

Estes afirma que é importante lembrar a história das milícias brancas nos Estados Unidos para entender como esses grupos fascistas funcionam na sociedade de hoje e como eles costumam formar parcerias com a polícia. 

“A Segunda Emenda foi criada especificamente para permitir que os colonos brancos tomassem medidas contra os escravos que fugiam, contra os povos africanos escravizados, além de matar indígenas nas fronteiras”, explica Estes. 

Ele também conta que, na época da Reconstrução dos Estados Unidos, depois da Guerra Civil, surgiu a Ku Klux Klan, uma milícia branca que usava a Segunda Emenda para aterrorizar os americanos negros. Décadas depois, na era das leis de Jim Crow, cidadãos armados atacavam americanos negros em cidades ou bairros “brancos” no país todo, praticamente sem barreiras legais. 

Além disso, nas “cidades fronteiriças”, comunidades de maioria branca próximas a reservas indígenas, as milícias brancas mutilaram e exterminaram populações indígenas durante várias gerações, e os policiais faziam vista grossa. 

Os milicianos brancos de hoje não estão desvirtuando a história, estão seguindo o plano original da Segunda Emenda.Nick Estes, professor de estudos americanos na Universidade do Novo México

“Agora, houve uma intensificação desse tipo de justiça com as próprias mãos em resposta ao crescimento do movimento Black Lives Matter e das organizações antifascistas”, ele continua. 

Steven Gardiner, analista de pesquisas da Political Research Associates, um grupo de pensadores sobre justiça social que monitora a extrema direita, afirma que houve um “aumento enorme” na atividade paramilitar de direita este ano. 

Segundo ele, esses grupos ganharam força durante os protestos contra o confinamento imposto para tentar conter a disseminação do coronavírus. As milícias armadas cercavam os prédios públicos (e às vezes até entravam neles), deixando bem clara a liberdade que o governo dá às milícias brancas. 

Com as manifestações do movimento Black Lives Matter depois do assassinato de Floyd pela polícia, vários grupos paramilitares e milicianos (Boogaloo Bois, III Percenters, Oath Keepers, Proud Boys e outros nacionalistas brancos) passaram a marcar presença nos contraprotestos da direita. 

“Os contraprotestos têm milicianos armados, mas os policiais só vigiam os manifestantes do movimento Black Lives Matter e aqueles que pedem justiça social”, explica Gardiner. 

Ele conta que isso encoraja os grupos paramilitares. 

“Precisamos reconsiderar seriamente a permissividade com que deixamos esses paramilitares andarem armados nas ruas do país como se fosse algo normal. Não há nada de normal nisso, não queremos viver em uma zona de guerra”, diz Gardiner.  

A “receita do desastre”

Os próximos meses podem ser traiçoeiros, pois várias facções armadas alinhadas ao governo, incluindo milícias privadas, a guarda nacional, delegacias e polícias municipais, podem atacar mais cidades como Kenosha, onde uma revolta estourou depois que policiais atiraram em Jacob Blake nesta semana. 

Além disso, o presidente Donald Trump pode enviar mais tropas federais do Departamento de Segurança Interna, como aquelas que prenderam manifestantes em veículos sem identificação em Portland e Chicago no início deste ano.  

“Essa é a receita do desastre. No mínimo, precisamos definir quem está no comando, entender as regras da aplicação da lei e da Guarda Nacional e saber quem desempenha essa função”, comenta Gardiner. 

Enquanto isso, tanto a mídia de direita quanto o Partido Republicano, liderado por Trump, parecem determinados a colocar mais lenha na fogueira.  

Na quarta-feira à noite, Tucker Carlson, jornalista da Fox News, tentou justificar o suposto ataque de Rittenhouse contra manifestantes antirracistas em Kenosha. 

“Ficamos chocados com o fato de jovens de 17 anos armados terem decidido que deveriam manter a ordem quando ninguém mais se importava?”, perguntou ele aos milhões de espectadores do programa “Tucker Carlson Tonight”.

No dia seguinte, os membros republicanos do congresso, inclusive Matt Gaetz (Flórida) e Paul Gosar (Arizona) fizeram declarações que pareciam defender Rittenhouse, afirmando que, de certa forma, ele agiu em legítima defesa. 

LAURIE SKRIVAN/ST. LOUIS POST-DISPATCH/TRIBUNE NEWS SERVICE VIA GETTY IMAGES
Mark e Patricia McCloskey em frente à casa deles em St. Louis em junho, confrontando manifestantes do movimento Black Lives Matter com armas. Eles foram destaques da Convenção Nacional Republicana nesta semana.

Essa propaganda de direita não foi nenhuma surpresa, considerando a oposição do partido ao movimento Black Lives Matter. 

Na Convenção Nacional Republicana no início desta semana, o Partido Republicano resolveu dar destaque a Mark e Patricia McCloskey, brancos e defensores de Trump, processados por apontar armas a manifestantes do movimento Black Lives Matter em St. Louis este ano. Eles fizeram uma apresentação no horário nobre repleta de mensagens racistas para os eleitores brancos dos subúrbios. 

“Nós não recuamos nunca e, graças a Deus, o presidente Trump também não. Ele vai defender o direito divino de todos os americanos de proteger suas casas e suas famílias”, disse Mark McCloskey.

Os McCloskey não foram os únicos justiceiros brancos que demonstraram entusiasmo pelo presidente este ano.  

“Comício de Trump!” dizia a legenda de um vídeo no TikTok, tirado da primeira linha de um evento de campanha de Trump no mês passado. O vídeo foi publicado por uma conta que dizia “BLUE LIVES MATTER” (movimento contrário aos protestos antirracistas) e “Trump 2020” no perfil. 

O proprietário da conta, Kyle Rittenhouse, de 17 anos de idade, está na cadeia, acusado de homicídio doloso. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.