MULHERES
09/02/2019 09:44 -02 | Atualizado 09/02/2019 09:44 -02

Como é ser modelo plus size e usar biquíni na Índia

Seis mulheres contam como mantém a cabeça no lugar apesar dos preconceitos e hostilidade.

Quando Tanvi Geetha Ravishankar resolveu fazer uma sessão de fotos de moda praia, teve que pedir a uma amiga para lhe comprar um maiô nos Estados Unidos porque nenhuma marca de maiôs plus size enviava seus produtos à Índia e grifes indianas não produziam nada no tamanho dela.

Dois anos mais tarde, a situação no mundo da moda melhorou um pouco, mas o mesmo não se deu com as pessoas, infelizmente. Ravishankar contou ao HuffPost Índia que foi alvo de ataques nas redes sociais: trolls chegaram fazer montagens em que seu rosto aparecia em corpos magros, com mensagens afirmando que só um corpo como aquele “merecia vestir um biquíni”.

Ser modelo plus size é difícil. Ser uma modelo plus size que tem a audácia de desfilar ou se fazer fotografar de lingerie ou moda praia é infinitamente mais difícil na Índia, em vista da guerra ideológica que a sociedade faz questão de travar contra o corpo das mulheres. Conversamos com seis modelos e influencers plus size, algumas delas profissionais e outras não, sobre sua vida e como elas enfrentam um mundo em que a hostilidade e o ódio precisam apenas de um laptop e uma conexão com a internet para se manifestar.

 

Neha Parulkar, 27, Mumbai

Depois de passar dias vasculhando lojas e sites na internet para encontrar um maiô que me coubesse, finalmente eu estava em Goa usando o primeiro maiô da minha vida! Eu passara a maior parte da vida antes disso achando que maiôs ou biquínis só ficam bem em pessoas magras. Meus pais fazem parte das pessoas que compartilham essa opinião.

Isso foi em março do ano passado. Me lembro que me senti nervosa e sem jeito porque muita gente tinha a desaprovação estampada no rosto. Mas meu namorado fez uma foto e eu achei que fiquei maravilhosa, então pedi para ele fazer mais. Foi assim que começou. Hoje eu adoro ser fotografada de maiô. No final do ano passado usei um duas peças, e semana passada fiz fotos de lingerie para um calendário.

Em 2016 me inscrevi em um concurso, apenas de curtição, e acabei desfilando na passarela da Lakme Fashion Week. Mas depois disso trabalhei quase um ano inteiro sem ser paga. As grifes tratam as modelos plus size muito mal. Consegui me virar mesmo assim porque tenho um emprego tradicional no departamento de marketing corporativo de um banco. Eu adoraria ser modelo e influencer plus size em tempo integral, mas não tenho como bancar isso, em vista de como as grifes ainda exploram as modelos plus size neste país.

Na Lakme Fashion Week as grifes pagavam as modelos magras, mas não pagavam nada para as plus size. Elas consideravam, e ainda consideram, que estão nos dando exposição – que nós precisamos delas, mas elas não precisam da gente. Mesmo quando pagam, elas nos pagam muito menos que às modelos magras. A maioria das grifes quer apenas nos dar roupa em troca do nosso trabalho. Meu primeiro trabalho pago como modelo foi em 2017, e eu amei. Mais do que o dinheiro, adorei porque aquilo me mostrou que eu e meu trabalho temos valor.

Mesmo agora, apesar da aceitação crescente, ainda enfrento comentários depreciativos e desumanizadores todos os dias. Trolls, especialmente homens, inundam minhas mensagens particulares perguntando quanto cobro por noite, qual é o tamanho do meu sutiã, me chamando de vagabunda, de búfala... a lista é interminável. Eu opto por focar apenas os comentários positivos e todas as pessoas que me encaram como um exemplo a seguir, não as que têm prazer sádico e doentio em magoar outras pessoas.

Digo a mim mesmo que esse pessoal não tem vida própria e por isso fica tão fixado no que outras pessoas estão fazendo. Penso também no meu namorado maravilhoso, que me dá todo apoio e que eu só conheci porque ele amou minhas fotos no Instagram e me procurou um belo dia, uns 18 meses atrás. Quando há mais bênçãos do que gente imbecil, a vida é boa.

 

Roshini Kumar, 25, Mumbai

Levei dez anos para me sentir totalmente à vontade no meu corpo. Eu tinha uns 15 anos quando recebi o diagnóstico de câncer em estágio quatro. Quando finalmente me livrei da doença, eu tinha o corpo com o qual sempre sonhara, mas nem conseguia me sentar sem estar apoiada.

Nos dez anos seguintes minha relação comiga mesma foi mudando, enquanto eu me ensinava a amar o corpo que testemunhou minha batalha para continuar vivendo. Em 2015 fiz uma sessão de fotos nuas, porque foi nessa época que comecei a aceitar meu corpo tal como ele era.

Quando minha mãe viu as fotos pela primeira vez, ficou chocada. Conversamos sobre por que eu tinha feito as fotos – que a nudez tinha a ver com eu me aceitar. Não era um “show de pele”, como o rótulo que as pessoas tendem a dar a isso.

Sou fotógrafa por profissão. Me nego a retocar a pele na hora de editar fotos. Nunca me descrevi como influencer. Os convites para anunciar marcas chegaram devido ao meu ativismo em relação ao body positivity – ter uma autoimagem corporal positiva. Quando você posta fotos de lingerie, isso vira uma coisa que lhe define. Seu companheiro passa a ser visto como o cara que está namorando “essa” pessoa. Tive dois namorados que ficaram incomodados com o que eu estava fazendo. Acho isso super desanimador. Não tenho paciência com pessoas que não me aceitam como sou.

 

Neelakshi Singh, 27, Mumbai

Na primeira vez que fiz uma sessão de fotos de maiô para uma revista de moda, no ano passado, meus pais ficaram preocupadíssimos, tipo “o que as pessoas vão falar?”. Sendo alguém que já sofreu de bulimia, eu sei como a obsessão de ter uma aparência “X” pode ser prejudicial à saúde. Por isso falei aos meus pais que eu ia continuar fazendo as fotos.

Sou modelo plus size há seis anos. Por sorte nunca sofri muita trolagem, mesmo quando comecei a modelar moda praia. Sei que as pessoas podem ser supercrueis na internet, mas as pessoas têm me tratado quase sempre com gentileza. Procuro conhecer meus seguidores, interagir com eles e ajudá-los como eu puder. Além disso, seleciono meus seguidores sempre e bloqueio os que tentam espalhar negatividade.

Ser fotografada de maiô, biquíni ou lingerie não é uma forma de rebelião para mim. É apenas uma coisa que realmente curto e que me deixa de bem com meu corpo. Meu melhor amigo é o fotógrafo que me clica na maioria dessas sessões, porque ele sempre me incentivou a ampliar meus limites.

Ensino visualização de moda, branding, inovação e história no NIFT (Instituto Nacional de Tecnologia da Moda, na Índia) e na Pearl Academy. Aprendi que as grifes ainda encaram o segmento plus size como uma onda na mídia, apenas uma fase que elas precisam tolerar. Uma modelo ou influencer comum é procurada por outros setores, como turismo ou beleza, para colaborações. Mas as modelos plus size só são convidadas quando as marcas querem passar uma imagem de defensoras da positividade corporal ou quando querem se posicionar. Não fazemos parte do “normal” delas, por isso elas nos pagam menos e não nos dão o mesmo tratamento.

Os estilistas não querem pagar às modelos plus size para desfilarem para eles na semana de moda – como se estivessem nos fazendo um favor. Muitas vezes as roupas plus size, moda praia ou moda casual, são ridículas e feias.

 

Rachna Baruah, 25, Mumbai

Em julho passado, quando comecei a postar fotos de moda praia, cheguei a me perguntar se seria o caso de bloquear minha mãe nas redes sociais. Mas não o fiz. Queria que ela conseguisse aceitar esse trabalho como sendo parte de mim.

Eu sabia que ela ia desaprovar. Quando ela viu as fotos pela primeira vez, me disse que não entende por que minha geração sente a necessidade de fazer fotos de biquíni.

Falei a ela que não é porque eu queira me mostrar sem roupa – que o importante aqui é eu assumir o controle. Ainda sinto a desaprovação dela, apesar de ela não verbalizar mais. Alguns parentes nossos ainda tentam criar problemas entre nós, ligando para minha mãe e fazendo comentários maldosos. Liguei para eles e os mandei ficar quietos.

Mas o que me levou a continuar foram mensagens de amigas que me contaram que também elas se sentiam desanimadas, presas em seus corpos, e que me ver celebrando meu corpo foi empoderador também para elas.

Sempre fui uma pessoa magrinha, mas uns dois anos atrás comecei a ganhar peso devido à síndrome do ovário policístico. A imagem de mim que eu tinha na minha cabeça era totalmente distinta do que eu via no espelho. Não postei fotos de mim de maiô para virar influencer ou modelo – tenho minha própria firma de relações públicas e estou muito satisfeita com minha vida profissional. As fotos foram apenas meu jeito de dizer a mim mesma e ao mundo que todos os tipos de corpo merecem se divertir e ser vistos.

Tenho a sorte de ter um namorado que me dá muito apoio, vive fazendo fotos de mim e me incentivando a postá-las online. Graças a deus que ele não se sente no direito de me dizer o que eu devo ou não fazer com meu corpo!

 

Kripanjali Tellis, 30, Mangalore

Minha avó me criou sozinha. Ela está com 94 anos, mas não me recordo de um único momento em que ela me tenha feito sentir vergonha de mim mesma, nem mesmo quando eu era criança. Graças a isso cresci sentindo confiança em relação ao meu corpo e não senti as apreensões que a maioria das mulheres é condicionada a ter sobre vestir roupas consideradas “inapropriadas”.

Mas moro em Mangalore, um lugar muito pequeno e conservador. Por isso tenho que tomar muito cuidado com onde visto roupas que deixem pele à mostra, se bem que eu venha postando nas redes sociais há quase três anos. Já fui procurada por grifes com convites para colaborações, mas, como trabalho como enfermeira e cuido de minha avó, não tenho pique para encarar isso profissionalmente.

Comecei a modelar lingerie e moda praia, mas ainda não tive coragem de postar essas fotos nas minhas próprias contas – ainda não estou preparada para encarar os julgamentos. Compartilho as fotos numa conta de Instagram que não é minha, dedicada a discutir a positividade corporal. Lido melhor com gente hostil na vida real. No mês passado, por exemplo, alguns garotos na piscina zombaram de mim e de minha amiga, dizendo “sua bunda parece uma melancia”.

Depois da bronca que demos neles, os meninos não voltaram a aparecer na piscina. Estou querendo criar coragem de postar fotos de maiô online, mas sei que a partir do momento em que uma coisa está nas redes sociais, fica difícil controlar as reações e a trolagem. Mesmo assim, essa é uma ideia que pode virar realidade.  

 

Tanvi Geetha Ravishankar, 30, Mumbai

A única vez em que me senti mal no meu corpo foi quando eu sonhava em virar dançarina profissional depois da faculdade, mas me disseram que eu não poderia ser dançarina a não ser que perdesse peso. Então passei fome e perdi 35 quilos, mas me disseram que mesmo assim não era o suficiente. Decidi que não queria passar a vida com fome e infeliz, então virei stylist.

Postei minha primeira foto de maiô no Instagram em 2017. Meu marido era fotógrafo e estávamos de férias nas Maldivas. Mas me lembro que eu não consegui encontrar na Índia um único maiô bonito que me servisse. Pedi a uma amiga para me comprar um nos Estados Unidos antes da viagem. Em 2016, quando me casei, mandei fazer um maiô sob medida, porque firma nenhuma na Índia vendia maiôs do meu tamanho.

E há a questão dos trolls – online e na vida real – que as mulheres são obrigadas a enfrentar. Muitas vezes pessoas conhecidas ligam para minha mãe e fazem comentários irônicos sobre minhas fotos. Por sorte, minha mãe sabe como calar a boca dessas pessoas.

A internet é um lugar cruel, mais ainda se você é mulher. Muito recentemente um usuário do Instagram chegou a manipular minhas fotos de maiô para me dizer que eu pareço uma vaca gorda e que só deveria ser fotograda de maiô quando eu emagrecer tanto quanto minha versão fotoshopada.

Comecei a trabalhar como modelo e a escrever em um blog em 2016, depois de ganhar visibilidade no desfile plus size da Lakme Fashion Week. Me ver de maiô é muito natural para minha família: todo mundo da família me vê de maiô desde sempre e nunca teve problema com isso. Ainda bem que isso não mudou só porque resolvi ser fotografada de maiô.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.